Queremos mudar de vida. Mudar de lugar, de par, de trabalho. Comer melhor, descansar mais, enrijecer o corpo, começar uma obra. Reformar a nossa visão do mundo. Fazer uma revolução pessoal. Sermos nós próprios. Tornarmo-nos naquilo que queremos ser. Ir em busca de uma vida nova.
Ultrapassamos as barreiras exteriores, fazemos os preparativos, compramos todos os apetrechos, erguemos a cabeça, enchemos o peito de ar, mas, chegado o momento da mudança, qualquer coisa resiste. Paralisamos. Afinal, não fazemos parte da minoria privilegiada que consegue dar o grande salto. Parece haver uma força superior que nos amarra a uma vida que não queremos ter.
Entre o desejo de mudança e a inércia que nos imobiliza, o que fazer?
Antes de mais, é necessário começar por resistir às injunções vazias de mudança. O “coaching” moderno e os gurus do desenvolvimento pessoal apelam à transformação total, à reprogramação cerebral – “repita três vezes em frente ao espelho: eu sou bonito, eu sou inteligente, eu consigo” – e dão-nos receitas rápidas para mudanças radicais, que funcionam como dietas ioiô: depois de um imenso esforço de três dias, regressamos aos velhos hábitos e sentimo-nos ainda mais miseráveis do que se não tivéssemos feito nada. A lavagem cerebral não só não comporta uma mudança real, como aumentará a angústia existencial.
O apelo ao renascimento é muito sedutor. Apagamos tudo o que fomos e transformamo-nos noutra pessoa. Mas, além de ser ilusório, faz parte de uma ideologia neoliberal que se concretiza na alienação do indivíduo. Em ambientes íntimos ou públicos, todos dizem que temos que mudar. Nas empresas, ouvimos discursos que solicitam personalidades flexíveis, autónomas e que sejam capazes de reinventar-se sem cessar. Flexível para ser lucrativo, adaptado para querer consumir, autónomo para não precisar de proteção laboral. O indivíduo transformado será, assim, um indivíduo suficientemente enfraquecido para incorporar os interesses do outro, aqui, do capital.
Por isso, o segundo passo para a mudança é não querermos mudar. O que procuramos realmente não é tornarmo-nos noutra pessoa mas sobretudo podermos ser nós próprios. Encontrar o nosso eu perdido no meio de tantas apropriações exteriores. O desejo de mudança significa que não somos o que queremos ser mas o que outros querem que nós sejamos. Espinosa disse que a servidão é deixar-se habitar pela exterioridade. Devemos opomo-nos a tudo o que possa tirar a nossa existência. “A felicidade consiste na pessoa poder conservar o seu eu.”
A resistência às coações exteriores faz-se por duas vias: a manutenção de espaços de respiração e o exercício. É necessário reaprender o silêncio, a velha tática que nos permite ver os desejos intrínsecos, identificar as ameaças da alienação e reconhecer as nossas fontes de alegria. Seja através da meditação, da música ou das artes plásticas, para nos ouvirmos teremos de nos abster de falar.
Reconquistar-se e melhorar-se também exige disciplina. No livro Tens de Mudar de Vida, Peter Sloterdijk escreve que o “o ser humano não está tão possuído por demónios como por automatismos. Não são os maus espíritos que o colocam à prova. São as rotinas e a inércia que o agarram ao chão e o deformam.” Para nos desacorrentarmos da vida que não queremos ter, devemos substituir os maus hábitos – os arquitectos invisíveis das nossas vidas - por bons, e repeti-los com rigorosa regularidade, até que se tornem automáticos e, finalmente, profundamente reformadores.
Desenganem-se os que pensam que este é um apelo espartano. Só com consistência é possível mudar. Mas que seja através de pequenas metas, fáceis de repetir e sedimentar. Cossery, um adepto da indolência, escrevia apenas uma linha por semana. Com essa regularidade, publicou oito belos livros. A criação de uma nova vida não é, pois, um acto heróico, mas a execução constante, mesmo que ínfima, do exercício que nos torna naquilo que queremos ser.
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Quem está morto és tu.
Vocês são todos muito parecidos e fazem todos as mesmas coisas. No ano passado, era o Beirão, sem licor, o Cunha com Silva e os parisienses. Choraram horrores durante dois dias e nunca mais ninguém se lembrou. Que queridos! Que sensíveis! Agora, são os davides, os micaeles e as raparigas das estrelas em guerra.Sempre que vejo uma publicação nas redes sociais sobre a morte de um famoso, apetece-me pôr um altifalante ao ouvido do indivíduo, com esta música, e dizer:
Porque andas a chorar com peninhas das mortes dos famosos? Para que serve este circo necrológico? Se nunca viste esta pessoa a não ser em páginas de revistas, onde é isso te aquece ou arrefece? Se dissesses que é porque não podes mais ouvir as músicas, ver os filmes, ou ler os livros, até compreendia. Mas não. Tens tudo à disposição. Criar afecto por seres ficcionados pela comunicação social não é só pernicioso, porque são imagens criadas para vender produtos e serviços, como também é imbecil.
Do que vocês precisam acima de tudo não é encher a cabeça com lixo emocional mas tratar das vossas vidas. Da vossa terra, se a tiverem, plantá-la, da vossa comida, cozinhá-la, do vosso corpo, mexê-lo, da vossa mente, limpá-la de todas as porcarias que lá põem para vos atormentar.
Porque andas a chorar com peninhas das mortes dos famosos? Para que serve este circo necrológico? Se nunca viste esta pessoa a não ser em páginas de revistas, onde é isso te aquece ou arrefece? Se dissesses que é porque não podes mais ouvir as músicas, ver os filmes, ou ler os livros, até compreendia. Mas não. Tens tudo à disposição. Criar afecto por seres ficcionados pela comunicação social não é só pernicioso, porque são imagens criadas para vender produtos e serviços, como também é imbecil.
Do que vocês precisam acima de tudo não é encher a cabeça com lixo emocional mas tratar das vossas vidas. Da vossa terra, se a tiverem, plantá-la, da vossa comida, cozinhá-la, do vosso corpo, mexê-lo, da vossa mente, limpá-la de todas as porcarias que lá põem para vos atormentar.
Victor Torpedo Karaoke, So Dead.
Emoção, eu amo-te.
Adorei aquele vídeo super viral do avozinho que simula que morreu mas afinal está vivo. Quase fiquei a achar que sou muito má pessoa por não dar atenção a quem merece e apenas lembrar-me do que é importante na hora da despedida. Estive mesmo perto de me sentir uma grande gananciosa que põe o trabalho à frente do mais importante, o amor. Mas não. Achei que não estou mais tempo com determinadas pessoas por dois motivos básicos: ou porque elas não me fazem sentir bem ou porque, efectivamente, não tenho tempo.
O problema deste vídeo é apelar à auto-culpabilização, o que é muito duvidoso. Na sociedade contemporânea, bué da neoliberal, as pessoas não socializam mais porque estão exaustas. Trabalham demais, no e fora do trabalho. E têm, realmente, muito pouco tempo para fazerem o que lhes apetece, com quem gostam. Por isso é que este vídeo não serve para nada e é apenas um sintoma desta nova tendência da exploração das emoções como recursos para aumentar a produtividade e o rendimento. Os objectivos são manipular os nossos instintos mais básicos e criar instabilidade, os dois pontos de partida para o consumo inconsciente.
Como não podemos consumir coisas, infinitamente, mas emoções sim, é preciso apelar à emoção para vender. Ou para controlar. É por este motivo que, agora, nas grandes empresas, só se fala em capital humano, gestão de recursos humanos, gestão emocional e mais não sei quantas formas sofisticadas de dizer “como controlar pessoas e levá-las a fazer o que nós queremos”, que é apenas uma coisa: aumentar o rendimento delas, para aumentarmos o nosso lucro, ou a nossa notoriedade, de acordo com a actividade da empresa. Porque dominar um objecto é muito mais fácil do que dominar uma pessoa. Os seres humanos, que, dizem os grandes livros de gestão, são “o factor-chave das empresas”, são um bocado complexos, pelo que é preciso perceber bem como eles funcionam e fazer com que ganhem amor à camisola. Só que é à camisola do empregador, não à do empregado.
Resumindo, o apelo à emoção é uma forma de alcançar os nossos instintos mais básicos e explorá-los a um nível pré-reflexivo, desprovido de consciência explícita, cujo objectivo é influenciar as nossas acções. Ou seja, pretendem induzir-nos a comprar, ou a comportarmo-nos de uma determinada forma, que beneficie quem a explora. A emoção é, assim, uma forma muito bonita, e eficaz, de manipulação.
Depois de ver este vídeo, alguém vai passar a visitar regularmente o avô, o tio ou o primo? Não. Mas é bem capaz de comprar umas coisas que estão ali à mão, para consolar a alma angustiada pela falta de tempo, seja para os visitar, seja para descansar, seja para fazermos qualquer coisa que, pelas nossas limitações, queremos fazer mas não conseguimos.
O problema deste vídeo é apelar à auto-culpabilização, o que é muito duvidoso. Na sociedade contemporânea, bué da neoliberal, as pessoas não socializam mais porque estão exaustas. Trabalham demais, no e fora do trabalho. E têm, realmente, muito pouco tempo para fazerem o que lhes apetece, com quem gostam. Por isso é que este vídeo não serve para nada e é apenas um sintoma desta nova tendência da exploração das emoções como recursos para aumentar a produtividade e o rendimento. Os objectivos são manipular os nossos instintos mais básicos e criar instabilidade, os dois pontos de partida para o consumo inconsciente.
Como não podemos consumir coisas, infinitamente, mas emoções sim, é preciso apelar à emoção para vender. Ou para controlar. É por este motivo que, agora, nas grandes empresas, só se fala em capital humano, gestão de recursos humanos, gestão emocional e mais não sei quantas formas sofisticadas de dizer “como controlar pessoas e levá-las a fazer o que nós queremos”, que é apenas uma coisa: aumentar o rendimento delas, para aumentarmos o nosso lucro, ou a nossa notoriedade, de acordo com a actividade da empresa. Porque dominar um objecto é muito mais fácil do que dominar uma pessoa. Os seres humanos, que, dizem os grandes livros de gestão, são “o factor-chave das empresas”, são um bocado complexos, pelo que é preciso perceber bem como eles funcionam e fazer com que ganhem amor à camisola. Só que é à camisola do empregador, não à do empregado.
Resumindo, o apelo à emoção é uma forma de alcançar os nossos instintos mais básicos e explorá-los a um nível pré-reflexivo, desprovido de consciência explícita, cujo objectivo é influenciar as nossas acções. Ou seja, pretendem induzir-nos a comprar, ou a comportarmo-nos de uma determinada forma, que beneficie quem a explora. A emoção é, assim, uma forma muito bonita, e eficaz, de manipulação.
Depois de ver este vídeo, alguém vai passar a visitar regularmente o avô, o tio ou o primo? Não. Mas é bem capaz de comprar umas coisas que estão ali à mão, para consolar a alma angustiada pela falta de tempo, seja para os visitar, seja para descansar, seja para fazermos qualquer coisa que, pelas nossas limitações, queremos fazer mas não conseguimos.
Liguem os telemóveis, vai começar o espectáculo.
Pronto, começou o espectáculo da compaixão. Sentem-se todos em frente à televisão, agarrem bem nos telemóveis, abram as redes sociais e comecem todos a chorar copiosamente. Mas não é só hoje, está bem? Amanhã é pelos africanos, depois de amanhã pelos sírios, no dia seguinte pelos favelados, mais um dia para os mexicanos, outro para os hawaianos, até ao fim das vossas vidas. O que não falta é motivo para peninhas. Entretanto, enquanto estão aí entretidos, alguém vai tratando da vossa terra e da vossa vida.
Moradas no além.
Quando me dizem para seguir Deus, a bondade, a liberdade, a verdade, o bem comum ou a humanidade, fico sempre confusa. Afinal, é para fazer o quê?
Se o remédio é abrandar, por que continuamos a correr?
Um espectro atravessa os novos tempos, o da exaustão. Vivemos a violência do excesso: de informações, estímulos e impulsos. Nunca paramos. Estamos sempre a produzir, a render, a comunicar. Corremos como gazelas mesmo sentados. E se em algum momento surgir um tempo vazio, corremos a ocupá-lo. A violência da sociedade actual já não é só disciplinar, também é neuronal.
Passamos de criar loucos e criminosos para conceber esgotados, frustrados e deprimidos. As doenças paradigmáticas da nossa época, como o transtorno por défice de atenção e hiperactividade, o transtorno de personalidade "borderline" ou o síndroma de "burnout" não têm origem num vírus, na alteridade. O inimigo fundiu-se em nós, está no próprio sistema. A doença nasce no corpo sobreaquecido, e alastra-se como metástases, minando silenciosamente as nossas almas. E a pergunta impõe-se. Se a exaustão nasce do excesso, e dá origem a uma autoagressão apática e progressiva, por que é que não diminuímos, retiramos, cessámos? Se o remédio é abrandar, porque continuamos a correr?
Primeiro, estamos sobreocupados porque há uma pressão constante para um maior rendimento. O objectivo da sociedade actual é claro: o ser humano é uma máquina que tem que maximizar a sua produção e funcionar sem falhas e interrupções. É por este motivo que há cada vez mais medicamentos para aumentar as capacidades físicas e intelectuais, que nos permitam continuar mesmo quando já ultrapassamos os nossos limites. Ou a razão do aumento do consumo de drogas para entretenimento. Esgotados, deixamos de ter a capacidade de nos divertir, enfraquecemos, separamo-nos.
Depois porque, na era moderna, sem crenças, sem convicções e isolados, sem nada que nos garanta duração ou estabilidade, precisamos a todo o custo encontrar um sentido de vida. A ocupação constante é uma tentativa de esquecimento da nossa finitude. Alienamo-nos voluntariamente para vestir esta vida nua. Mas vesti-la desta forma não só não nos tira o frio, como está a tornar-nos angustiados, frustrados, deprimidos.
O ser demasiado ocupado é um ser automatizado. A hiperactividade não é mais do que um sintoma de esgotamento nervoso que resulta numa hiperpassividade. Quando estamos exaustos, deixamos de conseguir resistir aos estímulos. Ficamos diminuídos das nossas capacidades. Não tomamos decisões livres. Fazemos tudo por impulso, não porque escolhemos fazer. A máquina não consegue deter-se. Ou, como diria Nietzsche, “tal como uma pedra, o homem activo rebola ao sabor da estupidez mecânica.” E o frenesim apenas acelera o que já existe. Não gera nada de novo. Só a contemplação do descanso permite o pensamento, a criação.
Talvez seja por isto que Pascal dizia que “toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa, que é não saberem ficar quietos dentro de um quarto” ou que o último filme de Godard termine com Roxy, um cão que passeia, brinca e dorme sestas no sofá, num Adeus à linguagem. O não-fazer, o descanso profundo, o tempo sem tempo, proporciona-nos uma serenidade especial. Descansados, rejuvenescemos, gostamos mais dos outros. As coisas começam a reluzir, a bruxulear. Neste mundo frenético, de uma imensa necessidade de paz, urge, pois, parar, interromper, descansar.
Passamos de criar loucos e criminosos para conceber esgotados, frustrados e deprimidos. As doenças paradigmáticas da nossa época, como o transtorno por défice de atenção e hiperactividade, o transtorno de personalidade "borderline" ou o síndroma de "burnout" não têm origem num vírus, na alteridade. O inimigo fundiu-se em nós, está no próprio sistema. A doença nasce no corpo sobreaquecido, e alastra-se como metástases, minando silenciosamente as nossas almas. E a pergunta impõe-se. Se a exaustão nasce do excesso, e dá origem a uma autoagressão apática e progressiva, por que é que não diminuímos, retiramos, cessámos? Se o remédio é abrandar, porque continuamos a correr?
Primeiro, estamos sobreocupados porque há uma pressão constante para um maior rendimento. O objectivo da sociedade actual é claro: o ser humano é uma máquina que tem que maximizar a sua produção e funcionar sem falhas e interrupções. É por este motivo que há cada vez mais medicamentos para aumentar as capacidades físicas e intelectuais, que nos permitam continuar mesmo quando já ultrapassamos os nossos limites. Ou a razão do aumento do consumo de drogas para entretenimento. Esgotados, deixamos de ter a capacidade de nos divertir, enfraquecemos, separamo-nos.
Depois porque, na era moderna, sem crenças, sem convicções e isolados, sem nada que nos garanta duração ou estabilidade, precisamos a todo o custo encontrar um sentido de vida. A ocupação constante é uma tentativa de esquecimento da nossa finitude. Alienamo-nos voluntariamente para vestir esta vida nua. Mas vesti-la desta forma não só não nos tira o frio, como está a tornar-nos angustiados, frustrados, deprimidos.
O ser demasiado ocupado é um ser automatizado. A hiperactividade não é mais do que um sintoma de esgotamento nervoso que resulta numa hiperpassividade. Quando estamos exaustos, deixamos de conseguir resistir aos estímulos. Ficamos diminuídos das nossas capacidades. Não tomamos decisões livres. Fazemos tudo por impulso, não porque escolhemos fazer. A máquina não consegue deter-se. Ou, como diria Nietzsche, “tal como uma pedra, o homem activo rebola ao sabor da estupidez mecânica.” E o frenesim apenas acelera o que já existe. Não gera nada de novo. Só a contemplação do descanso permite o pensamento, a criação.
Talvez seja por isto que Pascal dizia que “toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa, que é não saberem ficar quietos dentro de um quarto” ou que o último filme de Godard termine com Roxy, um cão que passeia, brinca e dorme sestas no sofá, num Adeus à linguagem. O não-fazer, o descanso profundo, o tempo sem tempo, proporciona-nos uma serenidade especial. Descansados, rejuvenescemos, gostamos mais dos outros. As coisas começam a reluzir, a bruxulear. Neste mundo frenético, de uma imensa necessidade de paz, urge, pois, parar, interromper, descansar.
30 dias sem Facebook.
Fazemos contas a tudo. Fazemos contas à vida e ao dinheiro. Raramente fazemos contas ao tempo. Decidi fazer a contabilidade do meu: de um dia, oito horas gasto-as a dormir, outras oito a trabalhar, e preciso de saber o que faço do resto. Viagens, revisão de livros, aulas, e, como vivo sozinha: tratar do corpo, da roupa, das compras e do jantar. Mas ainda me sobrava tempo. Perguntei-me: "O que fazes depois de acordar, quando queres descomprimir do trabalho e depois de almoçar e jantar?", A resposta estava dada. Gastava-o no Facebook.
Para além do tempo que nos roubam e do tempo que nos tomam, o resto deixamo-lo escapar. Para mudar o hábito, procurei inspiração e resumi o plano:
1. Fazer a lista dos hábitos a mudar e focar apenas num de cada vez. 2. Compreender o que o desencadeia: antes de o fazer, o que sente? Onde está? Com quem está? O que acabou de fazer? 3. Escolher uma actividade que substitua esse hábito. 4. Repetir a nova actividade até se tornar no novo hábito.
As minhas respostas estavam dadas e as substituições escolhidas. Depois de acordar, iria caminhar. Depois do almoço, ler. Depois do jantar, conversaria com amigos, leria, veria filmes ou meditaria. Quando me sentisse aborrecida ou cansada, os motivos habituais que me levavam a entrar no Facebook, sairia do sítio onde estava, durante alguns minutos, para desanuviar. E assim fiz, durante 21 dias, o tempo supostamente necessário para deixar de pensar no hábito antigo e fazer automaticamente o novo. O que efectivamente aconteceu. Nas caminhadas matinais, com o Thoreau debaixo do braço, que isto de alterar hábitos exige motivações filosóficas, surgiu a pergunta: "Se toda a gente despreza de alguma forma o Facebook, o que nos faz estar tão imersos nele?".
Imergimos no Facebook porque precisamos de evadir-nos. Seja pela televisão, pelo jogo, pelas compras supérfluas, pelas ideias, pelo álcool ou pelas drogas, tentamos por todos os meios superar as nossas limitações humanas e afastar-nos das misérias da vida quotidiana. E precisamos dessa evasão especialmente quando estamos exaustos, porque poderíamos consegui-lo através do desporto, da arte ou da meditação. Mas, como diria Musil, o ser esgotado sente-se atraído pelo que lhe faz mal.
Isolamento
E o Facebook pode fazer mal por três motivos essenciais: fantasia, vício e solidão. É apenas uma fantasia porque é feito de verdades parciais. Não há silêncios incómodos, copos de vinho derramados, nem desarranjos intestinais. Lá, somos todos muito felizes e anfetaminadamente sociáveis. O problema é que no campo da ficção não é possível criar relações humanas íntimas. Todos sabemos que o determina a profundidade de uma relação é a qualidade e não a quantidade das interacções.
E qualidade implica estar com a pessoa em carne e osso. Substituir a comunicação cara-a-cara pela comunicação apenas no Facebook diminui as nossas capacidades de socialização e provoca isolamento. E não é o isolamento dos orgulhosamente não-conformistas, das mentes reflexivas, ou do estóico solitário. É a solidão. E é aqui que o Facebook se pode tornar viciante. Quando o utilizamos porque nos sentimos sozinhos mas estamos cada vez mais isolados por lá estarmos. Quando chega o momento em que já não fazemos "login" porque queremos falar com alguém mas porque temos de lá ir.
O meu objectivo não é juntar-me à paranoia anti-Facebook que o acusa de ser uma cominação que ataca a população inocente. É apenas uma tecnologia e, como tal, nós é que escolhemos como a usamos. A questão é que nós podemos escolher aquilo a que prestamos atenção e em que gastamos o tempo. Porque na vida contemporânea é extremamente difícil mantermo-nos conscientes e alerta, não nos afastarmos das fontes humanas de felicidade: contacto com a natureza, liberdade e relações humanas íntimas, e não ficarmos hipnotizados por uma orgia deslumbrante de ilusões.
Para além do tempo que nos roubam e do tempo que nos tomam, o resto deixamo-lo escapar. Para mudar o hábito, procurei inspiração e resumi o plano:
1. Fazer a lista dos hábitos a mudar e focar apenas num de cada vez. 2. Compreender o que o desencadeia: antes de o fazer, o que sente? Onde está? Com quem está? O que acabou de fazer? 3. Escolher uma actividade que substitua esse hábito. 4. Repetir a nova actividade até se tornar no novo hábito.
As minhas respostas estavam dadas e as substituições escolhidas. Depois de acordar, iria caminhar. Depois do almoço, ler. Depois do jantar, conversaria com amigos, leria, veria filmes ou meditaria. Quando me sentisse aborrecida ou cansada, os motivos habituais que me levavam a entrar no Facebook, sairia do sítio onde estava, durante alguns minutos, para desanuviar. E assim fiz, durante 21 dias, o tempo supostamente necessário para deixar de pensar no hábito antigo e fazer automaticamente o novo. O que efectivamente aconteceu. Nas caminhadas matinais, com o Thoreau debaixo do braço, que isto de alterar hábitos exige motivações filosóficas, surgiu a pergunta: "Se toda a gente despreza de alguma forma o Facebook, o que nos faz estar tão imersos nele?".
Imergimos no Facebook porque precisamos de evadir-nos. Seja pela televisão, pelo jogo, pelas compras supérfluas, pelas ideias, pelo álcool ou pelas drogas, tentamos por todos os meios superar as nossas limitações humanas e afastar-nos das misérias da vida quotidiana. E precisamos dessa evasão especialmente quando estamos exaustos, porque poderíamos consegui-lo através do desporto, da arte ou da meditação. Mas, como diria Musil, o ser esgotado sente-se atraído pelo que lhe faz mal.
Isolamento
E o Facebook pode fazer mal por três motivos essenciais: fantasia, vício e solidão. É apenas uma fantasia porque é feito de verdades parciais. Não há silêncios incómodos, copos de vinho derramados, nem desarranjos intestinais. Lá, somos todos muito felizes e anfetaminadamente sociáveis. O problema é que no campo da ficção não é possível criar relações humanas íntimas. Todos sabemos que o determina a profundidade de uma relação é a qualidade e não a quantidade das interacções.
E qualidade implica estar com a pessoa em carne e osso. Substituir a comunicação cara-a-cara pela comunicação apenas no Facebook diminui as nossas capacidades de socialização e provoca isolamento. E não é o isolamento dos orgulhosamente não-conformistas, das mentes reflexivas, ou do estóico solitário. É a solidão. E é aqui que o Facebook se pode tornar viciante. Quando o utilizamos porque nos sentimos sozinhos mas estamos cada vez mais isolados por lá estarmos. Quando chega o momento em que já não fazemos "login" porque queremos falar com alguém mas porque temos de lá ir.
O meu objectivo não é juntar-me à paranoia anti-Facebook que o acusa de ser uma cominação que ataca a população inocente. É apenas uma tecnologia e, como tal, nós é que escolhemos como a usamos. A questão é que nós podemos escolher aquilo a que prestamos atenção e em que gastamos o tempo. Porque na vida contemporânea é extremamente difícil mantermo-nos conscientes e alerta, não nos afastarmos das fontes humanas de felicidade: contacto com a natureza, liberdade e relações humanas íntimas, e não ficarmos hipnotizados por uma orgia deslumbrante de ilusões.
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