Toda a gente já sentiu aquela chicotada no cérebro. No momento em que olhamos para ele ou para ela, o queixo cai-nos, os olhos saltam-nos das órbitas, a realidade suspende-se. Começamos a ver tudo de forma diferente. Sideramos. Eis o amor, a experiência natural mais pungente, hipnótica e extasiante do ser humano.
Inflamados, começamos a imaginar o outro e apaixonamo-nos pelo que é perfeito nele. Não é preciso que ele seja perfeito em tudo, mas tem que encarnar alguma forma de perfeição. A nossa personagem tem que ser superior aos outros, ultrapassar o resto da humanidade em alguma coisa. Apaixonamo-nos pela nossa imaginação. Por isso é que no "Banquete", de Platão, Sócrates diz que o “erro surge por se considerar que o amor é aquilo que se ama e não aquilo que ama”. Não cometer o erro significará, então, dizermos que o amor tem mais a ver com a forma como amamos do que com a pessoa que amamos. Ou, como diria Barthes, “é o amor que o sujeito ama, não o objecto”. Mas, se não é a pessoa que amamos mas o nosso estado de enamoramento, porque razão desejo aquela pessoa e não outra? Amamos quem queríamos ser, quem nos é útil ou quem nos satisfaz.
É por este motivo que há quem considere que toda esta história é uma grande facécia, que o amor é uma invenção bizarra que tem por objectivo sentimentalizar o instinto sexual. Ou seja, tal como os outros animais, o que procuramos é sempre sexo. E esse instinto cega-nos até conseguirmos satisfazer-nos . Mas, mesmo que o amor não seja mais do que uma ilusão, os sentimentos que desperta são reais. E, se ninguém deixa de dormir, comer e até se suicida por deixar de ter sexo, a que se deve a imensidão do desgosto amoroso?
Quando termina um amor, não é a pessoa que se perde. É o sentido da nossa existência. Claro que podíamos encontrá-lo de várias formas. Na contemplação, passando os dias na natureza, a reflectir, a aprofundar o pensamento. Na acção, prosseguindo uma causa, como a igualdade, a justiça ou a luta contra o racismo. Ou na diversão, na boémia, na transgressão. Mas não há nenhum que empilhe todos os sentidos da vida como a paixão. Ela é uma ideia, uma causa, que nos impele a contemplar, agir, cooperar, arder e andar à deriva. Absorve todos os sentidos, a vida toda. Deve ser por isso que o amor é o objectivo último de quase todas as aspirações humanas. E será também por isso que dá origem aos maiores sofrimentos. A violência da paixão é tal que serve de consolo para a maior dor da consciência humana: deixamos até de nos lembrar que um dia vamos morrer. Achamos que vamos ser felizes para sempre. Ou, como diria Cesare Pavese, nos seus diários, "Ninguém se mata pelo amor de uma mulher. Matamo-nos porque um amor, não importa qual, nos revela a nós mesmos na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado inerme, no nosso nada”.
E o que fazemos, então, quando a paixão acaba, seja porque deixamos de a sentir, seja porque o outro se foi embora?Como evitamos o sofrimento do amor?
Há quem preconize uma entrega desenfreada às relações sexuais para evitar os perigos de uma paixão única, e há quem apregoe a domesticação das pulsões carnais para nos defendermos das atrocidades do amor. Mas, seja para não corrermos o risco de substituirmos uma dependência emocional por uma dependência sexual, seja para não deixarmos de viver a experiência mais singular da vida humana, alcancemos a autonomia individual, a auto-suficiência emocional. Embriaguemo-nos também com arte, com ideias ou com festas. Viver ao contrário da natureza é remar contra a maré, mas procuremos a felicidade não só na busca do prazer também na lucidez, na independência relativamente a falsas necessidades e a preconceitos que criam frustrações. Em união ou em celibato, não expectemos a satisfação de todas as nossas necessidades no outro. Há pessoas que vivem acompanhadas e sentem uma profunda solidão e há celibatários que nunca se sentem sozinhos. Desprezemos os discursos falaciosos das servidões no amor. É que no início, durante e no fim, vestidos ou despidos, o inferno não é o outro, somos sempre nós.
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Metafísica do amor.
Para além da persecução do instinto sexual, a paixão é:
Suspensão da realidade e imaginação.
O sujeito apaixonado suspende-se da realidade.
Suspensão da realidade e imaginação.
O sujeito apaixonado suspende-se da realidade.
“Mundo siderado ou A-realidade: Sentimento de ausência, fuga da realidade experimentada pelo sujeito apaixonado face ao mundo.” Barthes.
Tudo o que rodeia o sujeito apaixonado altera o seu valor.
“O apaixonado separa-se então do mundo, irrealiza-o”.
“Perco também o real, mas nenhuma substituição imaginária vem compensar essa perda: (…) já não estou no Imaginário. Tudo está congelado, petrificado, imutável, isto é, insubstituível: o imaginário.” Barthes.
“Tudo não é mais do que ilusão no amor.” Rousseau.
Sentido de vida e expectativa de felicidade futura.
O ser apaixonado sente que encontrou o seu sentido de vida e que vai ser feliz para sempre.
“Investindo uma qualquer mulher de mil felicidades futuras, o homem vulgar pensa ter ao seu alcance, e sem demasiado esforço, o sentido da sua existência.” Lucrécio.
“Que coisa incrível isto de ver alguém em princípio sensato relacionar “a posse de uma determinada mulher à representação de uma felicidade infinita.” Schopenhauer.
“Diotima: - Pois o mesmo se dá com o amor: desejo do bem e da felicidade, em geral, eis no que para todos consiste o grande e astucioso Eros. Mas há muitos modos de dar satisfação ao amor e, entre eles, o de procurar a riqueza, o desporto, a filosofia, aos quais, todavia, não se aplicam correntemente os nomes de amante e amado; apenas a uma determinada espécie de amor e aos seus sequazes é que se dá o nome que de direito pertence ao gênero todo: amor, amar amante...” Platão.
Sentimento de imortalidade e consolo da alma.
A consciência da mortalidade é a maior dor da alma humana. O amor faz-nos sentir eternos. Apaixonados, nunca mais nos lembramos que vamos morrer.
“ (...) mas creio que é para alcançar um louvor imortal e uma fama semelhante a dos que acabei de citar [Alceste, Aquiles e Cordo], que os homens se sujeitam a todos os sacrifícios, e tanto mais voluntariamente quanto melhores forem, pois assim sendo tanto mais amam a imortalidade (208D)!” Diotima, no Banquete, Platão.
O amor é um “Sentimento consolador que parece oferecer aos homens uma compensação pelas dores muito concretas da condição humana.” Schopenhauer.
Tudo o que rodeia o sujeito apaixonado altera o seu valor.
“O apaixonado separa-se então do mundo, irrealiza-o”.
“Perco também o real, mas nenhuma substituição imaginária vem compensar essa perda: (…) já não estou no Imaginário. Tudo está congelado, petrificado, imutável, isto é, insubstituível: o imaginário.” Barthes.
“Tudo não é mais do que ilusão no amor.” Rousseau.
Sentido de vida e expectativa de felicidade futura.
O ser apaixonado sente que encontrou o seu sentido de vida e que vai ser feliz para sempre.
“Investindo uma qualquer mulher de mil felicidades futuras, o homem vulgar pensa ter ao seu alcance, e sem demasiado esforço, o sentido da sua existência.” Lucrécio.
“Que coisa incrível isto de ver alguém em princípio sensato relacionar “a posse de uma determinada mulher à representação de uma felicidade infinita.” Schopenhauer.
“Diotima: - Pois o mesmo se dá com o amor: desejo do bem e da felicidade, em geral, eis no que para todos consiste o grande e astucioso Eros. Mas há muitos modos de dar satisfação ao amor e, entre eles, o de procurar a riqueza, o desporto, a filosofia, aos quais, todavia, não se aplicam correntemente os nomes de amante e amado; apenas a uma determinada espécie de amor e aos seus sequazes é que se dá o nome que de direito pertence ao gênero todo: amor, amar amante...” Platão.
Sentimento de imortalidade e consolo da alma.
A consciência da mortalidade é a maior dor da alma humana. O amor faz-nos sentir eternos. Apaixonados, nunca mais nos lembramos que vamos morrer.
“ (...) mas creio que é para alcançar um louvor imortal e uma fama semelhante a dos que acabei de citar [Alceste, Aquiles e Cordo], que os homens se sujeitam a todos os sacrifícios, e tanto mais voluntariamente quanto melhores forem, pois assim sendo tanto mais amam a imortalidade (208D)!” Diotima, no Banquete, Platão.
O amor é um “Sentimento consolador que parece oferecer aos homens uma compensação pelas dores muito concretas da condição humana.” Schopenhauer.
A tal.
Em O Banquete, de Platão, Sócrates diz que o “erro surge por se considerar que o amor é aquilo que se ama e não aquilo que ama”.
Não cometer o erro significará, então, dizermos que o amor tem mais a ver com a forma como amamos do que com a pessoa que amamos.
Deve ser por isso que Barthes, nos seus Fragmentos, diz que “é o amor que o sujeito ama, não o objecto”.
Se não é a pessoa que amamos mas o nosso estado de enamoramento, porque razão desejo aquela pessoa e não outra?
Amamos quem queríamos ser, quem nos é útil ou quem nos satisfaz.
Ou, como responderia Stirner:
“O amor do egoísta brota do seu interesse pessoal, corre para o leito do interesse pessoal e desagua de novo no interesse pessoal.” Em O Único e a sua propriedade.
Não cometer o erro significará, então, dizermos que o amor tem mais a ver com a forma como amamos do que com a pessoa que amamos.
Deve ser por isso que Barthes, nos seus Fragmentos, diz que “é o amor que o sujeito ama, não o objecto”.
Se não é a pessoa que amamos mas o nosso estado de enamoramento, porque razão desejo aquela pessoa e não outra?
Amamos quem queríamos ser, quem nos é útil ou quem nos satisfaz.
Ou, como responderia Stirner:
“O amor do egoísta brota do seu interesse pessoal, corre para o leito do interesse pessoal e desagua de novo no interesse pessoal.” Em O Único e a sua propriedade.
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