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A dois.

Os livros e os homens podem levar-se para a cama. Afundamo-nos nos primeiros e os segundos afundam-se em nós.

Corpos há muitos.

"O erotismo, no seu conjunto, é infracção às regras das proibições: é uma actividade humana. Mas, embora comece onde o animal acaba, a animalidade é sempre o seu fundamento. Desse fundamento, a humanidade desvia-se com horror (...).

Sempre associada ao erotismo, a sexualidade física está para o erotismo como o cérebro está para o pensamento." Georges Bataille, in O Erotismo.

Ou,

Ainda que o impulso erótico nasça da nossa animalidade, o que nos embriaga não é o corpo. É o pensamento. E é precisamente dele que se alimenta o erotismo.

Antinomia.

Quando amamos, parte de nós morre. O amor transforma-nos porque alienamos alguma da nossa natureza e tornamo-nos portadores de parte da natureza do outro. Não é a apropriação do outro mas a transformação de nós mesmos, resultante da antinomia.

A entrada no outro coloca-nos no desconhecido.

E é no desconhecido que nos vulnerabilizamos.

Por isso, o amor não pode ser terno, doce, tranquilo e todos os nomes que a romantização e a domesticação o querem chamar.

O sujeito narcísico da sociedade actual, ao lutar contra todos os sentimentos negativos, reduziu o amor a um objecto de consumo.

A pornografia é um exemplo disso. Estamos cada vez mais nus e nunca houve tão pouco erotismo. O rosto pornográfico não tem expressão nem mistério. Um corpo nu é um corpo nu. É a sexualidade sem mais. Aí, somos todos iguais. No que nos difere é que nasce o erotismo.

No inferno do igual, contra a violência do consenso, vestir, pensar, ritualizar é transformar.

Frente à coacção da conformidade higienista, amar é transgredir.

Amor: sexo e metafísica.

Toda a gente já sentiu aquela chicotada no cérebro. No momento em que olhamos para ele ou para ela, o queixo cai-nos, os olhos saltam-nos das órbitas, a realidade suspende-se. Começamos a ver tudo de forma diferente. Sideramos. Eis o amor, a experiência natural mais pungente, hipnótica e extasiante do ser humano.

Inflamados, começamos a imaginar o outro e apaixonamo-nos pelo que é perfeito nele. Não é preciso que ele seja perfeito em tudo, mas tem que encarnar alguma forma de perfeição. A nossa personagem tem que ser superior aos outros, ultrapassar o resto da humanidade em alguma coisa. Apaixonamo-nos pela nossa imaginação. Por isso é que no "Banquete", de Platão, Sócrates diz que o “erro surge por se considerar que o amor é aquilo que se ama e não aquilo que ama”. Não cometer o erro significará, então, dizermos que o amor tem mais a ver com a forma como amamos do que com a pessoa que amamos. Ou, como diria Barthes, “é o amor que o sujeito ama, não o objecto”. Mas, se não é a pessoa que amamos mas o nosso estado de enamoramento, porque razão desejo aquela pessoa e não outra? Amamos quem queríamos ser, quem nos é útil ou quem nos satisfaz.

É por este motivo que há quem considere que toda esta história é uma grande facécia, que o amor é uma invenção bizarra que tem por objectivo sentimentalizar o instinto sexual. Ou seja, tal como os outros animais, o que procuramos é sempre sexo. E esse instinto cega-nos até conseguirmos satisfazer-nos . Mas, mesmo que o amor não seja mais do que uma ilusão, os sentimentos que desperta são reais. E, se ninguém deixa de dormir, comer e até se suicida por deixar de ter sexo, a que se deve a imensidão do desgosto amoroso?

Quando termina um amor, não é a pessoa que se perde. É o sentido da nossa existência. Claro que podíamos encontrá-lo de várias formas. Na contemplação, passando os dias na natureza, a reflectir, a aprofundar o pensamento. Na acção, prosseguindo uma causa, como a igualdade, a justiça ou a luta contra o racismo. Ou na diversão, na boémia, na transgressão. Mas não há nenhum que empilhe todos os sentidos da vida como a paixão. Ela é uma ideia, uma causa, que nos impele a contemplar, agir, cooperar, arder e andar à deriva. Absorve todos os sentidos, a vida toda. Deve ser por isso que o amor é o objectivo último de quase todas as aspirações humanas. E será também por isso que dá origem aos maiores sofrimentos. A violência da paixão é tal que serve de consolo para a maior dor da consciência humana: deixamos até de nos lembrar que um dia vamos morrer. Achamos que vamos ser felizes para sempre. Ou, como diria Cesare Pavese, nos seus diários, "Ninguém se mata pelo amor de uma mulher. Matamo-nos porque um amor, não importa qual, nos revela a nós mesmos na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado inerme, no nosso nada”.

E o que fazemos, então, quando a paixão acaba, seja porque deixamos de a sentir, seja porque o outro se foi embora?Como evitamos o sofrimento do amor?

Há quem preconize uma entrega desenfreada às relações sexuais para evitar os perigos de uma paixão única, e há quem apregoe a domesticação das pulsões carnais para nos defendermos das atrocidades do amor. Mas, seja para não corrermos o risco de substituirmos uma dependência emocional por uma dependência sexual, seja para não deixarmos de viver a experiência mais singular da vida humana, alcancemos a autonomia individual, a auto-suficiência emocional. Embriaguemo-nos também com arte, com ideias ou com festas. Viver ao contrário da natureza é remar contra a maré, mas procuremos a felicidade não só na busca do prazer também na lucidez, na independência relativamente a falsas necessidades e a preconceitos que criam frustrações. Em união ou em celibato, não expectemos a satisfação de todas as nossas necessidades no outro. Há pessoas que vivem acompanhadas e sentem uma profunda solidão e há celibatários que nunca se sentem sozinhos. Desprezemos os discursos falaciosos das servidões no amor. É que no início, durante e no fim, vestidos ou despidos, o inferno não é o outro, somos sempre nós.

Da natureza.

Depois de comer, ficamos saciados, depois de repousar, descansados, depois de dormir, sem sono, depois de beber, sem sede.

Se o sexo é uma necessidade natural, por que é que não só não ficamos satisfeitos como quanto mais fazemos mais queremos fazer?

O ser natural não vicia. O vício nasce da urbanização.

Isto só serve para compor a geração futura?

Se, como afirma Schopenhauer, o amor é uma invenção bizarra que tem por objectivo sentimentalizar o instinto sexual, a que se deve a imensidão do desgosto amoroso?

Não há almoços grátis.

Lucrécio dizia que devemos entregar-nos às relações sexuais desenfreadas para evitarmos os perigos de uma paixão única. O problema é que ao fugir da dependência emocional, fica-se com uma dependência sexual incontrolável.