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Trump III.


--> O Vítor Balenciano diz:

"Entendo e, até certo ponto, fico satisfeito com as manifestações catárticas anti-Trump que por aí vejo, mas mais uma vez fico com a estranha sensação que agora que muita gente encontrou um inimigo comum, haverá ainda menos espaço para pôr em causa o que realmente interessava interrogar e que nos levou a Trump: as últimas três ou quatro décadas de neoliberalismo desregulado, sem que qualquer movimento progressista suficientemente amplo conseguisse preencher o vazio do “não há alternativa”. É mais fácil diabolizar a figura de Trump que pôr em causa a nossa organização, estrutura e estilo de vida. Percebo o gesto de cerrar fileiras contra ele, mas estas manifestações dispersas e emocionais não valerão de muito se não formos capazes de, ao mesmo tempo, nos debruçar sobre a nossa responsabilidade no que está a acontecer, porque a verdade é esta: a lógica que levou a Trump, é exactamente a mesma que continua a presidir à nossa vida de todos os dias, por nossa única e exclusiva vontade."

Deste ponto de vista, concordo.

De resto, discordo porque:

Não é por nossa única e exclusiva vontade. Não posso viver de outra forma porque a alternativa é a exclusão (uma montanha, uma horta e algumas galinhas) e, no limite, a fome. Há sempre lugar para diferentes formas de desobediência e lutas, mas está tudo arquitectado de forma a não poderes fugir. A última estratégia das estruturas de poder estatal e privado é o Big Data. Já nem na montanha, sozinha, posso estar porque a vigilância é total. O importante é explorar novas formas de desobediência, não dizer que somos culpados pelo actual estado de coisas. Eu não tenho culpa que me oprimam. Tenho é que pensar em formas de evitar ou subverter essa opressão. Eu não voto nos partidos que dizem que mudariam tudo porque não acredito que o fizessem (também porque não dependeria deles, como vimos na Grécia, por exemplo). A única solução é desobedecer, sozinho, ou em grupo, a rir ou a partir. O maior problema das pessoas é a dificuldade de reconhecimento da opressão. As crenças nas narrativas da opressão. Se todos os ricos fossem ridicularizados, ninguém quereria ser rico. Como todos os ricos são bajulados, todos querem ser ricos. As pessoas contribuem para o sistema sobretudo porque precisam de sustentar-se e porque as opções de valorização que têm são muito limitadas. Valorizem-nas e ajudem-nas a libertar das normas legais e sociais, e das ideias que sedimentam a opressão, e não as culpem pelas amarras sociais e psicológicas, para as quais não têm ferramentas para se libertar.

Sobre a crença nas narrativas:

“A eleição do Trump tem múltiplas causas. E, de uma maneira geral, não devemos contentar-nos com uma única explicação. Se nós dissermos que são os homens brancos, economicamente desfavorecidos que votaram no Trump, e nos focarmos na causa da marginalização económica deles, esquecemo-nos que o racismo existe há muito tempo nos E.U.A, e o que poderíamos chamar de “cólera económica”, se conjugou com o ódio racial, para confluir nesta situação. A misoginia também não é deixada de lado, assim como o destino simbólico da masculinidade. O medo do “terrorismo” e o desejo de “segurança” estão igualmente presentes nos E.U.A., como na maioria dos países europeus, e são eles que fazem a cama do fascismo: no delírio utópico que o levou ao poder, Trump criará empregos, restaurará a segurança, reabilitará a masculinidade, subordinará as mulheres e trará a sua brancura à América." Judith Butler, no Libération.

E, mesmo que se acredite na democracia:

"Não nos podemos esquecer que ele ganhou apenas com 23% do voto popular, pelo que nunca será um legítimo representante do povo. Uma minoria de ódio chegou ao poder e provoca hoje uma crise democrática.” Judith Butler, no Libération.

Uma coisa deste género.


“Mas tais papéis de género são, segundo Butler, determinados pela sociedade. Desde o momento em que o médico declara “é uma menina”, é esperado que ajamos em conformidade com os nossos géneros.”