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Como cumprir ordens.

Estava declarada a guerra aos mendigos da cidade. As instruções eram claras: os polícias deviam expulsá-los das ruas prestigiadas.

Um polícia viu, ao longe, um mendigo deitado no chão. Ordenou-lhe que saísse dali. O mendigo não reagiu. Gritou-lhe. O mendigo não reagiu. Pontapeou-o. O mendigo não reagiu.

As pessoas começaram a juntar-se à volta dos dois.

O polícia, aflito, pensou: “Não pode estar morto. Posso fazer tudo menos matá-lo. É o meu fim.”

Já em desespero, levantou o cobertor do mendigo para ver se estava vivo.

Era um mendigo de plástico, colocado por uma célula de mendigos desobedientes.

Nunca mais a cidade parou de rir do polícia.

(Sobre o primeiro capítulo d´A violência e o escárnio, de Albert Cossery)

Vamos ao circo, meu amor.

"Heikal, porém, não era um ocioso; na verdade andava regularmente ocupado a desmontar o lado burlesco das acções humanas. Este mundo bobo agradava-lhe. Teria até sido muito infeliz apreendendo a mais ínfima parte da razoabilidade no que via ou ouvia em seu redor. Às vezes, ao ler uma notícia mais ou menos sensata, ficava logo enfadado. O permanente espectáculo da estúpida loucura dos homens deliciava-o; sentia-se como uma criança no circo, encarando assim a existência como uma coisa muitíssimo divertida."

Albert Cossery, in A violência e o escárnio.