Mostrar mensagens com a etiqueta Ficção. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ficção. Mostrar todas as mensagens

A essência da questão.

-Durante três meses, fiz uma estatística para saber que perguntas as pessoas mais me fazem.

- Uma estatística sobre perguntas?

- Sim. O que as pessoas perguntam diz mais sobre elas do que as respostas que dão.

- Interessante. E quais foram as que ficaram nos primeiros lugares?

- A mais perguntada é “O que fazes na vida?”, seguida da “E ele?”.

- Curioso. E o que costumas responder?

- Amor.

- Amor?

- Sim, amor. E comida.

- Mas isso não responde à questão.

- Responde, pois. O problema é que, além de não saberem fazer perguntas, andam todos obcecados com as respostas erradas.

Na fábrica de comida.

Não havia alternativa. Para sobreviver, teria que trabalhar nos tempos livres que lhe restavam. Todos os dias, apenas parava para comer e dormir, o que não conseguia fazer pela falta de sentido de vida. A ela, nem emprego lhe davam. Diziam que eram trabalhos muito exigentes para mulheres.

No dia seguinte, vi isto afixado:

Aviso todas as pessoas para se retirarem da fábrica até às 9h55, hora exacta em que será bombardeada. O objectivo é alertar para a submissão do amor ao capitalismo, pelo que apenas pretendemos explodir com as instalações. O anarquista continuará no anonimato. Apenas se sabe que este é um acto feminista.

Sobreviveram todos. Agora, já não é a fábrica que faz a comida. Somos nós que plantamos, transformamos, cozinhamos e comemos. Todos têm tempo e conseguem dormir. E, diz-se por aí, o nosso ex-chefe, que estava impotente, faz amor muitas vezes.

Literatura.

-Tens falado muito sobre amor. Estás apaixonada?

-Sempre que leio Proust.

Na aula de revolução.

- No outro dia, fiz uma revolução.

- Fizeste? Onde?

- No ginásio.

- Como é que fizeste uma revolução no ginásio?

- Numa aula de grupo, levei os meus alunos para a rua, pus músicas de intervenção a tocar, disse para toda a gente pôr um dos braços no ar e fechar bem os punhos.

- E depois?

- Depois, tinham de caminhar.

- Assim, de braço no ar, de punho fechado?

- Assim mesmo. Alternando, claro, para ganharem músculos nos dois braços.

- Mas isso não é uma revolução. Nas revoluções, as pessoas dizem coisas. Na tua revolução só se ouve?

- Não, não. Depois, criei frases de ordem: "Abaixo o governo", " Queremos mais pão", "Queremos um futuro".

- E se alguém quisesse dizer coisas diferentes?

- Pedíamos desculpa e explicávamos muito bem a razão de todos terem que dizer o mesmo.

- E se as pessoas se recusassem a participar na tua aula de revolução?

- Tentava fazê-las perceber o quão burras estavam a ser e que, sem a aula de revolução, nunca conseguiriam ter os músculos que tanto desejavam.
Já que falas nisso, por acaso, tive um problema complicado nessa aula.

- Tiveste?

- Sim. um dos alunos virou-se para todos e disse: " Vou ganhar músculos à minha maneira. Não gosto que escolham as músicas que tenho de ouvir nem as palavras que tenho de dizer".

- E qual foi a vossa reacção?

- Ficamos a olhar uns para os outros, murmuramos sobre a possível loucura dele, e continuamos com a aula.

- Ignoraram-no?

- No início, sim. Mas, depois, ele pôs-se, no meio da aula, a gritar " Abaixo as aulas de revolução", como um louco. E eu tive de chamar o segurança.

- Feriu alguém?

- Não. Mas estava muito histérico, pelo que pedi ao segurança para chamar o 112. Via-se que o senhor não estava bem. Pedi para lhe darem ajuda psicológica.

- E a seguir?

- A seguir, continuamos com os exercícios.

- Já pensaste como seria se tivesses mais alunos como esse louco?

- Felizmente, estes casos são excepções e estão controlados. Já há muitos tratamentos para estes problemas.
___


  1. Sobre a ideia da revolução enquanto exercício de ginástica, ler O Torcicologologista, Excelência e ver o filme La Chinoise, do Godard.

Maquilhagem e ironia.

-Ficavas mais bonita ao natural, disse ele.

-Devias desenhar em papiros.

-A maquilhagem não devia existir porque ela é um instrumento do engano, que serve para camuflar os defeitos naturais.

-A arquitectura não devia existir porque ela é um instrumento do engano, que serve para camuflar os defeitos naturais. Não há uma única linha recta na natureza. Não é uma imitação ou camuflagem do real. Ficciona-o. Transcende-o.

Vive la fête, Maquillage.

Vamos ao circo, meu amor.

"Heikal, porém, não era um ocioso; na verdade andava regularmente ocupado a desmontar o lado burlesco das acções humanas. Este mundo bobo agradava-lhe. Teria até sido muito infeliz apreendendo a mais ínfima parte da razoabilidade no que via ou ouvia em seu redor. Às vezes, ao ler uma notícia mais ou menos sensata, ficava logo enfadado. O permanente espectáculo da estúpida loucura dos homens deliciava-o; sentia-se como uma criança no circo, encarando assim a existência como uma coisa muitíssimo divertida."

Albert Cossery, in A violência e o escárnio.

Bem-vindos à hipsterlândia.

Olá, eu sou um hipster. Passo o dia a pensar na roupa vintage que vou vestir, quais os óculos que vou comprar e se vou deixar crescer a barba mais dois ou três centímetros. Adoro marcas de roupa alternativas, gadgets alternativos, revistas alternativas e músicas muitíssimo alternativas. Gosto de citar coisas muito cultas ou diferentes dos outros mas o meu objectivo primordial é inebriar a cidade com glamour. Vou a sítios que chamam tapas ao pão e ao chouriço, acho um máximo comer sandes de pernil, como os pobres, mas em ambientes mais requintados, como o festival dos sons primaveris, e como gelados trendy, feitos com bolachas industriais oreo, na gelataria “artesanal” da baixa. Tenho a noção que o meu sentido estético é apuradíssimo. Nunca criei arte mas tenho uma sensibilidade artística fora do normal. No fundo, tenho uma cultura geral superior aos seres humanos comuns. Sou uma pessoa diferente. Só ainda não percebi que a cidade está cheiinha de pessoas exactamente iguais a mim.