Trump II.

“-Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal. O resto não tem importância.

(…)

-A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.

-Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?

-A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.”

Albert Cossery em A Violência e o Escárnio.

Da série Como arruinar a autoridade, descredibilizando-a.
http://3tres7sete.blogspot.pt/2015/11/como-cumprir-ordens-ii.html
http://3tres7sete.blogspot.pt/2016/12/adulacao.html

Trump I.

O problema do Trump é que, como o cérebro dele vive na idade média, ainda não percebeu que, no século XXI, o poder tem de ser exercido através da manipulação psicológica, e não pela força. Para diminuir as resistências, há que dar recompensas instantâneas ou parecer que se está a fazer o bem. Ou ele muda rapidamente o discurso para o benfeitor ou não se safa. O poder disciplinar tem limites. Se eu consigo identificar o opressor, revolto-me contra ele. Pelo contrário, o poder psicológico, que é invisível, é ilimitado e apela à auto-culpabilização "Sou bem tratado mas sinto-me mal, não posso fazer mais nada, tive todas as oportunidades e não consegui, sou um falhado (discurso típico da opressão neoliberal - não conseguimos mais porque as oportunidades que temos são reduzidas, mas é importante fazerem-nos pensar que eles foram muito bons connosco e que não conseguimos porque não somos capazes), o que é muito diferente de "não consegui porque este/s abutre/s estão a oprimir-me ou a explorar-me e vou dar cabo dele/s, com os meios ocultos ou públicos que tiver". O poder invisível amolece e deprime os sujeitos da opressão. O poder exercido pela força (que, durante séculos, foi possível devido à crença na narrativa religiosa, "Sofro mas serei recompensado por Deus"), revolta e enfurece os sujeitos oprimidos, o que não dá muito jeito a quem oprime, já que incita à desobediência. Todos os políticos já perceberam isso, por isso é que andam sempre muito preocupados com a imprensa e com o marketing. E vai ser isso que o Trump vai começar a aprender agora, com muita pena minha, porque, pelo andar da carroagem, cairia em três tempos.

Achas para a minha fogueira.

Sempre que conheço um conjunto de imbecis, surgem-me logo ideias para escrever. Se toda a gente fosse sensata e inteligente, a vida era bem menos divertida. É por isso que a arte, para mim, nunca nascerá do belo e do sublime mas da apreciação do permanente espectáculo da estupidez humana.

L7, Fuel My Fire.

Banalidade do mal.

À saída do documentário sobre a Hannah Arendt:

- Não sei como é que ela teve coragem de dizer que aqueles Nazis não eram monstros mentalmente doentes mas apenas burocratas vazios de pensamento que desejavam ascender profissionalmente. Eles sabiam que estavam a matar seres humanos em série!

- Não sei como é que tens coragem de andar com roupas e telemóveis feitos por crianças em condições desumanas só para exibicionismo social. Tu sabes que estás a escravizar seres humanos em série!

- E alguns alemães ainda podiam ter a desculpa de não poderem desertar, com medo da morte. A tua, qual é?

Quem está morto és tu.

Vocês são todos muito parecidos e fazem todos as mesmas coisas. No ano passado, era o Beirão, sem licor, o Cunha com Silva e os parisienses. Choraram horrores durante dois dias e nunca mais ninguém se lembrou. Que queridos! Que sensíveis! Agora, são os davides, os micaeles e as raparigas das estrelas em guerra.Sempre que vejo uma publicação nas redes sociais sobre a morte de um famoso, apetece-me pôr um altifalante ao ouvido do indivíduo, com esta música, e dizer:

Porque andas a chorar com peninhas das mortes dos famosos? Para que serve este circo necrológico? Se nunca viste esta pessoa a não ser em páginas de revistas, onde é isso te aquece ou arrefece? Se dissesses que é porque não podes mais ouvir as músicas, ver os filmes, ou ler os livros, até compreendia. Mas não. Tens tudo à disposição. Criar afecto por seres ficcionados pela comunicação social não é só pernicioso, porque são imagens criadas para vender produtos e serviços, como também é imbecil.

Do que vocês precisam acima de tudo não é encher a cabeça com lixo emocional mas tratar das vossas vidas. Da vossa terra, se a tiverem, plantá-la, da vossa comida, cozinhá-la, do vosso corpo, mexê-lo, da vossa mente, limpá-la de todas as porcarias que lá põem para vos atormentar.

Victor Torpedo Karaoke, So Dead.

O sistema.

Gostei muito de todas as mensagens que enviaram sobre o meu novo trabalho.

Aos que disseram que me vendi ao sistema e que

“Esse festival está super comercial
Não sei como aceitaste
Julgava-te punk.”

Tenho umas coisinhas a dizer:

Onde é que vocês trabalham?

Quem é que vos paga as contas?

Não sei como os padeiros do Continente, os operadores de caixa do Pingo Doce e os escolhedores de rolhas da Amorim aceitaram trabalhar em empresas tão comerciais. Julgava-os comunistas.

A todas essas almas puras, deixo-lhes o meu nib 373737 e a indicação de uma enorme vontade de criar uma associação contra a discriminação do trabalho intelectual. Adoro palestras.

Trabalhadores modernos.

Estes trabalhadores modernos são muito estranhos. Têm raiva, como os antigos mas, em vez de se virarem contra aquilo e aqueles que os oprimem, atiram-se uns aos outros. Insultam-se, pregam-se rasteiras, mal tratam-se. Depois, vão aos médicos da cabeça queixarem-se da vida. Em vez de lhes darem porcarias químicas para os sedar, a prescrição devia ter uma lista de músicas. A primeira era esta.

Angelic Upstarts, Solidarity.

Adulação.

Para todos os seres humanos no mundo, especialmente os portugueses, tenho uma ideia: que tal deixarem de se comportar como atrasados mentais sempre que estão frente a um rico ou a um famoso? Se fosse para arranjar emprego, até percebia. Às vezes, é-se obrigado, para pôr comida na mesa. Mas a subserviência corre por todo o lado. E se, em vez de os bajularem, os escarnecessem? Não só pelo ridículo, também pela imoralidade de uns terem muito mais do que os outros. Se calhar, cansavam-se de fazer figura de bobos e passavam a querer valorizar-se socialmente por outra coisa qualquer. Podiam ser os melhores conversadores, os que escreviam melhores textos, os que compunham as melhores músicas, os que faziam rir, os que cozinhavam melhor, os que ajudavam mais pessoas. Tanta coisa que pode ser motivo de orgulho para um ser humano. Não percebo porque escolhem alimentar esta.

Amizade.

Quando conheço uma pessoa, tiro-lhe logo o atrelado. Tiro-lhe o nome, as roupas de marca, o carro, a casa, os equipamentos electrónicos e o resto dos acessórios. Se sem isso a pessoa me interessar, ouço-a com atenção e respeito-a. Se não tiver mais do que isso, não lhe dou atenção nenhuma. Não é por mal. Apenas prefiro fazer amizade com pessoas do que com objectos.

Falácia da objectividade.

Sensibiliza-me muito que o Marcelo queira menos ideologia. O problema é que acreditar que as reformas laborais e fiscais podem ser feitas sem ideologia é em si mesmo uma ideologia.

Pop Art.

As pessoas que vivem sozinhas gostavam de ter alguém para se agarrar antes de adormecer. As pessoas que vivem acompanhadas gostavam de conseguir dormir com os movimentos e os barulhos da pessoa com quem dormem.

As pessoas que vivem sozinhas gostavam de ter alguém para dividir as tarefas domésticas. As pessoas que vivem acompanhadas gostavam de não ter que discutir por causa delas.

As pessoas que vivem sozinhas gostavam de ter alguém para contar como foi o dia. As pessoas que vivem acompanhadas gostavam de não ter que fazer conversa quando não há nada para dizer.

As pessoas que vivem sozinhas gostavam de ter alguém para usufruir do voucher que ganharam para um fim-de-semana em Paris. As pessoas que vivem acompanhadas inventam um fim-de-semana de trabalho para descansar.

As pessoas que vivem sozinhas gostavam de ter um motivo para fazer um jantar elaborado. As pessoas que vivem acompanhadas gostavam que o companheiro/a quisesse cozinhar.

As pessoas que vivem sozinhas perguntam-se se era melhor estarem acompanhadas. As pessoas que vivem acompanhadas perguntam-se se o parceiro/a algum dia vai mudar.

As pessoas que vivem sozinhas gostavam de ter alguém com quem ver o filme no sofá. As pessoas que vivem acompanhadas gostavam de poder escolher o filme.

As pessoas que vivem sozinhas gostavam de ter menos oscilações emocionais. As pessoas que vivem acompanhadas têm saudades das borboletas no estômago.

As pessoas que vivem sozinhas gostavam de não ter que marcar actividades para garantir companhia. As pessoas que vivem acompanhadas adoravam não ter que justificar porque querem fazer coisas sozinhas.

As pessoas que vivem sozinhas gostavam de fazer as refeições acompanhadas. As pessoas que vivem acompanhadas gostavam de não ter de esperar por ninguém quando estão com fome e querem jantar.

Resposta pública a e-mail anónimo.

Caro leitor anónimo que me enviou uma mensagem electrónica a dizer que não deveria escrever o texto anterior porque me incluo no alvo,

Não me incluo mas, mesmo que me incluísse:

Primeiro, nunca disse que não era gananciosa. Tenho mais batons vermelhos do que preciso.

Segundo, pagaria os impostos ou venderia a casa para comprar um barco como os da Sea Shepherd. Adoro piratas.

Terceiro, prometo que não teria pobres de estimação. Gosto mais de rebeldes.

Atenciosamente,

Fabiana Lopes Coelho.

Sobre o esperneamento dos pungentes e exímios acumuladores de riqueza contra os impostos sobre as suas fortunas.

Caros colossais, pungentes e exímios acumuladores de riqueza,

Eu sei que vos custa aceitar mas, apesar das 10173 teorias sobre a multiplicação dos pães ou do capital:

OS RECURSOS NATURAIS SÃO LIMITADOS.

Mesmo que vocês inventem 7300 justificações para serem muito mais ricos do que os outros – ou porque são mais inteligentes, ou porque gerem melhor o dinheiro, ou porque têm melhores ideias de negócio, ou porque nasceram com tendência para ganhar dinheiro ou que foi uma bênção que obtiveram quando o papa veio a Fátima:

Se eu acumulo recursos, alguém deixa de os ter.

Só há uma terra.

A água pura está a acabar (e, ouvi dizer, a “purificada” com lixívia causa cancro).

Daqui a pouco não há ar puro para respirar (também já ouvi falar que a poluição é uma coisa complicada).

Logo, se eu exploro um recurso, alguém sofre as consequências dessa exploração.

Para produzir qualquer coisa, seja um bem físico ou intangível, é necessário, pelo menos, um recurso natural (uma máquina não é feita de ficção) ou um recurso humano (que também tem capacidades físicas e intelectuais limitadas).

E não me venham com as tretas da eficiência, que ela só significa sofisticação de estratégias para explorar mais os recursos humanos ou naturais, para obtenção de lucro, o que significa esgotar mais recursos, apesar de vocês acharem ou afirmarem que é multiplicação.

Por isso, assumam que são gananciosos. Que têm mais do que os outros porque querem ter mais do que os outros. E não inventem teorias sobre a luta contra a pobreza, porque a caridade é uma coisa nauseabunda, para disfarçar a acumulação da vossa riqueza.

Maus tempos, arte e ficção.

Dizem que a arte e a ficção são necessidades menores em tempos de dificuldade. Mas é quando a realidade se torna insuportável que mais precisamos delas. Não é alheamento do mundo, é construção de um novo. Ao contrário do entretenimento, que é alienação, entorpecimento do pensamento, a arte é florescimento. Enquanto é criada e contemplada, não só liberta a vida da prisão, como revela novas imagens, novas formas de fazer e pensar. Não é irresponsabilidade. É alimentação de espaços de resistência.