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Trump II.

“-Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal. O resto não tem importância.

(…)

-A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.

-Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?

-A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.”

Albert Cossery em A Violência e o Escárnio.

Da série Como arruinar a autoridade, descredibilizando-a.
http://3tres7sete.blogspot.pt/2015/11/como-cumprir-ordens-ii.html
http://3tres7sete.blogspot.pt/2016/12/adulacao.html

Adulação.

Para todos os seres humanos no mundo, especialmente os portugueses, tenho uma ideia: que tal deixarem de se comportar como atrasados mentais sempre que estão frente a um rico ou a um famoso? Se fosse para arranjar emprego, até percebia. Às vezes, é-se obrigado, para pôr comida na mesa. Mas a subserviência corre por todo o lado. E se, em vez de os bajularem, os escarnecessem? Não só pelo ridículo, também pela imoralidade de uns terem muito mais do que os outros. Se calhar, cansavam-se de fazer figura de bobos e passavam a querer valorizar-se socialmente por outra coisa qualquer. Podiam ser os melhores conversadores, os que escreviam melhores textos, os que compunham as melhores músicas, os que faziam rir, os que cozinhavam melhor, os que ajudavam mais pessoas. Tanta coisa que pode ser motivo de orgulho para um ser humano. Não percebo porque escolhem alimentar esta.

Como cumprir ordens.

Estava declarada a guerra aos mendigos da cidade. As instruções eram claras: os polícias deviam expulsá-los das ruas prestigiadas.

Um polícia viu, ao longe, um mendigo deitado no chão. Ordenou-lhe que saísse dali. O mendigo não reagiu. Gritou-lhe. O mendigo não reagiu. Pontapeou-o. O mendigo não reagiu.

As pessoas começaram a juntar-se à volta dos dois.

O polícia, aflito, pensou: “Não pode estar morto. Posso fazer tudo menos matá-lo. É o meu fim.”

Já em desespero, levantou o cobertor do mendigo para ver se estava vivo.

Era um mendigo de plástico, colocado por uma célula de mendigos desobedientes.

Nunca mais a cidade parou de rir do polícia.

(Sobre o primeiro capítulo d´A violência e o escárnio, de Albert Cossery)

Criar ou desligar interruptores.

Se o controlo é hoje exercido através da internet, a resistência ao poder será feita pelos hackers ou, por qualquer pessoa, no momento em que se desliga.

Os defensores do Estado deverão garantir a existência de espaços onde os cidadãos possam não-comunicar ou recusar-se a fazê-lo.

Os que acreditam que o Estado é uma forma de legitimação do exercício de poder de uma minoria sobre a maioria, aprenderão a piratear as suas estruturas virtuais. A criar vírus que apaguem os dados dos cidadãos das bases de dados das empresas, por exemplo.

Os desobedientes desligar-se-ão.

Elogio da loucura.

Em Portugal, há dois tipos de pessoas que podem dizer aquilo que pensam. Os que têm quem lhes pague as contas ou os que não têm medo de viver na miséria.

Os primeiros são aqueles que passam a vida a achar que estão a denunciar o sistema mas só fazem discursos bolinha de sabão, que estouram e desaparecem no ar. Os segundos são os malucos.

Aqui, só morre à fome quem não tem comida.

Acabei de ler isto ao meu colega de trabalho, que me respondeu, no seu habitual sorriso humorístico: “Depois, diz que queres ter amigos”. Mas aqui vai na mesma. Daqui a meia dúzia de anos, sou eu que estou debaixo da terra e, se não tiver dito o que penso, não terei servido para nada.

Quantos de nós estaríamos dispostos a morrer por uma causa?, pergunta a Patrícia Fonseca. Eu é que não, repondo. Se o senhor se quer suicidar, é lá com ele. Mas isso não servirá para causa nenhuma, como todos sabemos. Vão andar aí no Facebook a partilhar coisas muito apaixonadas durante dois dias e, depois, nunca mais ninguém se lembra dele.

Isto faz-me lembrar uma passagem d´A violência e o escárnio, do Cossery.

“-Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal. O resto não tem importância.

(…)

-A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.

-Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?

-A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.”

Façamos a apologia da desobediência sem sacrifício. Os espaços insubmissos devem ser alegres, de escárnio e dos prazeres da vida. A mudança do sistema nunca será feita por quem retira vantagens dele, mas resistindo e ajudando à criação dos sítios alternativos onde queremos estar. Viver num mundo à parte não é autismo, é viver mais num mundo criado por nós, e menos no criado por eles. Alimentemos os nossos espaços e os discursos que rejeitam a violência do consenso do discurso dominante. Discursos esses que não precisam, nem devem, ser tristes. Parodiar, rir, descredibilizar, também é desobedecer.

Eu sei que o senhor tem todo o direito de morrer pela causa que quiser. Por mim, estava a escrever e a tocar músicas de intervenção, dentro ou fora da prisão, que inspirassem umas cabeças redondas. É que andar com o mundo às costas é um desperdício de energia que não tem qualquer efeito prático, a não ser dores na coluna.

Sábias teorias destinadas a consolar a miséria do povo.

Tenho um amigo que vai a todas as manifestações, pinta murais nas paredes para defender os angolanos, faz instalações humanas a escrever a palavra Sim, para ajudar os gregos, é moderador em debates que falam sobre a solidariedade feminista, organiza festivais de cinema anti-racistas, assina 3755 petições online todos os dias e outras coisas hiper dinâmicas e sensibilizadoras. Nunca vi a vida de nenhum angolano nem de nenhum grego melhorar por causa dessas coisas. Eu acho que foi a resistência, associativa e artística, e a desobediência dessa gente, que a fez conquistar o que tem. Se calhar, os direitos dos trabalhadores foram conquistados pelos trabalhadores (nas greves), e não com a "mudança das mentalidades" dos homens, brancos, classe média/alta, e blá blá blá. Se não, hoje, teríamos mais direitos que ontem, o que não me parece estar a acontecer.

O partido dele até tem um slogan engraçado para as casas abandonadas do Porto “Tanta casa sem gente e tanta gente sem casa!”

No outro dia, porque os parques aqui custam 100€ por mês, e eu já gasto duzentos em gasóleo e portagens, pedi-lhe para me emprestar o lugar de estacionamento, que está quase sempre vazio, porque ele não tem carro, e não me respondeu. Pensei que não tinha visto a mensagem. Passado uma semana, perguntei-lhe o mesmo. Também não me respondeu.

Fiquei triste por ter que começar a fazer a viagem de comboio, já que demoro o dobro do tempo a chegar ao trabalho. Mas tive uma ideia libertadora que me ajudou a recuperar do desgosto. Vou fazer uma manifestação, e, quiçá, elaborar um projecto de lei de iniciativa popular para se poder ocupar todos os lugares de estacionamento vazios deste país.

O slogan será “Tanto parque de estacionamento sem carros e tanta gente sem parque de estacionamento!”

Já me sinto muito melhor.

Eu sei por que te calas.

Há uma pergunta que assola o debate contemporâneo sobre a participação política: porque é que, apesar de sermos livres para nos insurgirmos contra este sistema político, que é totalmente injusto e contrário aos nossos interesses, continuamos calados? Há duas respostas clássicas a esta pergunta. E outra, que é a minha.

Há quem pense que os meios de comunicação social, a igreja, a escola e outros aparelhos ideológicos do Estado exercem uma influência tal que acabamos por acreditar nos valores que justificam a nossa própria subserviência. Esta teoria afirma, por exemplo, que nós acreditamos que estamos desempregados porque não somos suficientemente empreendedores. Outros sustentam que estamos calados porque acreditamos que esta ordem social é natural e que, independentemente do que façamos, os poderosos continuarão a mandar e os pequenos a obedecer.

Estas duas teses têm em comum o facto de afirmarem que estamos convencidos. Ou convencidos que este é o melhor sistema, ou que não há alternativa. Ou seja, estamos enclausurados numa teia ideológica que nos leva a ler o mundo de uma forma contrária aos nossos próprios interesses. Mas isso é condescendência da elite intelectual e económica. Pensar que estamos calados porque não compreendemos o que nos está a acontecer é típico de pensadores de gabinete. Ou de quem precisa justificar os privilégios da sua posição.

A nossa aparente subordinação é uma estratégia de sobrevivência, um teatro que nos dispomos encenar para nos protegermos das represálias a que estamos diariamente sujeitos. Isto pode acontecer no trabalho, para não sermos despedidos, em casa, para evitarmos uma agressão doméstica, ou na escola, para o professor não nos dar má nota.

Nós apenas podemos falar, insultar e revoltarmo-nos em espaços protegidos, onde quem exerce o poder sobre nós não nos oiça. Ou, em espaços vigiados, utilizando uma linguagem disfarçada, rumores, ameaças ou acções anónimas, entre outras formas de resistência. É a nossa guerra de guerrilha. E se acreditássemos que uns nasceram para mandar e outros para obedecer, não criaríamos poemas transgressores, canções de intervenção, ditos populares, peças de teatro satíricas ou utopias que ecoam um mundo imaginário onde ninguém pode exercer poder sistemático sobre ninguém.

É precisamente este discurso oculto, como lhe chama James Scott, o cimento para a acção política que, com determinadas condições, será trazido para o espaço público e que dá origem a reais transformações sociais. Não é de estranhar, portanto, que a maior preocupação dos governos autoritários seja vigiar todos os nossos passos, para não conseguirmos criar espaços próprios que permitam o seu desenvolvimento.

Até ao dia em que alguém tiver a coragem, ou a loucura, de dizer publicamente o que dizemos todos os dias clandestinamente, continuemos, pois, a alimentar as nossas conversas, em casa ou no café, as nossas associações, os nossos livros, as nossas músicas, os nossos eventos de iniciativa popular ou outros espaços nos quais somos livres de dizer o que realmente pensamos. Reforcemos os nossos espaços, que são agora de liberdade oculta, mas também a génese dos nossos espaços futuros de liberdade pública. E nesse dia, que alguém igual a nós se arriscar a trazer à luz o discurso reprimido, será a festa da libertação. Pode ser apenas um dia em que não tenhamos que fingir uma atitude de deferência. Mas também pode ser o primeiro dia da revolução.

A mulher e a sua propriedade.

O problema começa quando te apaixonas. A partir desse dia, colocas a tua vida em suspenso e dedicas-te completamente ao outro. Deixas de ir ao jantar semanal com os amigos para estar com ele. Deixas de fazer desporto para estar com ele. A hora diária que passavas a ler ou a ver o teu programa preferido é substituída por uma hora à espera de uma mensagem ou de um telefonema, ou a acompanhá-lo nas actividades dele. Relegas a escola ou o trabalho para segundo plano e passas a agir de acordo com aquilo que pensas ser os gostos da outra pessoa. Acreditas que esse sacrifício vale a pena porque crês que o êxtase que sentes quando estás com ela é aquilo que sempre procuraste.

Entretanto, decidem viver juntos. Ao esforço emocional, acresce o esforço físico. Compras as matérias-primas para as refeições e para a limpeza da casa. Cozinhas, limpas, passas a ferro, serves as refeições e lavas a loiça. O teu novo trabalho não tem horário, não tem direitos de doença ou despedimento e muito menos remuneração. Fá-lo gratuitamente todos os dias na esperança de seres recompensada com amor e compaixão. É neste momento que começas a ficar exausta e, como verificas que o relacionamento está a piorar, esforças-te ainda mais, tentado agradar de todas as formas. Pode ser também neste momento que decides abandonar o teu trabalho para te dedicares a tempo inteiro ao companheiro, à casa e aos filhos. Se já tinhas perdido a independência emocional, agora também perdes a independência financeira. Tal como os escravos, trocas trabalho por um tecto e comida, com a agravante de teres de estar disposta sexualmente e ouvir frases como “A única coisa que sabes fazer é pedir dinheiro.” Ou “Mas porque é que estás cansada se estiveste todo o dia em casa?”

Pode chegar o dia em que pensas que isto aconteceu porque não és suficientemente bonita ou inteligente, que tens uma tendência natural para a depressão, para o histerismo ou mesmo para a loucura. Mas não acredites nisso. Esta história não é sobre beleza ou inteligência mas sobre autonomia, sobre o sacrifício que fazemos para recebermos do companheiro aquilo que precisamos de dar a nós próprias.

Para que isto não aconteça contigo, emancipa-te. Mantém a tua independência. Não importa se fazes “telemarketing”, se serves às mesas ou és empresária. Orgulha-te da capacidade que tens de sustentar-te. Não faças o trabalho doméstico que compete ao teu companheiro. Se ele não o fizer, não te apoquentes. Trata da tua comida e da tua roupa e segue em frente. Não te isoles dos teus amigos ou da tua família. Para não dependeres emocionalmente da outra pessoa, partilha o teu amor com outras pessoas, animais, natureza, música, livros, desporto ou outras paixões. Não controles nem deixes que te controlem. Prioriza sempre a tua dignidade, porque ela é, no fim de contas, a coisa mais importante que possuis.