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Nobreza postiça.

Caros apologistas do requinte mórbido, muito arreliados com a popularidade, comprimento e grossura dos textos dos outros, criadores de ricas hierarquias intelectuais, que odeiam a sátira, essa técnica desprezível dos que não tomam sedativos face à opressão, não sei se vos agradeça o riso ou vos admoeste (fui-buscar-esta-palavra-porque-queria-dizer-repreender-de-uma-forma-benevolente-mas-sem-ritmo-literário) pelo enfado que os vossos textos me provocam. Na indecisão, deixo-vos um poema efeito-oxigénio-total-limpa-cérebros-rococó, para lerem enquanto escolhem palavras no dicionário ou fazem poses para as fotografias.

"Porque o povo diz verdades,
Tremem de medo os tiranos,
Pressentindo a derrocada
Da grande prisão sem grades
Onde há já milhares de anos
A razão vive enjaulada.

Vem perto o fim do capricho
Dessa nobreza postiça,
Irmã gémea da preguiça,
Mais asquerosa que o lixo.

Já o escravo se convence
A lutar por sua prol
Já sabe que lhe pertence
No mundo um lugar ao sol.

Do céu não se quer lembrar,
Já não se deixa roubar,
Por medo ao tal satanás,
Já não adora bonecos
Que, se os fazem em canecos,
Nem dão estrume capaz.

Mostra-lhe o saber moderno
Que levou a vida inteira
Preso àquela ratoeira
Que há entre o céu e o inferno.

António Aleixo, em "Este Livro que Vos Deixo..."

Biografia.

Ontem, passei a noite a ler os diários do Kafka. Queixa-se da necessidade de manter o trabalho no escritório para “ganhar o pão” e da falta de tempo para escrever. Vive em exaustão por manter uma vida dupla, a de agente na companhia de seguros e a de escritor. Pergunta-se constantemente pelas vantagens e desvantagens do celibato e do casamento e de que forma isso influenciaria a sua escrita. Há quem diga, pelas suas cartas, que era torturado pelo desejo sexual. Fala do pai, da relação sinuosa que tinha com ele, e das censuras que lhe fazia por não “se preocupar com a fábrica” da família. Sonha com o momento em que se livraria do escritório e poderia finalmente dedicar-se a escrever. “Não consigo prever uma mudança mais grandiosa do que esta, já de si tão terrivelmente improvável.” Deita-se cedo para escrever de manhã e vai já exausto para o trabalho. Nos dias em que não escreve, sente que o trabalho corre melhor, mas nada daquilo lhe faz sentido. Não lhe doía o corpo mas a alma, digo eu. Tem momentos em que pensa : “não teria a capacidade de aproveitar todo o tempo para a literatura”, para logo afirmar: “todos os dias deveria ser-me apontada ao menos uma linha, como se aponta os telescópios aos cometas”. A mim, também. Ou uma linha por semana, um livro de oito em oito anos, como o Cossery, que conseguiu livrar-se de “tudo isso que desgraçadamente dá felicidade aos imbecis”, e viver, “sempre feliz”, com quase nada.

Literatura.

-Tens falado muito sobre amor. Estás apaixonada?

-Sempre que leio Proust.

Teoria geral do escritor.

Quando o escritor fala, ninguém o quer ouvir. Quando escreve o que disse, toda a gente o quer ler.

Gota a gota.

Todos os dias me perguntam quando é que escrevo um livro. E eu respondo sempre: quando tiver tempo, e se me apetecer. Com o trabalho, a casa e a comida para fazer, sobra-me quase nada. Para esse problema, tenho uma mezinha. Sempre que começo a angustiar pela falta de tempo para escrever, abro As imagens de pensamento, do Walter Benjamin, na parte que diz:

Uma eficácia literária significativa só pode nascer de uma rigorosa alternância entre acção e escrita. Terá de cultivar e aperfeiçoar, no panfleto, na brochura, no artigo de jornal, no cartaz, aquelas formas despretensiosas que se ajustam melhor à sua influência sobre comunidades activas do que o ambicioso gesto universal do livro. Só esta linguagem imediata se mostra capaz de responder activamente às solicitações do momento. As opiniões estão para o gigantesco aparelho da vida social como o óleo para as máquinas: ninguém se aproxima de uma turbina e lhe verte óleo para cima. O que se faz é injectar algumas gotas em rebites e juntas escondidos que têm de se conhecer bem.

Mal acabo de ler isto, sinto logo que não ter tempo é uma grande vantagem. É que, se não fosse a falta dele, punha-me a escrever livros infinitos. E, afinal de contas, quem é que tem tempo para os ler?

A dois.

Os livros e os homens podem levar-se para a cama. Afundamo-nos nos primeiros e os segundos afundam-se em nós.