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Trabalhos Modernos.

Hoje em dia, o poder económico não compra trabalho ou serviços, compra pessoas. No fim do século XIX, após longas lutas, foi criado o direito ao “repouso e aos lazeres, a um limite máximo da jornada de trabalho, ao descanso semanal e a férias periódicas pagas”. Nessa época, findado o horário de trabalho, cessavam as obrigações laborais. Aos trabalhadores do século XXI, são-lhes exigidas um sem número de funções que não foram acordadas e ultrapassam largamente esse limite.

A primeira é muito antiga: a vassalagem. O chefe tirano “vê aqueles que o rodeiam requestando e mendigando constantemente o seu Favor; e eles (os trabalhadores) não só têm de fazer o que ele ordena como têm de pensar como ele quer (que eles pensem) e, muitas vezes, antecipar os seus pensamentos para o satisfazer. Não basta que lhe obedeçam, é preciso que lhe agradem, que se esfalfem, que se atormentem; e (…) têm de sacrificar o seu Gosto ao dele, Violentar as suas Inclinações e despojar-se do seu próprio Temperamento natural.”, como escreveu La Boétie, no seu Discurso sobre a Servidão Voluntária. Dentro deste tipo de chefia, inclui-se os que exigem serviços de companhia. Companhia para conversar, passear, almoçar, jantar, de dia, de noite, à semana e ao fim-de-semana. Nada contra a aquisição deste tipo de serviços. Mas devem estar devidamente contratualizados e não disfarçados de ócio, já que constituem exploração do tempo livre do trabalhador. São horas extraordinárias não remuneradas, e, portanto, ilegais. As pessoas que precisam de companhia, ou devem adquiri-la legalmente ou, uma via mais fácil para uns do que para outros, tornarem-se suficientemente interessantes, de meiguice, destreza ou intelecto, para não precisarem de o fazer.

A segunda exigência do poder actual descende da proliferação dos dispositivos tecnológicos de comunicação e, sobretudo, da internet: a disponibilidade ininterrupta. Um inquérito da Deloitte, em Abril de 2015, citado pela BBC, revelou que por escolha ou obrigação 71% dos quadros das empresas lêem mensagens de email à noite ou em férias e 76% consideravam que isso tinha um impacto negativo para a sua vida profissional e familiar. Na era da vigilância total, o poder obriga-nos à comunicação. Através do telemóvel, muitas vezes oferecido pela empresa, para legitimar o controlo, o trabalhador é coagido a responder aos e-mails, chamadas ou outras formas de comunicação, a todas as horas. Desta forma, a tecnologia e a internet em todas as coisas, como nos smartphones, relógios ou óculos inteligentes, que prometia liberdade e flexibilidade laborais, constituem uma corrente invisível, que nos obriga a estarmos disponíveis 24 horas, sem direito a descanso, vida pessoal ou familiar. O cérebro, compelido à disponibilidade ininterrupta, continua a trabalhar mesmo nos momentos em que não é solicitado. Vive em suspenso, na expectativa do telefonema ou do e-mail acontecer.

Outra novidade no contexto laboral é a compulsão pela aceleração e o orgulho no excesso de trabalho. Indivíduos subjugados exibem as suas olheiras e problemas neuro-gástricos como jóias refinadas. O deslumbramento pelo alcance de lugares de chefia ou posições sociais de prestígio impelem-nos à aceitação de condições laborais e tratamento deploráveis. Assim, o trabalhador não só é explorado sob o medo de ser despedido, como se constrange à autoexploração, acreditando que é livre e age em interesse próprio, ainda que os bens que resultam da autoexploração não sejam propriedade sua. Desta forma, encontrar-se-á, sempre, numa posição de submissão. E porque, como dizia Stevenson, “a devoção perpétua ao que um homem considera o seu trabalho só pode ser sustentada negligenciando todas as outras coisas”, estará cada vez mais atomizado, fragilizado, desprovido de laços de amizade e amor desinteressados.

Não é necessário ler estudos de psicologia, neurociência ou comportamento organizacional para saber que o repouso é a primeira condição para a lucidez. É fácil constatarmos que a hiperactividade e o trabalho ininterruptos não geram ideias, apenas inquietação, confusão, desorientação. A velha crença que trabalhar muitas horas é sinónimo de mais produtividade traduz-se num desinvestimento na tão amada eficiência e na criatividade. Já na época dos caminhos-de-ferro, Proust dizia que “seria breve a arte de uma época apressada”. Num século acelerado, doente, esgotado, quando o poder nos força a comunicar, precisamos do direito a desligar, de criar vacúolos de silêncio, de sair Em Busca do Tempo Perdido.

Maus tempos, arte e ficção.

Dizem que a arte e a ficção são necessidades menores em tempos de dificuldade. Mas é quando a realidade se torna insuportável que mais precisamos delas. Não é alheamento do mundo, é construção de um novo. Ao contrário do entretenimento, que é alienação, entorpecimento do pensamento, a arte é florescimento. Enquanto é criada e contemplada, não só liberta a vida da prisão, como revela novas imagens, novas formas de fazer e pensar. Não é irresponsabilidade. É alimentação de espaços de resistência.

Os artistas.

Além dos motivos habituais, os artistas bebem álcool porque não é possível trabalhar intelectualmente mais do que 3 horas por dia, sem recorrer a drogas. E, depois da criação, com o cérebro esgotado, há que fazer passar as horas seguintes. Até que, no dia seguinte, se consiga criar outra vez. Alguns tomam drogas para conseguirem criar mais no mesmo dia. Mas isso não costuma dar muito bom resultado. Escrevem livros enormes, fabulosos, pintam quadros deslumbrantes, compõem músicas memoráveis, e depois matam-se. O abuso diário das drogas para a criação tem essa vantagem e essa desvantagem: ultrapassar os limites humanos e criar um enorme sofrimento nas cabeças deles.
Criar é como tomar anfetaminas, ter um orgasmo, andar de montanha russa. Sente-se uma enorme adrenalina no momento, e desfalecimento de seguida. Extenuados, não há nada que lhes apeteça fazer, a não ser sexo ou beber. Há quem tome drogas, agora para adormecer. Há quem force as sestas. Fazem caminhadas para cansar o corpo, dormem, acordam e voltam a escrever, a pintar, a compor. Também vão para o campo ou para a praia, ver o rio ou o mar, para afastar o tempo. Ir para os ecrãs é que não. Isso cansa o cérebro para nada. É lixo. Energia deitada fora. Se calhar é por isso que agora ninguém cria nada. É preciso parar o cérebro para pensar. Depois, como as histórias, os sons e as cores dos livros, das músicas e das artes plásticas são muito mais interessantes do que as da vida real, especialmente porque foram criadas por pessoas parecidas com eles, que pensam de forma semelhante, acham que as pessoas que não criam são diferentes, estranhas, exóticas. E não pensem que as desprezam. São para analisar, para descobrir. Na maior parte das vezes, até gostam delas porque apreciam a normalidade que não sentem. Fazem-lhes perguntas, ficam a olhar para elas a tentar perceber como funcionam, o que as motiva, como vivem, o que gostam, o que fazem ao domingo à tarde, enquanto eles olham para o tecto à espera que cheguem novamente as horas em que conseguem criar. Por isso é que muitos amigos de artistas os aconselham a não deixar o trabalho das 9h às 17h. Pelo menos, estão entretidos nessas horas. E ganham adubo para a imaginação. Têm é que escolher bem os horários. Não vá oferecer-lhe o tempo da criação.

Fronteiras imperceptíveis.

Fazer um vídeo ou um filme, escrever um texto, desenhar, pintar, esculpir ou compor uma música para mim, é muito diferente de o fazer para uma empresa. Na primeira, apenas estou limitada pelas marcas deixadas no meu pensamento. Na segunda, estou limitada, não só pelas marcas do pensamento de quem me paga, como também, e sobretudo, pelo objectivo da criação, o lucro.
Ainda que separados por uma fronteira imperceptível, os gestos, o pensamento e a criação de um realizador, ilustrador, escritor ou músico nas empresas culturais ou nos seus espaços pessoais diferem radicalmente.
Por isto, às vezes, fico muito concentrada a olhar para as pessoas que criam arte na rua. E tenho visto uma coisa estranha: pessoas que não têm ninguém a pagar-lhes e comportam-se como se tivessem. Tiram fotografias a pensar no lucro, escrevem a pensar no lucro, compõem a pensar no lucro. E isto surpreende-me. As pessoas agora são exploradas duas vezes. Primeiro, pelo parco valor que é dado ao seu trabalho, segundo, por si próprias, já que continuam a comportar-se como se estivessem a trabalhar, mesmo na hora da diversão.