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Sobre os despedimentos dos jornalistas do Sol e do I.

Anda para aí muita gente a dizer que os jornais Sol e I vão despedir uma catrefada de jornalistas porque as pessoas não compram jornais, porque as pessoas não pagam pelas notícias digitais, porque as pessoas se demitiram da sua função democrática, porque as pessoas não querem saber das coisas importantes e porque o que vende é futebol e fado. Mas a questão não é as pessoas não pagarem, mas porque razão não estão dispostas a fazê-lo. O problema é que as notícias que os jornais de hoje produzem não interessam a ninguém. Se os directores dos jornais obrigam os jornalistas a escrever sobre o que faz 1% da população, constituído pelos políticos e pelas pessoas que têm poder financeiro ou outro, como é que esperam que os restantes 99% comprem estas notícias que não lhes dizem nada? Se eu acho que os políticos não resolvem os meus problemas, por que haverei de ler notícias sobre o que eles andam a fazer? Por que é que os jornais portugueses não falam sobre a vida das pessoas? E não são as notícias dos lifestyles, os acidentes de carro, e as comidas gourmet, que, como se compreende, ainda vendem. É que as pessoas continuam a vestir-se, a terem que transportar-se e a comer. Mas a cultura que estes jornais falam é a “grande cultura”, a política é “a grande política”, as empresas são “as grandes empresas”. Se é para essa gente que falam, esperem que seja essa gente a comprar-vos os jornais, e não a restante população que nunca aparece em lado nenhum e cujos verdadeiros problemas são silenciados. O que é realmente preocupante é que estes jornalistas ficaram desempregados porque esta gente, que escolhe sobre o que eles podem falar, e que destaques podem dar, não sabe o que anda a fazer. Façam jornais locais, jornais temáticos, jornais de especialidade, o que vocês quiserem. Falem para e sobre as pessoas que querem que vos compre os jornais. Tudo, menos isto, que, como se tem verificado, não está a correr lá muito bem.

Gota a gota.

Todos os dias me perguntam quando é que escrevo um livro. E eu respondo sempre: quando tiver tempo, e se me apetecer. Com o trabalho, a casa e a comida para fazer, sobra-me quase nada. Para esse problema, tenho uma mezinha. Sempre que começo a angustiar pela falta de tempo para escrever, abro As imagens de pensamento, do Walter Benjamin, na parte que diz:

Uma eficácia literária significativa só pode nascer de uma rigorosa alternância entre acção e escrita. Terá de cultivar e aperfeiçoar, no panfleto, na brochura, no artigo de jornal, no cartaz, aquelas formas despretensiosas que se ajustam melhor à sua influência sobre comunidades activas do que o ambicioso gesto universal do livro. Só esta linguagem imediata se mostra capaz de responder activamente às solicitações do momento. As opiniões estão para o gigantesco aparelho da vida social como o óleo para as máquinas: ninguém se aproxima de uma turbina e lhe verte óleo para cima. O que se faz é injectar algumas gotas em rebites e juntas escondidos que têm de se conhecer bem.

Mal acabo de ler isto, sinto logo que não ter tempo é uma grande vantagem. É que, se não fosse a falta dele, punha-me a escrever livros infinitos. E, afinal de contas, quem é que tem tempo para os ler?

Sobre o declínio do jornalismo político.

A cobertura política tem sido criticada por reforçar aquilo que tem sido conhecido como “a espiral do cinismo”: pelo seu estilo de jornalismo negativo e pela sua abordagem cínica, os jornalistas têm sido acusados de fazerem decrescer os níveis de confiança no governo, da mesma forma que aumentam o cinismo político dos leitores e espectadores. Estes críticos afirmam que os jornalistas espalham uma visão cínica da política e que a sua relação com os políticos é caracterizada pela desconfiança e pelo hiper-adversalismo.
Habitualmente, o primeiro passo para estudar a interacção entre os jornalistas e os políticos é analisar as relações entrelaçadas entre os média e a política. Mas talvez seja mais interessante começarmos a dar ênfase a factores que não seguem a tradição política ou a abordagem económicas. Vários estudos encontraram grandes diferenças entre os jornalistas do norte e do sul da Europa, por exemplo. Os do sul são habitualmente mais cínicos do que os jornalistas do norte. Outros apontam a pressão política como um dos principais factores para o aumento do cinismo no jornalismo político, o que parece fazer mais sentido. Assim, o jornalista estará desacreditado da política na razão directa da pressão que os políticos exercem sobre o seu trabalho. Para além disso, será interessante pensarmos nas potenciais consequências negativas da profissionalização da sua relação com os jornalistas políticos, como com os spin doctors, por exemplo, e nas disparidades culturais e demográficas, que podem influenciar a forma como os jornalistas desempenham as suas funções. Por outro lado, podemos ainda pensar no declínio do consumo de notícias deste foro como produto de uma descrença no sistema democrático. Não será o declínio do jornalismo político um sintoma do falhanço da democracia na supressão das necessidades básicas dos cidadãos? Se eu acho que os políticos não resolvem os meus problemas, por que haverei de ler notícias sobre o que eles andam a fazer? 
Urge, pois, compreender o jornalismo político de uma perspectiva holística, cujos comportamentos brotam de um cruzamento de factores que não se restringem apenas às esferas políticas e mediáticas, que é o mesmo que dizer que devemos desconfiar dos que acusam os jornalistas de serem a razão do aumento do cinismo no exercício da sua profissão, e da consequente demissão democrática dos cidadãos. Para compreender o declínio do jornalismo político, talvez seja mais interessante estudar a forma como as populações vivem, e a estrutura da participação política delas, do que andar a apanhar o mexilhão.