Hoje em dia, o poder económico não compra trabalho ou serviços, compra pessoas. No fim do século XIX, após longas lutas, foi criado o direito ao “repouso e aos lazeres, a um limite máximo da jornada de trabalho, ao descanso semanal e a férias periódicas pagas”. Nessa época, findado o horário de trabalho, cessavam as obrigações laborais. Aos trabalhadores do século XXI, são-lhes exigidas um sem número de funções que não foram acordadas e ultrapassam largamente esse limite.
A primeira é muito antiga: a vassalagem. O chefe tirano “vê aqueles que o rodeiam requestando e mendigando constantemente o seu Favor; e eles (os trabalhadores) não só têm de fazer o que ele ordena como têm de pensar como ele quer (que eles pensem) e, muitas vezes, antecipar os seus pensamentos para o satisfazer. Não basta que lhe obedeçam, é preciso que lhe agradem, que se esfalfem, que se atormentem; e (…) têm de sacrificar o seu Gosto ao dele, Violentar as suas Inclinações e despojar-se do seu próprio Temperamento natural.”, como escreveu La Boétie, no seu Discurso sobre a Servidão Voluntária. Dentro deste tipo de chefia, inclui-se os que exigem serviços de companhia. Companhia para conversar, passear, almoçar, jantar, de dia, de noite, à semana e ao fim-de-semana. Nada contra a aquisição deste tipo de serviços. Mas devem estar devidamente contratualizados e não disfarçados de ócio, já que constituem exploração do tempo livre do trabalhador. São horas extraordinárias não remuneradas, e, portanto, ilegais. As pessoas que precisam de companhia, ou devem adquiri-la legalmente ou, uma via mais fácil para uns do que para outros, tornarem-se suficientemente interessantes, de meiguice, destreza ou intelecto, para não precisarem de o fazer.
A segunda exigência do poder actual descende da proliferação dos dispositivos tecnológicos de comunicação e, sobretudo, da internet: a disponibilidade ininterrupta. Um inquérito da Deloitte, em Abril de 2015, citado pela BBC, revelou que por escolha ou obrigação 71% dos quadros das empresas lêem mensagens de email à noite ou em férias e 76% consideravam que isso tinha um impacto negativo para a sua vida profissional e familiar. Na era da vigilância total, o poder obriga-nos à comunicação. Através do telemóvel, muitas vezes oferecido pela empresa, para legitimar o controlo, o trabalhador é coagido a responder aos e-mails, chamadas ou outras formas de comunicação, a todas as horas. Desta forma, a tecnologia e a internet em todas as coisas, como nos smartphones, relógios ou óculos inteligentes, que prometia liberdade e flexibilidade laborais, constituem uma corrente invisível, que nos obriga a estarmos disponíveis 24 horas, sem direito a descanso, vida pessoal ou familiar. O cérebro, compelido à disponibilidade ininterrupta, continua a trabalhar mesmo nos momentos em que não é solicitado. Vive em suspenso, na expectativa do telefonema ou do e-mail acontecer.
Outra novidade no contexto laboral é a compulsão pela aceleração e o orgulho no excesso de trabalho. Indivíduos subjugados exibem as suas olheiras e problemas neuro-gástricos como jóias refinadas. O deslumbramento pelo alcance de lugares de chefia ou posições sociais de prestígio impelem-nos à aceitação de condições laborais e tratamento deploráveis. Assim, o trabalhador não só é explorado sob o medo de ser despedido, como se constrange à autoexploração, acreditando que é livre e age em interesse próprio, ainda que os bens que resultam da autoexploração não sejam propriedade sua. Desta forma, encontrar-se-á, sempre, numa posição de submissão. E porque, como dizia Stevenson, “a devoção perpétua ao que um homem considera o seu trabalho só pode ser sustentada negligenciando todas as outras coisas”, estará cada vez mais atomizado, fragilizado, desprovido de laços de amizade e amor desinteressados.
Não é necessário ler estudos de psicologia, neurociência ou comportamento organizacional para saber que o repouso é a primeira condição para a lucidez. É fácil constatarmos que a hiperactividade e o trabalho ininterruptos não geram ideias, apenas inquietação, confusão, desorientação. A velha crença que trabalhar muitas horas é sinónimo de mais produtividade traduz-se num desinvestimento na tão amada eficiência e na criatividade. Já na época dos caminhos-de-ferro, Proust dizia que “seria breve a arte de uma época apressada”. Num século acelerado, doente, esgotado, quando o poder nos força a comunicar, precisamos do direito a desligar, de criar vacúolos de silêncio, de sair Em Busca do Tempo Perdido.
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Trump III.
--> O Vítor Balenciano diz:
"Entendo e, até certo ponto, fico satisfeito com as manifestações catárticas anti-Trump que por aí vejo, mas mais uma vez fico com a estranha sensação que agora que muita gente encontrou um inimigo comum, haverá ainda menos espaço para pôr em causa o que realmente interessava interrogar e que nos levou a Trump: as últimas três ou quatro décadas de neoliberalismo desregulado, sem que qualquer movimento progressista suficientemente amplo conseguisse preencher o vazio do “não há alternativa”. É mais fácil diabolizar a figura de Trump que pôr em causa a nossa organização, estrutura e estilo de vida. Percebo o gesto de cerrar fileiras contra ele, mas estas manifestações dispersas e emocionais não valerão de muito se não formos capazes de, ao mesmo tempo, nos debruçar sobre a nossa responsabilidade no que está a acontecer, porque a verdade é esta: a lógica que levou a Trump, é exactamente a mesma que continua a presidir à nossa vida de todos os dias, por nossa única e exclusiva vontade."
Deste ponto de vista, concordo.
De resto, discordo porque:
Não é por nossa única e exclusiva vontade. Não posso viver de outra forma porque a alternativa é a exclusão (uma montanha, uma horta e algumas galinhas) e, no limite, a fome. Há sempre lugar para diferentes formas de desobediência e lutas, mas está tudo arquitectado de forma a não poderes fugir. A última estratégia das estruturas de poder estatal e privado é o Big Data. Já nem na montanha, sozinha, posso estar porque a vigilância é total. O importante é explorar novas formas de desobediência, não dizer que somos culpados pelo actual estado de coisas. Eu não tenho culpa que me oprimam. Tenho é que pensar em formas de evitar ou subverter essa opressão. Eu não voto nos partidos que dizem que mudariam tudo porque não acredito que o fizessem (também porque não dependeria deles, como vimos na Grécia, por exemplo). A única solução é desobedecer, sozinho, ou em grupo, a rir ou a partir. O maior problema das pessoas é a dificuldade de reconhecimento da opressão. As crenças nas narrativas da opressão. Se todos os ricos fossem ridicularizados, ninguém quereria ser rico. Como todos os ricos são bajulados, todos querem ser ricos. As pessoas contribuem para o sistema sobretudo porque precisam de sustentar-se e porque as opções de valorização que têm são muito limitadas. Valorizem-nas e ajudem-nas a libertar das normas legais e sociais, e das ideias que sedimentam a opressão, e não as culpem pelas amarras sociais e psicológicas, para as quais não têm ferramentas para se libertar.
Sobre a crença nas narrativas:
“A eleição do Trump tem múltiplas causas. E, de uma maneira geral, não devemos contentar-nos com uma única explicação. Se nós dissermos que são os homens brancos, economicamente desfavorecidos que votaram no Trump, e nos focarmos na causa da marginalização económica deles, esquecemo-nos que o racismo existe há muito tempo nos E.U.A, e o que poderíamos chamar de “cólera económica”, se conjugou com o ódio racial, para confluir nesta situação. A misoginia também não é deixada de lado, assim como o destino simbólico da masculinidade. O medo do “terrorismo” e o desejo de “segurança” estão igualmente presentes nos E.U.A., como na maioria dos países europeus, e são eles que fazem a cama do fascismo: no delírio utópico que o levou ao poder, Trump criará empregos, restaurará a segurança, reabilitará a masculinidade, subordinará as mulheres e trará a sua brancura à América." Judith Butler, no Libération.
E, mesmo que se acredite na democracia:
"Não nos podemos esquecer que ele ganhou apenas com 23% do voto popular, pelo que nunca será um legítimo representante do povo. Uma minoria de ódio chegou ao poder e provoca hoje uma crise democrática.” Judith Butler, no Libération.
Trump I.
O problema do Trump é que, como o cérebro dele vive na idade média, ainda não percebeu que, no século XXI, o poder tem de ser exercido através da manipulação psicológica, e não pela força. Para diminuir as resistências, há que dar recompensas instantâneas ou parecer que se está a fazer o bem. Ou ele muda rapidamente o discurso para o benfeitor ou não se safa. O poder disciplinar tem limites. Se eu consigo identificar o opressor, revolto-me contra ele. Pelo contrário, o poder psicológico, que é invisível, é ilimitado e apela à auto-culpabilização "Sou bem tratado mas sinto-me mal, não posso fazer mais nada, tive todas as oportunidades e não consegui, sou um falhado (discurso típico da opressão neoliberal - não conseguimos mais porque as oportunidades que temos são reduzidas, mas é importante fazerem-nos pensar que eles foram muito bons connosco e que não conseguimos porque não somos capazes), o que é muito diferente de "não consegui porque este/s abutre/s estão a oprimir-me ou a explorar-me e vou dar cabo dele/s, com os meios ocultos ou públicos que tiver". O poder invisível amolece e deprime os sujeitos da opressão. O poder exercido pela força (que, durante séculos, foi possível devido à crença na narrativa religiosa, "Sofro mas serei recompensado por Deus"), revolta e enfurece os sujeitos oprimidos, o que não dá muito jeito a quem oprime, já que incita à desobediência. Todos os políticos já perceberam isso, por isso é que andam sempre muito preocupados com a imprensa e com o marketing. E vai ser isso que o Trump vai começar a aprender agora, com muita pena minha, porque, pelo andar da carroagem, cairia em três tempos.
Banalidade do mal.
À saída do documentário sobre a Hannah Arendt:
- Não sei como é que ela teve coragem de dizer que aqueles Nazis não eram monstros mentalmente doentes mas apenas burocratas vazios de pensamento que desejavam ascender profissionalmente. Eles sabiam que estavam a matar seres humanos em série!
- Não sei como é que tens coragem de andar com roupas e telemóveis feitos por crianças em condições desumanas só para exibicionismo social. Tu sabes que estás a escravizar seres humanos em série!
- E alguns alemães ainda podiam ter a desculpa de não poderem desertar, com medo da morte. A tua, qual é?
- Não sei como é que ela teve coragem de dizer que aqueles Nazis não eram monstros mentalmente doentes mas apenas burocratas vazios de pensamento que desejavam ascender profissionalmente. Eles sabiam que estavam a matar seres humanos em série!
- Não sei como é que tens coragem de andar com roupas e telemóveis feitos por crianças em condições desumanas só para exibicionismo social. Tu sabes que estás a escravizar seres humanos em série!
- E alguns alemães ainda podiam ter a desculpa de não poderem desertar, com medo da morte. A tua, qual é?
Adulação.
Para todos os seres humanos no mundo, especialmente os portugueses, tenho uma ideia: que tal deixarem de se comportar como atrasados mentais sempre que estão frente a um rico ou a um famoso? Se fosse para arranjar emprego, até percebia. Às vezes, é-se obrigado, para pôr comida na mesa. Mas a subserviência corre por todo o lado. E se, em vez de os bajularem, os escarnecessem? Não só pelo ridículo, também pela imoralidade de uns terem muito mais do que os outros. Se calhar, cansavam-se de fazer figura de bobos e passavam a querer valorizar-se socialmente por outra coisa qualquer. Podiam ser os melhores conversadores, os que escreviam melhores textos, os que compunham as melhores músicas, os que faziam rir, os que cozinhavam melhor, os que ajudavam mais pessoas. Tanta coisa que pode ser motivo de orgulho para um ser humano. Não percebo porque escolhem alimentar esta.
Agora, nem eu vendo nem tu compras maçãs a um preço justo.
Houve um tempo em que as maçãs nasciam das árvores sem intervenção humana. Os ciclos naturais das águas, das terras, dos ventos e do sol reuniam tudo o que era preciso para que as maçãs brotassem saudáveis. Depois, começou-se a cultivar macieiras. O agricultor tirava sementes de uma maçã e punha-as na terra. Para continuar a ter cada vez mais maçãs, começou a tratar as árvores. Primeiro, podava-as e fazia outras coisas que as ajudavam a crescer. Mas, como esse procedimento não garantia que ele tivesse todas as maçãs que queria, começou a comprar uns produtos feitos em laboratório, que se põem nas macieiras para as maçãs crescerem muito rápido. Também experimentou uns pós para matar ervas e os bichos que costumavam comer algumas maçãs. Mas o agricultor queria ainda mais maçãs, maiores e mais baratas, por isso, em vez de usar as sementes da macieira, passou a comprá-las a empresas que as fabricam em laboratórios, que são modificadas geneticamente para crescerem rapidamente, sem a natureza a atrapalhar. São todas iguais e grandes. Há quem diga que essas coisas e sementes que põem na terra e nas macieiras contaminam o ambiente, provocam cancro e outras doenças muito complicadas, mas não é por isso que estou a contar esta história.
Nesse tempo, antes dos pós e das sementes criadas em laboratório, apanhava as maçãs das árvores, ou comprava-as ao agricultor, e comia-as. Ou não pagava nada por elas, eram uma espécie de oferta da natureza, ou pagava, vamos apenas exemplificar, três cêntimos por cada maçã, ao agricultor. Ele argumentava que eu lhe deveria pagar porque tinha tido o trabalho de as cultivar, proteger e apanhar. Primeiro, não concordei. Afinal, eu tinha-as de graça, podia apanhá-las, e ele agora dizia que as árvores eram dele. Mas depois entramos em consenso. Ele apanhava-me as maçãs e eu pescava, ainda que sempre me tenha recusado a domesticar os peixes, como ele fez com as macieiras. “Se não tens maçãs para colher, podes sempre colher laranjas ou pêras e, em cada época, vendes o que a natureza te oferece sem esforço. Não percebo porque queres vender só maçãs.” Começou-me a falar de um tal efeito de escala, mas ignorei-o. Era um bocado ganancioso, por isso devia ter qualquer coisa a ver com isso. Eu sempre preferi dormir a sesta a dominar o mundo, por isso, especializei-me nela e na arte de pescar no mar.
Um dia, cheguei a casa do agricultor, chamei por ele, e não obtive reposta. À porta, tinha uma folha A4, com uma morada, que dizia: “Para comprar as minhas maçãs, dirija-se ao meu distribuidor”. Que chatice, agora tinha que andar não sei quantos quilómetros para comprar as maçãs. Tanto as sardinhas como as maçãs iam ficar uma porcaria com o calor. Mas como só havia aquelas macieiras na terra (o agricultor apropriou-se de todas), lá tive que ir ao distribuidor. Finalmente, chego ao destino e, para meu espanto, vejo milhares de maçãs de todas as cores e feitios, cartazes gigantes e uns anúncios a piscar cores ácidas que diziam que aquelas maçãs eram as melhores do mundo. Tudo aquilo para vender umas maçãs? Quando tive de pagar sete cêntimos por cada maçã, percebi. Três cêntimos eram para o agricultor e quatro cêntimos para construir o parque de diversões das maçãs.
Mas nisso enganei-me. Quando encontrei o agricultor, uma vez, na praia, disse-me que agora só ganha um cêntimo por cada maçã, e que se não vendesse àquele preço, o distribuidor não lhas comprava. “Porque não voltas a vendê-las tu?”, perguntei-lhe. “Sabes, agora ninguém compra maçãs ao agricultor. É sempre ao distribuidor. Ele faz muita publicidade e convence as pessoas que as maçãs que ele vende são as melhores e as mais baratas. Não teria clientes. Ao menos, assim, garanto algum. E, sabes, tenho de as deixar lá e só recebo o dinheiro quando forem vendidas, o que significa que ele recebe o dinheiro das maçãs primeiro do que eu, e aplica-o no banco até mas pagar. Além de ganhar dinheiro com a venda das minhas maçãs, também ganha juros do meu dinheiro. E diz que aquilo tudo é para pagar o trabalho de as pôr nas prateleiras e de as promover. Que tristeza. Agora, nem eu posso vender nem tu podes comprar maçãs a um preço justo”. “É verdade”, respondi. “Queres que te ensine a pescar?”
Nesse tempo, antes dos pós e das sementes criadas em laboratório, apanhava as maçãs das árvores, ou comprava-as ao agricultor, e comia-as. Ou não pagava nada por elas, eram uma espécie de oferta da natureza, ou pagava, vamos apenas exemplificar, três cêntimos por cada maçã, ao agricultor. Ele argumentava que eu lhe deveria pagar porque tinha tido o trabalho de as cultivar, proteger e apanhar. Primeiro, não concordei. Afinal, eu tinha-as de graça, podia apanhá-las, e ele agora dizia que as árvores eram dele. Mas depois entramos em consenso. Ele apanhava-me as maçãs e eu pescava, ainda que sempre me tenha recusado a domesticar os peixes, como ele fez com as macieiras. “Se não tens maçãs para colher, podes sempre colher laranjas ou pêras e, em cada época, vendes o que a natureza te oferece sem esforço. Não percebo porque queres vender só maçãs.” Começou-me a falar de um tal efeito de escala, mas ignorei-o. Era um bocado ganancioso, por isso devia ter qualquer coisa a ver com isso. Eu sempre preferi dormir a sesta a dominar o mundo, por isso, especializei-me nela e na arte de pescar no mar.
Um dia, cheguei a casa do agricultor, chamei por ele, e não obtive reposta. À porta, tinha uma folha A4, com uma morada, que dizia: “Para comprar as minhas maçãs, dirija-se ao meu distribuidor”. Que chatice, agora tinha que andar não sei quantos quilómetros para comprar as maçãs. Tanto as sardinhas como as maçãs iam ficar uma porcaria com o calor. Mas como só havia aquelas macieiras na terra (o agricultor apropriou-se de todas), lá tive que ir ao distribuidor. Finalmente, chego ao destino e, para meu espanto, vejo milhares de maçãs de todas as cores e feitios, cartazes gigantes e uns anúncios a piscar cores ácidas que diziam que aquelas maçãs eram as melhores do mundo. Tudo aquilo para vender umas maçãs? Quando tive de pagar sete cêntimos por cada maçã, percebi. Três cêntimos eram para o agricultor e quatro cêntimos para construir o parque de diversões das maçãs.
Mas nisso enganei-me. Quando encontrei o agricultor, uma vez, na praia, disse-me que agora só ganha um cêntimo por cada maçã, e que se não vendesse àquele preço, o distribuidor não lhas comprava. “Porque não voltas a vendê-las tu?”, perguntei-lhe. “Sabes, agora ninguém compra maçãs ao agricultor. É sempre ao distribuidor. Ele faz muita publicidade e convence as pessoas que as maçãs que ele vende são as melhores e as mais baratas. Não teria clientes. Ao menos, assim, garanto algum. E, sabes, tenho de as deixar lá e só recebo o dinheiro quando forem vendidas, o que significa que ele recebe o dinheiro das maçãs primeiro do que eu, e aplica-o no banco até mas pagar. Além de ganhar dinheiro com a venda das minhas maçãs, também ganha juros do meu dinheiro. E diz que aquilo tudo é para pagar o trabalho de as pôr nas prateleiras e de as promover. Que tristeza. Agora, nem eu posso vender nem tu podes comprar maçãs a um preço justo”. “É verdade”, respondi. “Queres que te ensine a pescar?”
Humanismo.
Sempre que há uma catástrofe humana, as redes sociais impregnam-se de frases muito belas. No outro dia, apareceu-me uma, no perfil falso criado para não perder a oportunidade de ler estas coisas, que me afectou profundamente: "Vejo humanos mas não vejo humanidade”. E lembrei-me logo do meu professor do secundário que uma vez me disse que devia ser “mais humana”, em resposta a uma observação minha que dizia que “não andava aqui para libertar a humanidade da opressão. Quanto muito, aliviava a dor de cabeça do meu colega de carteira porque tinha trazido um ben-u-ron.”
“Agora, aliviar todas as dores de cabeça deste mundo?”. “Mesmo que quisesse”, disse-lhe, “que não é claramente o caso, não ia conseguir, porque o que cria dores de cabeça a uns, não cria a outros. E eliminar uma causa de dor de cabeça de uns, ia dar muitas dores de cabeça a outros. Por isso, em vez de ter a pretensão de saber e querer eliminar as dores de cabeça de toda a “humanidade”, resolvo as minhas e as do colega do lado. Pode ser que outros, ao verem como resolvi a minha, resolvam também a deles, se quiserem. Valha-me obrigá-los a resolver aquilo que eu acho que são as dores de cabeça deles! Inclusivamente, professor, sei de muita gente que precisa da dor de cabeça. Li, anteontem, que há muitos escritores que não conseguem escrever sem ela. Nos dias sem dor de cabeça, vão para a praia e põem-se a namorar. Além disso, nos dias seguintes à inactividade intelectual, ficam com uma grande dor de cabeça provocada pela frustração de não avançarem no trabalho.
E quem é que define o que é ser “mais humana”? É o professor? E se eu achar que sou mais humana por não querer que todos os “humanos” sigam a minha ideia de “humanidade”?
Já o estou a ver num alto palanque a recitar o novo “código da humanidade” e a selecionar quem fica de fora das determinações específicas.“Este não é humano, este é quase humano, este é meio humano.”
Se calhar é por isso que agora vendem tantos comprimidos para as dores de cabeça. Ou porque nunca somos suficientemente humanos ou porque, digo eu, cansamo-nos de ser demasiado humanos”.
Belos tempos.
“Agora, aliviar todas as dores de cabeça deste mundo?”. “Mesmo que quisesse”, disse-lhe, “que não é claramente o caso, não ia conseguir, porque o que cria dores de cabeça a uns, não cria a outros. E eliminar uma causa de dor de cabeça de uns, ia dar muitas dores de cabeça a outros. Por isso, em vez de ter a pretensão de saber e querer eliminar as dores de cabeça de toda a “humanidade”, resolvo as minhas e as do colega do lado. Pode ser que outros, ao verem como resolvi a minha, resolvam também a deles, se quiserem. Valha-me obrigá-los a resolver aquilo que eu acho que são as dores de cabeça deles! Inclusivamente, professor, sei de muita gente que precisa da dor de cabeça. Li, anteontem, que há muitos escritores que não conseguem escrever sem ela. Nos dias sem dor de cabeça, vão para a praia e põem-se a namorar. Além disso, nos dias seguintes à inactividade intelectual, ficam com uma grande dor de cabeça provocada pela frustração de não avançarem no trabalho.
E quem é que define o que é ser “mais humana”? É o professor? E se eu achar que sou mais humana por não querer que todos os “humanos” sigam a minha ideia de “humanidade”?
Já o estou a ver num alto palanque a recitar o novo “código da humanidade” e a selecionar quem fica de fora das determinações específicas.“Este não é humano, este é quase humano, este é meio humano.”
Se calhar é por isso que agora vendem tantos comprimidos para as dores de cabeça. Ou porque nunca somos suficientemente humanos ou porque, digo eu, cansamo-nos de ser demasiado humanos”.
Belos tempos.
Tudo o que eu não fui, tu serás assim.
Entristece-me ver crianças exemplares. Têm as melhores notas, tocam piano, lêem antes do tempo e “já sabem falar de política e ciência”. O adestramento começa cada vez mais cedo. Os pais, sedentos de prestígio social, fabricam bonecos à imagem dos seus arrependimentos. Os filhos têm que ser os mais inteligentes, famosos ou bonitos, porque era o que eles queriam ser mas não conseguiram. As crianças, usadas como propriedade e subserviência garantidas, não só lhes dão a sensação de eternidade, como lhes satisfazem as necessidades de amor, ego e violência. Preciso de atenção? O filho dá. Preciso de prestígio? O filho dá. Preciso de exercer autoridade em alguém? Mando no meu filho. E a esta degradação intelectual, roubo da espontaneidade, e da vontade própria, chamam educação. Seja por coacção, seja por manipulação, os adultos procuram que os filhos sejam extensões obedientes e melhoradas de si próprios. Só não sei se eles se apercebem que, assim, não só criam seres frustrados e deprimidos, como estão a reiniciar o ciclo de violência social do qual foram vítimas toda a vida.
A liberdade deles.
Tenho uns amigos do governo que falam muito em liberdade política. Quando me vêm com essa conversa, pergunto-lhes: Liberdade de quem? Para fazer o quê? E chego sempre à mesma conclusão. A liberdade deles decidirem a que leis devo sujeitar-me. É que, quanto mais exercem a liberdade deles, menos vejo a minha. No Estado "livre", onde somos obrigados a fazer milhares de coisas, podemos optar entre as alternativas que o poder nos dá, que são nenhumas.
O burlesco e o sublime.
Há uma coisa que me tem intrigado ultimamente: por que é que toda a gente quer impor-me sentimentos? Querem que eu sinta temor a deus, querem que eu sinta temor dos meus pais, dos meus avós, do meu chefe, do gerente do banco, de toda a gente em geral, e delas em particular. E chamam a isto respeito. "Tens de respeitar isto, tens de respeitar aquilo." E eu fico sem perceber o que eles realmente querem. Mas parece-me que andam à esmolinha das venerações. E se eu sentisse o que me apetecesse dos meus pais, dos meus avós, do meu chefe e do homem que trata das minhas contas no banco? Porque insistem que devo sentir o que elas desejam que eu sinta e não o que eu sinto efectivamente? É que é um bocado desgastante ter que fazer uma expressão de extrema seriedade sempre que surge o burlesco na vida. Tudo é sagrado! A economia é sagrada, os mercados são sagrados, a ciência é sagrada, os princípios gerais são sagrados. E ao sagrado o que é que se exige? Submissão e devoção. O problema é que, na maior parte das vezes, é, realmente, um caso sério, mas de idiotice. Basta olhar para o lado para perceber que o século XXI, tão doente mentalmente, está cheio de gente que levou tudo demasiado a sério.
No início.
Quando era pequena e vivia no meio das jóias e dos empregados, pedia muito a deus que me levasse dali para um sítio calmo, onde pudesse ler, ou para outro, com pessoas sem poder, amigos e solidariedade. Deixei de acreditar em deus mas todos os meus desejos foram realizados. Se nos conseguirmos lembrar do que pedimos em crianças, iremos perceber que quase tudo se concretizou. O mal da vida começa aí, no momento em que deixamos de ser capazes de nos lembrar do que sempre desejamos.
Na aula de revolução.
- No outro dia, fiz uma revolução.
- Fizeste? Onde?
- No ginásio.
- Como é que fizeste uma revolução no ginásio?
- Numa aula de grupo, levei os meus alunos para a rua, pus músicas de intervenção a tocar, disse para toda a gente pôr um dos braços no ar e fechar bem os punhos.
- E depois?
- Depois, tinham de caminhar.
- Assim, de braço no ar, de punho fechado?
- Assim mesmo. Alternando, claro, para ganharem músculos nos dois braços.
- Mas isso não é uma revolução. Nas revoluções, as pessoas dizem coisas. Na tua revolução só se ouve?
- Não, não. Depois, criei frases de ordem: "Abaixo o governo", " Queremos mais pão", "Queremos um futuro".
- E se alguém quisesse dizer coisas diferentes?
- Pedíamos desculpa e explicávamos muito bem a razão de todos terem que dizer o mesmo.
- E se as pessoas se recusassem a participar na tua aula de revolução?
- Tentava fazê-las perceber o quão burras estavam a ser e que, sem a aula de revolução, nunca conseguiriam ter os músculos que tanto desejavam.
Já que falas nisso, por acaso, tive um problema complicado nessa aula.
- Tiveste?
- Sim. um dos alunos virou-se para todos e disse: " Vou ganhar músculos à minha maneira. Não gosto que escolham as músicas que tenho de ouvir nem as palavras que tenho de dizer".
- E qual foi a vossa reacção?
- Ficamos a olhar uns para os outros, murmuramos sobre a possível loucura dele, e continuamos com a aula.
- Ignoraram-no?
- No início, sim. Mas, depois, ele pôs-se, no meio da aula, a gritar " Abaixo as aulas de revolução", como um louco. E eu tive de chamar o segurança.
- Feriu alguém?
- Não. Mas estava muito histérico, pelo que pedi ao segurança para chamar o 112. Via-se que o senhor não estava bem. Pedi para lhe darem ajuda psicológica.
- E a seguir?
- A seguir, continuamos com os exercícios.
- Já pensaste como seria se tivesses mais alunos como esse louco?
- Felizmente, estes casos são excepções e estão controlados. Já há muitos tratamentos para estes problemas.
___
- Fizeste? Onde?
- No ginásio.
- Como é que fizeste uma revolução no ginásio?
- Numa aula de grupo, levei os meus alunos para a rua, pus músicas de intervenção a tocar, disse para toda a gente pôr um dos braços no ar e fechar bem os punhos.
- E depois?
- Depois, tinham de caminhar.
- Assim, de braço no ar, de punho fechado?
- Assim mesmo. Alternando, claro, para ganharem músculos nos dois braços.
- Mas isso não é uma revolução. Nas revoluções, as pessoas dizem coisas. Na tua revolução só se ouve?
- Não, não. Depois, criei frases de ordem: "Abaixo o governo", " Queremos mais pão", "Queremos um futuro".
- E se alguém quisesse dizer coisas diferentes?
- Pedíamos desculpa e explicávamos muito bem a razão de todos terem que dizer o mesmo.
- E se as pessoas se recusassem a participar na tua aula de revolução?
- Tentava fazê-las perceber o quão burras estavam a ser e que, sem a aula de revolução, nunca conseguiriam ter os músculos que tanto desejavam.
Já que falas nisso, por acaso, tive um problema complicado nessa aula.
- Tiveste?
- Sim. um dos alunos virou-se para todos e disse: " Vou ganhar músculos à minha maneira. Não gosto que escolham as músicas que tenho de ouvir nem as palavras que tenho de dizer".
- E qual foi a vossa reacção?
- Ficamos a olhar uns para os outros, murmuramos sobre a possível loucura dele, e continuamos com a aula.
- Ignoraram-no?
- No início, sim. Mas, depois, ele pôs-se, no meio da aula, a gritar " Abaixo as aulas de revolução", como um louco. E eu tive de chamar o segurança.
- Feriu alguém?
- Não. Mas estava muito histérico, pelo que pedi ao segurança para chamar o 112. Via-se que o senhor não estava bem. Pedi para lhe darem ajuda psicológica.
- E a seguir?
- A seguir, continuamos com os exercícios.
- Já pensaste como seria se tivesses mais alunos como esse louco?
- Felizmente, estes casos são excepções e estão controlados. Já há muitos tratamentos para estes problemas.
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- Sobre a ideia da revolução enquanto exercício de ginástica, ler O Torcicologologista, Excelência e ver o filme La Chinoise, do Godard.
Inimigos.
Os meus inimigos sãos os poderes. Não as pessoas que o detêm, essas é importante escarnecer, mas nas formas que eles assumem no interior de nós próprios. Por isso é que, para mim, a desconstrução e a desobediência são as únicas formas de os destruir.
As histórias de quem detém o poder não me interessam. Um diz isto, o outro diz aquilo, e cada vez se percebe menos. Confusos, sentimo-nos cada vez mais impotentes na transformação das nossas vidas.
É a palavra "suas" que faz aqui toda a diferença. Não interessa andarmos preocupados com o que os outros andam a fazer. Só podemos mudar-nos a nós e aquilo a que temos acesso. Se podermos ajudar o outro, e ele quiser ou pedir ajuda, fá-lo-emos. Mas, falar, com muita emoção, sobre o que não conhecemos ou sobre coisas às quais não temos acesso, ou são desculpas para a colonização ou é desinformação. É telenovela.
As histórias de quem detém o poder não me interessam. Um diz isto, o outro diz aquilo, e cada vez se percebe menos. Confusos, sentimo-nos cada vez mais impotentes na transformação das nossas vidas.
É a palavra "suas" que faz aqui toda a diferença. Não interessa andarmos preocupados com o que os outros andam a fazer. Só podemos mudar-nos a nós e aquilo a que temos acesso. Se podermos ajudar o outro, e ele quiser ou pedir ajuda, fá-lo-emos. Mas, falar, com muita emoção, sobre o que não conhecemos ou sobre coisas às quais não temos acesso, ou são desculpas para a colonização ou é desinformação. É telenovela.
Ideias vs ordens.
Toda a gente sabe que os conteúdos dos livros obrigatórios ou recomendados das escolas portuguesas são pensados e desenhados, em primeiro lugar, pelo Estado e, em segundo lugar, por grandes empresas editoriais. Toda a gente também sabe que o que os professores fazem não é transmitir informação mas ordenar que os alunos façam os trabalhos ou os exercícios de uma determinada forma. Quando os estudantes não fazem o exercício como os professores ordenam, têm má nota ou reprovam, tendo que repeti-lo até estarem de acordo com as suas ordens. Assim, o sistema de educação português tem uma tripla disciplinação do pensamento. Primeiro, é sempre a favor do Estado, segundo, nunca é contra as grandes empresas, terceiro, é imposto por um grupo profissional também formado com estas orientações. É por este motivo que as artes, nas suas variadas formas: plásticas, cinematográficas, literárias, musicais, etc., criadas autonomamente, são a maior fonte de emancipação do ser humano.
Deve ser por isso, também, que me lembro melhor do dia em que ouvi a minha primeira música punk, do que do dia do meu primeiro beijo. Tinha 13 anos, a banda foi Dead Kennedys, e a música Pull my strings. Do beijo, só me lembro que o rapaz era giro.
É que foi nesse dia que percebi que, mesmo sofrendo represálias, em casa ou na escola, por questionar e desobedecer às ordens que me impunham, tinha gente do meu lado, que pensava como eu. E, ainda por cima, não tinham o objectivo de mandar em mim. Apenas queriam partilhar a vida, o que também incluía trocas de insultos. Mas, uma coisa é transmitir ideias ou insultar alguém que pode transmitir a dele/a ou insultar-me, outra coisa é alguém dizer-me que a ideia dele/a é mais válida do que a minha, ou insultar-me, e eu ser obrigada a calar-me.
Deve ser por isso, também, que me lembro melhor do dia em que ouvi a minha primeira música punk, do que do dia do meu primeiro beijo. Tinha 13 anos, a banda foi Dead Kennedys, e a música Pull my strings. Do beijo, só me lembro que o rapaz era giro.
É que foi nesse dia que percebi que, mesmo sofrendo represálias, em casa ou na escola, por questionar e desobedecer às ordens que me impunham, tinha gente do meu lado, que pensava como eu. E, ainda por cima, não tinham o objectivo de mandar em mim. Apenas queriam partilhar a vida, o que também incluía trocas de insultos. Mas, uma coisa é transmitir ideias ou insultar alguém que pode transmitir a dele/a ou insultar-me, outra coisa é alguém dizer-me que a ideia dele/a é mais válida do que a minha, ou insultar-me, e eu ser obrigada a calar-me.
Hierarquia vs transversalidade.
Se há coisa indigna neste mundo é achar que se pode falar em nome dos outros. Os médicos acham que podem falar pelos doentes, os que estudaram mais pelos que estudaram menos, os homens pelas mulheres, os professores pelos alunos, ou os empresários pelos trabalhadores. O que interessa é que cada um fale de si, ou enquanto membro do grupo a que pertence, e dos problemas políticos, financeiros, jurídicos, ou outros, que o afectam. Por isso é que eu acho muito estranho que um homem que nunca trabalhou por conta de outrem considere que pode falar por mim, que os académicos possam falar em nome do punk, que a classe média possa falar em nome dos pobres, ou alguém que nunca escreveu pelos escritores. Para que isto faça algum sentido, num hospital, por exemplo, terá que haver o grupo dos médicos, o dos enfermeiros, os trabalhadores da limpeza, financeiros, etc. e o grupo dos doentes. E não uma administração, ou o grupo mais privilegiado, a falar em nome de todos.
Iluminismo, verdades e religiões.
Adoro quando alguém discorda de mim e começa a dizer que tenho que informar-me melhor sobre o assunto, e que não posso centrar-me na minha opinião particular. É o clássico “Só não pensas como eu porque não sabes nada. Se soubesses, concordavas.” Para essas pessoas, tenho uma resposta: para mim, não há verdades. Há opiniões. E a opinião que dou é sempre a minha, pelo que dizer que não devo centrar-me “na minha opinião particular” é um bocado estranho. Até porque a opinião do outro é a dele, apesar de ele achar que é uma verdade universal. E ainda é pior quando vêm com a teoria que a opinião deles é mais válida do que a minha porque “há livros que dizem isso”, “há estudos científicos que provam isso”, e mais não sei quantas formas de dizer que há qualquer autoridade que se sobrepõe à minha opinião. É que nem deus, nem a ciência, nem a experiência. O que eu digo vale tanto como o que o papa diz, que é nada. Ninguém diz verdades, todos dizem apenas a sua opinião. Eu questiono tudo. Que questionem tudo o que eu digo também.
Como cumprir ordens III.
No outro dia, estacionei o carro num parque de estacionamento de uma escola, ao lado do trabalho. Tinha sempre mais de metade dos lugares vazios, pelo que tomei a liberdade de deduzir que um lugar ocupado não faria qualquer diferença. Quando já pensava que finalmente tinha encontrado um lugar de estacionamento nesta cidade, eis que surge o porteiro da escola.
- Ó menina, este parque é reservado aos docentes da escola.
-Compreendo. Mas venho aqui todos os dias e tem sempre mais de metade dos lugares desocupados. Como não há lugares lá fora, e aqui há muitos vazios, pensei que não haveria problema de estacionar.
- Mas há. Não pode estacionar aqui.
- Porquê?
- Porque são ordens que tenho.
- De quem?
- Já lhe disse. São ordens.
- O senhor é o responsável pela gestão do parque de estacionamento?
- Não. Mas não pode estacionar aí.
-Mandaram-lhe dizer-me para tirar o carro?
-Não. Eu é que a vi a estacionar e sei que não pode estacionar.
-Mas que diferença lhe faz que estacione aqui?
-Já lhe disse que são ordens.
- Ó menina, este parque é reservado aos docentes da escola.
-Compreendo. Mas venho aqui todos os dias e tem sempre mais de metade dos lugares desocupados. Como não há lugares lá fora, e aqui há muitos vazios, pensei que não haveria problema de estacionar.
- Mas há. Não pode estacionar aqui.
- Porquê?
- Porque são ordens que tenho.
- De quem?
- Já lhe disse. São ordens.
- O senhor é o responsável pela gestão do parque de estacionamento?
- Não. Mas não pode estacionar aí.
-Mandaram-lhe dizer-me para tirar o carro?
-Não. Eu é que a vi a estacionar e sei que não pode estacionar.
-Mas que diferença lhe faz que estacione aqui?
-Já lhe disse que são ordens.
- Olhe, tem o parque de estacionamento vazio, ninguém o mandou vir obrigar-me a tirar o carro. O senhor tem necessidade de mandar em alguém, de sentir o poder, é isso?
- Já lhe disse que são ordens.
-Se ninguém o ordenou, são ordens de quem? De Deus?
-Já lhe disse que são ordens.
- Olhe, os nazis também mataram os judeus porque estavam a cumprir ordens.
-Está a chamar-me nazi?
- Não, não. Foi só uma analogia. Mas, digo-lhe, tem imenso jeito para PIDE.
- Já lhe disse que são ordens.
-Se ninguém o ordenou, são ordens de quem? De Deus?
-Já lhe disse que são ordens.
- Olhe, os nazis também mataram os judeus porque estavam a cumprir ordens.
-Está a chamar-me nazi?
- Não, não. Foi só uma analogia. Mas, digo-lhe, tem imenso jeito para PIDE.
Criar ou desligar interruptores.
Se o controlo é hoje exercido através da internet, a resistência ao poder será feita pelos hackers ou, por qualquer pessoa, no momento em que se desliga.
Os defensores do Estado deverão garantir a existência de espaços onde os cidadãos possam não-comunicar ou recusar-se a fazê-lo.
Os que acreditam que o Estado é uma forma de legitimação do exercício de poder de uma minoria sobre a maioria, aprenderão a piratear as suas estruturas virtuais. A criar vírus que apaguem os dados dos cidadãos das bases de dados das empresas, por exemplo.
Os desobedientes desligar-se-ão.
Os defensores do Estado deverão garantir a existência de espaços onde os cidadãos possam não-comunicar ou recusar-se a fazê-lo.
Os que acreditam que o Estado é uma forma de legitimação do exercício de poder de uma minoria sobre a maioria, aprenderão a piratear as suas estruturas virtuais. A criar vírus que apaguem os dados dos cidadãos das bases de dados das empresas, por exemplo.
Os desobedientes desligar-se-ão.
Tirem-me deste aquário.
Como escrevi aqui, um dos maiores problemas das redes sociais é privatizarem os tempos livres. Isto tem como consequência a impossibilidade de criação de espaços e discursos próprios, longe das empresas que as criam e as gerem. É que, não nos esqueçamos, apesar de não os vermos, os gestores do Google e do Facebook verificam diariamente como nos comportamos e criam mecanismos virtuais para nos induzirem aos comportamentos que mais lhe interessam, e os mais lucrativos para as empresas que investem neles, que compram os nossos dados ou espaços publicitários. Ou seja, sempre que estamos ligados a um smartphone, a um tablet ou a um computador, o nosso comportamento está a ser manipulado por empresas. E esta mediação tem características e consequências que subvertem por completo a consciência pública. O facto dos motores de busca e das redes sociais serem personalizados (eles escolhem o que vemos e fazem-no com base no que procuramos e gostamos no passado), implica que estejamos a passear num espaço do consenso, onde nunca temos a necessidade de contactar com o diferente, com a alteridade. Só nos mostram o que queremos ver, o que é igual a nós. É por este motivo que pensar que as redes sociais são uma forma de incremento à liberdade de expressão é o mesmo que se dizer que quanto mais o cão ladra mais liberdade ele está a exprimir. Todos falam muito, ninguém se ouve. E quando alguém diz alguma coisa que não interessa, ou é ameaçadora para estas empresas, elas tratam de as silenciar, utilizando algoritmos que, por exemplo, fazem com que publicações com determinadas palavras circulem ou apareçam menos. Ou, no Google, nem sequer aparecendo. Procuras isto, mas sou eu que escolho o que aparece e, consequentemente, onde vais clicar. Por isso é que isto tudo me parece um aquário. As paredes de vidro, que são transparentes, não se vêm. Ou seja, a limitação, feita pela mediação, está lá, mas nós continuamos a nadar, ignorando a sua existência e limitando por completo os nossos horizontes. Haja mar.
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