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Do método.

Eles ficam irritados com o que eu escrevo. Ficam mais irritados com os meus textos do que com qualquer outra coisa, e creio que é por causa da maneira como eu escrevo - não o conteúdo, ou a tese. Dizem que eu não obedeço às regras habituais da retórica, de gramática, de demonstração, e de argumentação; mas, é claro, se eles simplesmente não estivessem interessados, não se irritariam.

Derrida, in Gramatologia.

Da imponência.

Não te julgues superior ou inferior, julga-te só quem és se souberes. Porque o inferior ou superior não são teus mas dos outros, ou seja, da tua humilhação perante eles.

Vergílio Ferreira, em Pensar.

Secretárias.

A educação é um feito admirável, mas de vez em quando convém não esquecer que não se ensina nada que valha a pena saber.

Oscar Wilde, em O Crítico como Artista.

Arder com as serpentinas.

Por volta de 1900, a ala radical da esquerda adoptou o cinismo senhorial da direita. A competição entre a consciência cínico-defensiva dos antigos detentores do poder e o cinismo utópico-defensivo dos novos gerou o drama político-moral do século XX. Na corrida à consciência mais dura dos factos duros, o Diabo e Belzebu acusavam-se mutuamente. Da concorrência das consciências nasceu o lusco-fusco característico dos tempos presentes - o mútuo espiar-se das ideologias, a assimilação dos contrários, a modernização da impostura -, em resumo, aquela situação que lançava a filosofia no vazio em que o mentiroso chama mentiroso ao mentiroso.
(...)
Depois da década da reconstrução e das décadas das utopias e das "alternativas", tudo se passa como se um elã ingénuo tivesse subitamente desaparecido. Temem-se catástrofes e novos valores têm grande procura, como os analgésicos. No entanto, a época é cínica e sabe que o é: os novos valores têm pernas curtas.
(...)
Uma cultura neopagã que não acredita na vida para além da morte, procura antes desta.
(...)
A velha social-democracia anunciara o slogan "saber é poder" como uma judiciosa receita prática. Pretendia-se afirmar que uma pessoa devia aprender qualquer coisa como deve ser, para mais tarde, vir a melhorar a sua situação. O dito era ditado por uma fé pequeno-burguesa na escola. Essa fé está hoje em decomposição. Só entre os nossos jovens médicos cínicos há uma linha clara que liga o curso ao nível de vida. Quase todos os outros vivem com o risco de aprender em vão.
(...)
Uma pessoa tem de começar por ter um vida melhor para depois poder vir a aprender qualquer coisa razoável. A socialização pela escolarização tal como se desenvolve no nosso país é o embrutecimento a priori.
(...)
No fundo, já ninguém acredita que a aprendizagem de hoje resolve os "problemas" de amanhã; é quase certo, pelo contrário, que os desencadeia.
(...)
Um sem-fim de serpentinas retóricas
(...)
Ser "racional" é inserir-se numa relação particular, raramente feliz, com o sensível. "Sê racional" significa praticamente isto: não te fies nos teus impulsos, não escutes o teu corpo, aprende a controlar-te - e começa por controlar a tua própria sensibilidade. No entanto, intelecto e sensibilidade são inseparáveis.
(...)
A neurose europeia encara a felicidade como objectivo e o esforço da razão como o caminho que a ela leva. Há que romper a sua coacção. (...) o objectivo é o deixar-andar mais ingénuo.
(...) chegar ao que interessa. É pelo exame dessa motivação que quero continuar. Uma mistura de cinismo, de sexismo, de "objectividade" e de psicologismo constitui o estado de alma da superstrutura do Ocidente.
(...)
Prometo não prometer nada, sobretudo novos valores.

Peter Sloterdijk, em Crítica da Razão Cínica.

Levar na cabeça.

“-Gosto muito de bater na cabeça das pessoas com uma certa força.
-Gosta?
-Sim, agrada-me. Dá-me prazer. Uma pessoa vai a passar e eu chamo-a: ó, desculpe, Vossa Excelência?!
(…)
-Ela aproxima-se e pergunta-me: o que pretende? E eu, com toda a educação e não querendo esconder nada, digo: gostava de bater com certa força na cabeça de Vossa Excelência. É isso que eu digo, apenas. Nem mais uma palavra.
(…)
-E o que acontece?
(…)
-O que acontece é isto (…) eles, sem excepção, passado esse momento de silêncio, respondem: ok.
(…)
-Sim, é surpreendente, no mínimo.
-E o que acontece depois? Sempre lhes bate com força na cabeça?
-Sim, bato.
-E eles?
-Ficam quietos até eu parar de lhes bater com força na cabeça.
-E depois?
-Depois vão-se embora.
-Vão-se embora?
-Sim, continuam o seu percurso.
(…)
-Sim. Uma vez tentei fazer isso no campo. (…).
-Começo a esfregar as mãos e a pensar: aí vem alguém a quem vou poder bater com uma certa força na cabeça (…).
- (…) E o camponês fica em silêncio durante alguns segundos, exactamente como os da cidade, e depois desse silêncio de reflexão responde (veja bem!): NÃO.
-Não?
-Exacto. NÃO. Não quer que eu lhe bata com certa força na cabeça.
-Isso é incrível.
-É. Por isso é que eu gosto mais de viver na cidade.
-Os camponeses são mais fechados, não é?
-Sim, muito mais."

O atraso do campo, Gonçalo M. Tavares, em O Torcicologologista, Excelência.

Vagabundos.

“Todos os que parecem suspeitos, hostis e perigosos para a boa burguesia”, disse Stirner, “podem ser reunidos sob o nome de “vagabundos”; todas as formas de vida vagabundas desagradam a burguesia. E também há vagabundos intelectuais, para quem a morada hereditária dos seus pais parece demasiado apertada e opressiva para que eles se possam contentar com o seu espaço restrito e, assim, procuram mais espaço e luz noutro sítio. Em vez de permanecerem enrolados na caverna da família, mexendo as cinzas da opinião moderada, em vez de aceitarem o que tem dado conforto e alívio para milhares de gerações como verdade irrefutável, ultrapassam todos os limites da tradição e correm selvagens com a sua crítica imprudente e com a sua indomável mania da dúvida. Esses vagabundos extravagantes formam a classe do instável, do inquieto, do volátil; e quando saem para dar voz à suas naturezas incertas, são chamados de indisciplinados, impetuosos, fanáticos..."

Renzo Novatore, parafraseando poeticamente Stirner.