Aos meus leitores enraivecidos com o último texto,
Reconheceram-se logo, não foi? Porque vos ofende tanto chamar-vos parolos? Se substituísse a palavra por "chiques", iam adorar identificarem-se com aquelas barbaridades, não era?
E que tal preocuparem-se com coisas mais importantes na vida?
É que, quanto mais escrevem, mais me lembram o Dâmaso de Salcede.
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Achas para a minha fogueira.
Sempre que conheço um conjunto de imbecis, surgem-me logo ideias para escrever. Se toda a gente fosse sensata e inteligente, a vida era bem menos divertida. É por isso que a arte, para mim, nunca nascerá do belo e do sublime mas da apreciação do permanente espectáculo da estupidez humana.
L7, Fuel My Fire.
O sistema.
Gostei muito de todas as mensagens que enviaram sobre o meu novo trabalho.
Aos que disseram que me vendi ao sistema e que
“Esse festival está super comercial
Não sei como aceitaste
Julgava-te punk.”
Tenho umas coisinhas a dizer:
Onde é que vocês trabalham?
Quem é que vos paga as contas?
Não sei como os padeiros do Continente, os operadores de caixa do Pingo Doce e os escolhedores de rolhas da Amorim aceitaram trabalhar em empresas tão comerciais. Julgava-os comunistas.
A todas essas almas puras, deixo-lhes o meu nib 373737 e a indicação de uma enorme vontade de criar uma associação contra a discriminação do trabalho intelectual. Adoro palestras.
Aos que disseram que me vendi ao sistema e que
“Esse festival está super comercial
Não sei como aceitaste
Julgava-te punk.”
Tenho umas coisinhas a dizer:
Onde é que vocês trabalham?
Quem é que vos paga as contas?
Não sei como os padeiros do Continente, os operadores de caixa do Pingo Doce e os escolhedores de rolhas da Amorim aceitaram trabalhar em empresas tão comerciais. Julgava-os comunistas.
A todas essas almas puras, deixo-lhes o meu nib 373737 e a indicação de uma enorme vontade de criar uma associação contra a discriminação do trabalho intelectual. Adoro palestras.
Resposta pública a e-mail anónimo.
Caro leitor anónimo que me enviou uma mensagem electrónica a dizer que não deveria escrever o texto anterior porque me incluo no alvo,
Não me incluo mas, mesmo que me incluísse:
Primeiro, nunca disse que não era gananciosa. Tenho mais batons vermelhos do que preciso.
Segundo, pagaria os impostos ou venderia a casa para comprar um barco como os da Sea Shepherd. Adoro piratas.
Terceiro, prometo que não teria pobres de estimação. Gosto mais de rebeldes.
Atenciosamente,
Fabiana Lopes Coelho.
Não me incluo mas, mesmo que me incluísse:
Primeiro, nunca disse que não era gananciosa. Tenho mais batons vermelhos do que preciso.
Segundo, pagaria os impostos ou venderia a casa para comprar um barco como os da Sea Shepherd. Adoro piratas.
Terceiro, prometo que não teria pobres de estimação. Gosto mais de rebeldes.
Atenciosamente,
Fabiana Lopes Coelho.
Quando o capitalismo "flirta" com o fascismo.*
Continuo a rir-me muito com o facto da Catarina Portas, de cognome "a empreendedora das andorinhas de louça e cabazes de 100€ com uma garrafa de vinho do Porto corrente, dois sabonetes e uma lata de atum”, proprietária das lojas com o conceito mais neo-fascista que conheço - vender produtos "artesanais" portugueses (a maioria é industrial mas com design retro, pelo que de artesanais devem ser, talvez, as embalagens), em formato “gourmet”, e a preços exorbitantes (que não são para pagar a mão-de-obra que os produz mas a ela e aos proprietários das grandes marcas que os fabricam), numa espécie de disneylândia saudosista do Portugal antigo - veio para uma revista cor-de-rosa dizer que, em certo sentido, é um “bocadinho” anarquista. “Estes produtos são nossos. Estes produtos somos nós.”, diz o manifesto da loja da senhora. Alguém que lhe explique que ninguém pertence ao "nós" dela, a não ser duas ou três marcas de loiça, lápis de grafite e de sabonetes cheios de perfume industrial que a Oprah adora oferecer no Natal. Tudo impossível de ser comprado por um português de ordenado médio. Mas com muito estilo, tã?
*
*
Escolhe a cura.
Nos comentários à minha última crónica, alguns paladinos do progresso negam o que escrevo e dizem que o jornal não devia publicá-la porque não foi comprovada medicamente. E isso fez-me lembrar o comentário que o Luis Oliveira, editor da Antígona, fez sobre o Tratado da Vida Sóbria, do Alvise Cornaro.
Este livro é também um hino à alegria de viver com saúde, e, acima de tudo, um sério aviso àqueles que se submetem cegamente aos poderes da medicina, depois manipulados e explorados de acordo com os interesses dos consultórios e das multinacionais que fabricam os medicamentos.
Eu já lhes expliquei que o que diz a medicina tanto se me dá como se me deu. Mas eles continuam a enviar-me artigos e a explicar imenso as razões pelas quais eu devia escrever segundo as regras deles e não as minhas. Dizem que os meus textos não são válidos porque não seguem um método, o deles, claro. É tudo uma ladainha de regras e conceitos aos quais eu devo supostamente obedecer.
Dizem-se muito progressistas mas não fazem mais do que substituir deus pela ciência. Põem os conceitos “verdadeiros” e as leis “científicas” no lugar dos dogmas religiosos. Negam conceitos para colocar outros no seu lugar. Tem é de haver conceitos certos e errados, e alguém que lhes diga se o que pensam está de um lado ou de outro. Alguém que valide o que dizem. Ora, o que eu devo fazer é respeitar isso e não escrever. Porque só os superiores pensantes da ciência é que o podem fazer ou legitimar quem o faz. O resto, essa cambada de sapateiros ignorantes, que façam sapatos. Pensar é que não! É impressionante como esta gente não respeita os superiores! E a moda está em todo o lado. Dá para a ciência, para as leis, para os moralistas, para os humanistas e todos os istas que troteiam por aí. Há respeito para todos, menos para nós.
Não posso escrever? Escrevo na mesma. Tenho que esperar que validem o que digo antes de publicar? Não espero. Tenho de ter permissão para fazer? Faço sem ela. É o respeito que me dá permissão? Não respeito. Tenho que justificar porque fiz ou escrevi assim? Não justifico.
Era só o que me faltava escrever o que vocês querem, da forma que vocês querem. Daqui a pouco, tinham ocupado o espaço todo e eu era empurrada para os bordos mais longínquos da vossa terra ideal. Ficava lá na periferia, a fazer-vos vénias, e a pedir esmolinhas de legitimação do meu pensamento.
Este livro é também um hino à alegria de viver com saúde, e, acima de tudo, um sério aviso àqueles que se submetem cegamente aos poderes da medicina, depois manipulados e explorados de acordo com os interesses dos consultórios e das multinacionais que fabricam os medicamentos.
Eu já lhes expliquei que o que diz a medicina tanto se me dá como se me deu. Mas eles continuam a enviar-me artigos e a explicar imenso as razões pelas quais eu devia escrever segundo as regras deles e não as minhas. Dizem que os meus textos não são válidos porque não seguem um método, o deles, claro. É tudo uma ladainha de regras e conceitos aos quais eu devo supostamente obedecer.
Dizem-se muito progressistas mas não fazem mais do que substituir deus pela ciência. Põem os conceitos “verdadeiros” e as leis “científicas” no lugar dos dogmas religiosos. Negam conceitos para colocar outros no seu lugar. Tem é de haver conceitos certos e errados, e alguém que lhes diga se o que pensam está de um lado ou de outro. Alguém que valide o que dizem. Ora, o que eu devo fazer é respeitar isso e não escrever. Porque só os superiores pensantes da ciência é que o podem fazer ou legitimar quem o faz. O resto, essa cambada de sapateiros ignorantes, que façam sapatos. Pensar é que não! É impressionante como esta gente não respeita os superiores! E a moda está em todo o lado. Dá para a ciência, para as leis, para os moralistas, para os humanistas e todos os istas que troteiam por aí. Há respeito para todos, menos para nós.
Não posso escrever? Escrevo na mesma. Tenho que esperar que validem o que digo antes de publicar? Não espero. Tenho de ter permissão para fazer? Faço sem ela. É o respeito que me dá permissão? Não respeito. Tenho que justificar porque fiz ou escrevi assim? Não justifico.
Era só o que me faltava escrever o que vocês querem, da forma que vocês querem. Daqui a pouco, tinham ocupado o espaço todo e eu era empurrada para os bordos mais longínquos da vossa terra ideal. Ficava lá na periferia, a fazer-vos vénias, e a pedir esmolinhas de legitimação do meu pensamento.
Prémios para todos.
O maior presente que se pode dar a um escritor anti-sistema é um prémio para ele recusar.
"O respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho?"*
Boa noite gente séria e preocupada com o mundo em geral. Vou ali comer umas fatias de queijo e fazer umas festas na barriga do meu cão, que não sai daquela posição enquanto eu não lhe satisfizer os desejos. Ou deixo-o de barriga para o ar e vou dormir na mesma, que amanhã acordo cedo para comprar comida ou ler filosofia, depende da quantidade de fome que tiver. Logo vejo.
*in FMI, José Mário Branco.
*in FMI, José Mário Branco.
Carta aos amigos.
Curiosa população,
Quando comecei a trabalhar na Time Out, uma enfiada de gente super trendy aproximou-se de mim porque achava que ser amigo de alguém que trabalhava numa revista lhe acrescentava alguma coisa à vida.
Agora, que trabalho na universidade, começa a brotar um conjunto desconhecido de pessoas que me trata como se eu fosse a presidente da câmara. O mais estranho é isso acontecer com as mesmas pessoas que me tratavam com condescendência quando vendia publicidade para pagar as contas da casa.
Sobre isto, só tenho uma coisa a dizer: só faço amizade com quem quereria passar uma tarde à conversa comigo, mesmo que eu fosse mendiga. O resto, dispenso.
Obrigadíssima.
Quando comecei a trabalhar na Time Out, uma enfiada de gente super trendy aproximou-se de mim porque achava que ser amigo de alguém que trabalhava numa revista lhe acrescentava alguma coisa à vida.
Agora, que trabalho na universidade, começa a brotar um conjunto desconhecido de pessoas que me trata como se eu fosse a presidente da câmara. O mais estranho é isso acontecer com as mesmas pessoas que me tratavam com condescendência quando vendia publicidade para pagar as contas da casa.
Sobre isto, só tenho uma coisa a dizer: só faço amizade com quem quereria passar uma tarde à conversa comigo, mesmo que eu fosse mendiga. O resto, dispenso.
Obrigadíssima.
Condescendência de classe Ou Ricos ou iluminados.
Caros intelectuais de Facebook, visionários deste mundo, não se esqueçam que tudo o que vocês publicam foi tocado, pintado, escrito e pensado pelos autores dessas coisas e não por vocês, está bem? É que andar a dizer que o pessoal que vai para a praia, para o campo, que faz amor ou bolos para o lanche é uma cambada de tapados que não consegue ver a complexidade deste mundo, enquanto vocês estão colados ao ecrã a partilhar as coisas que essa gente tocou, pintou, escreveu e pensou na praia, no campo, a fazer amor ou bolos, não é apenas condescendente. É um bocadinho imbecil.
Já rasguei a minha.
Acho sempre piada a festas punk sem punks. A festa do Lux intitulada Do It Yourself T-shirt, baseada no conceito DIY (faz tu mesmo), é uma delas. Terça-feira, véspera de feriado, alguns dj´s vão passar aquilo a que chamam punk e pós-punk, o mesmo que dizer passar os Sex Pistols e os Ramones mais umas batidas novinhas em folha porque o punk ainda não morreu nem está doente. E tem-se que levar t-shirt a condizer (com o conceito, claro). Mais uma festa de Carnaval, portanto. Vamos todos voltar à moda 77 (porque do punk anterior ninguém sabe) e, se der para convencer umas miúdas, ainda se diz que se foi ver um concerto de Clash a Paris há não sei quantos anos (Zé Pedro dixit). Repita esta frase três vezes e tornar-se-á numa “verdadeira enciclopédia sobre música” (director da SIC Radical sobre o Zé Pedro).
O que já não acho piada mesmo nenhuma é o facto de estes senhores virem para os jornais falarem de coisas sobre as quais não têm conhecimento absolutamente nenhum. E não se calam com o punk. Ai, pois, “eu já fui punk mas agora já sou crescido”. Ou, “quando era miúda tinha a mania que era punk”. E eu pergunto-me, não têm vergonha? Não, já percebemos. Também percebemos que para muitos o punk é uma t-shirt rasgada e um disco dos Sex Pistols a tocar na aparelhagem mais cara do mercado. Perdoemos-lhes, eles não sabem o que dizem.
Desenganem-se aqueles que pensam que não gosto do conceito da festa. Eu até acho piada a festas punks sem punks. Mas não ando por aí a dizer que sou punk ou que já fui e que blá blá blá (ah! Estou à espera do Iggy). Raramente gosto de festas de Carnaval mas esta até é baseada num conceito que estimo. Se calhar até apareço, de dama de honor dos anos 70, para ser original.
Eu sei que é o conceito estético que lá está, que não é preciso ser-se punk para ouvir punk mas uns punks de verdade ficavam lá bem melhor. E o que mais sei é que nenhum deles queria lá estar. Nada feito, portanto.
O que já não acho piada mesmo nenhuma é o facto de estes senhores virem para os jornais falarem de coisas sobre as quais não têm conhecimento absolutamente nenhum. E não se calam com o punk. Ai, pois, “eu já fui punk mas agora já sou crescido”. Ou, “quando era miúda tinha a mania que era punk”. E eu pergunto-me, não têm vergonha? Não, já percebemos. Também percebemos que para muitos o punk é uma t-shirt rasgada e um disco dos Sex Pistols a tocar na aparelhagem mais cara do mercado. Perdoemos-lhes, eles não sabem o que dizem.
Desenganem-se aqueles que pensam que não gosto do conceito da festa. Eu até acho piada a festas punks sem punks. Mas não ando por aí a dizer que sou punk ou que já fui e que blá blá blá (ah! Estou à espera do Iggy). Raramente gosto de festas de Carnaval mas esta até é baseada num conceito que estimo. Se calhar até apareço, de dama de honor dos anos 70, para ser original.
Eu sei que é o conceito estético que lá está, que não é preciso ser-se punk para ouvir punk mas uns punks de verdade ficavam lá bem melhor. E o que mais sei é que nenhum deles queria lá estar. Nada feito, portanto.
Originalmente, publicado aqui.
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