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Sobre o esperneamento dos pungentes e exímios acumuladores de riqueza contra os impostos sobre as suas fortunas.

Caros colossais, pungentes e exímios acumuladores de riqueza,

Eu sei que vos custa aceitar mas, apesar das 10173 teorias sobre a multiplicação dos pães ou do capital:

OS RECURSOS NATURAIS SÃO LIMITADOS.

Mesmo que vocês inventem 7300 justificações para serem muito mais ricos do que os outros – ou porque são mais inteligentes, ou porque gerem melhor o dinheiro, ou porque têm melhores ideias de negócio, ou porque nasceram com tendência para ganhar dinheiro ou que foi uma bênção que obtiveram quando o papa veio a Fátima:

Se eu acumulo recursos, alguém deixa de os ter.

Só há uma terra.

A água pura está a acabar (e, ouvi dizer, a “purificada” com lixívia causa cancro).

Daqui a pouco não há ar puro para respirar (também já ouvi falar que a poluição é uma coisa complicada).

Logo, se eu exploro um recurso, alguém sofre as consequências dessa exploração.

Para produzir qualquer coisa, seja um bem físico ou intangível, é necessário, pelo menos, um recurso natural (uma máquina não é feita de ficção) ou um recurso humano (que também tem capacidades físicas e intelectuais limitadas).

E não me venham com as tretas da eficiência, que ela só significa sofisticação de estratégias para explorar mais os recursos humanos ou naturais, para obtenção de lucro, o que significa esgotar mais recursos, apesar de vocês acharem ou afirmarem que é multiplicação.

Por isso, assumam que são gananciosos. Que têm mais do que os outros porque querem ter mais do que os outros. E não inventem teorias sobre a luta contra a pobreza, porque a caridade é uma coisa nauseabunda, para disfarçar a acumulação da vossa riqueza.

Escudos humanos.

Olha que ideia fantabulástica tiveram agora: avaliar o desempenho dos trabalhadores no fim de cada telefonema (telecomunicações), visita (supermercados), prestação de serviços públicos (Centro de Emprego) ou privados (Uber). Dizem para escolhermos as opções entre zero e três, em que zero é nada satisfeito e três muito satisfeito, por exemplo. No meio há-de estar o mais ou menos satisfeito. Ou pedem-nos para seleccionarmos umas caras de uns bonecos, smiles, nas máquinas de pagamento, após a prestação do serviço. Se tivermos gostado do atendimento, seleccionamos as caras sorridentes. Se quisermos demonstrar a nossa insatisfação, clicamos nas caras muito tristes.

Isto é muito engraçado e até andam para aí umas pessoas muito contentes e a sentirem-se muito poderosas ou por poderem sancionar outras - Vê-lá-se-te-portas-bem-ou-dou-te-má-avaliação-e-levas-tau-tau-do-chefe – ou por impedirem os trabalhadores de boicotarem este sistema – Olha-que-eu-sou-muito-esperto-e-já-vi-que-andas-a-clicar-nos-bonecos-super-sorridentes-quando-as-pessoas-se-esquecem-de-te-avaliar. São todos muito espertos. Só ainda não perceberam qual é o objectivo desta geringonça.

Sempre que clicamos no boneco triste ou no boneco sorridente, estamos a avaliar o trabalhador e não a empresa. Assim, culpa-se o trabalhador pelo mau serviço e não a empresa que lhes paga mal, que tem más condições de trabalho, de venda, maus produtos, estruturas deficientes. As decisões são tomadas pelas chefias mas a avaliação e as sanções dirigem-se sempre ao trabalhador. Para além de pô-los a competir entre si, em benefício do empregador. Imagine-se que a empresa decide aumentar os preços. Como não é possível avaliar a empresa, apenas o trabalhador, quem acham que vai levar com o cartão vermelho?

E quando forem vocês? Vão fazer sorrisinhos de plástico, mesmo quando queriam arder com tudo, incluindo chefes e clientes, porque têm que pagar as contas, não é? E que tal deixarem de ser palermas e permitirem que os trabalhadores tenham só bonecos sorridentes, para, desta forma, impedirem os chefes de os culparem das decisões que só estes tomam?

Ou isso ou ponham-se a vigiar e a penalizar uns aos outros, enquanto nos usam como escudos humanos.

Tive algumas dificuldades, mas graças a Deus tudo acabou bem.*

É uma força interior que me aproxima destas causas. O que me move é o sofrimento de pessoas que estão a escassos quilómetros de nós, diz a Inês Patrocínio*. Fiquei emocionada e com algumas dúvidas.

O que quer ela dizer com “escassos quilómetros”?

Há pobres em Portugal?

Não é glamoroso tirar fotos a "ajudar" os pobres portugueses?

O que é que a Inês Patrocínio foi realmente fazer a África?

Quem foi o africano que ficou melhor depois da visita da Inês Patrocínio?

Quantos rebuçados deu a Inês Patrocínio às crianças africanas?

Será que já passou pela cabeça da Inês Patrocínio que os que os ocidentais fazem em África ou é colonização ou é turismo de pobreza?

Saberá, a Inês Patrocínio, o significado da palavra paternalismo?

Para que é que se tira uma fotografia destas?


Talvez a Barbie Savior saiba.


A pequena biografia no perfil já conta metade da história apenas com palavras-chave: "Jesus. Aventura. Um amor. Bebés. Beleza. Não qualificada. Convocada. Vinte anos de idade. Não é sobre mim... mas até é". Neste perfil de Instagram, vemos uma Barbie em África a fazer "selfies" entre ruínas, a aprender a dançar "como os nativos", a mostrar a sua nova tatuagem, feita uma semana após aterrar: o contorno do continente é acompanhado pelas palavras "Te Amo", que "significam 'amor' em africano". Criada por duas jovens de 20 anos, a conta Barbie Savior parodia, com muito humor, todos aqueles que decidem viajar para um país em desenvolvimento como voluntário, mas que, em vez de ajudar, tornam toda a experiência num acontecimento sobre si próprios. No fim de contas, satiriza o "white savior complex", termo que descreve os ocidentais brancos que se precipitam para países mais pobres para "salvar" pessoas, mas, muitas vezes, é apenas um exercício de auto-congratulação com um certo resquício de colonialismo à mistura. In P3

Quando o capitalismo "flirta" com o fascismo.*

Continuo a rir-me muito com o facto da Catarina Portas, de cognome "a empreendedora das andorinhas de louça e cabazes de 100€ com uma garrafa de vinho do Porto corrente, dois sabonetes e uma lata de atum”, proprietária das lojas com o conceito mais neo-fascista que conheço - vender produtos "artesanais" portugueses (a maioria é industrial mas com design retro, pelo que de artesanais devem ser, talvez, as embalagens), em formato “gourmet”, e a preços exorbitantes (que não são para pagar a mão-de-obra que os produz mas a ela e aos proprietários das grandes marcas que os fabricam), numa espécie de disneylândia saudosista do Portugal antigo - veio para uma revista cor-de-rosa dizer que, em certo sentido, é um “bocadinho” anarquista. “Estes produtos são nossos. Estes produtos somos nós.”, diz o manifesto da loja da senhora. Alguém que lhe explique que ninguém pertence ao "nós" dela, a não ser duas ou três marcas de loiça, lápis de grafite e de sabonetes cheios de perfume industrial que a Oprah adora oferecer no Natal. Tudo impossível de ser comprado por um português de ordenado médio. Mas com muito estilo, tã?

*

At home she's a tourist.

No Porto, há cada vez menos casas para portuenses. Todas as casas estão a ser restauradas de forma suficientemente burguesa para que nenhum portuense as consiga comprar ou arrendar. E o argumento é que o turismo traz dinheiro, desenvolve o comércio, e melhorará a vida dos portuenses. É simples: pões os portuenses a viver fora do Porto, porque não têm dinheiro para as casas turísticas; pões os portuenses a andar de Yellow Bus, porque os passes da STCP (aka andar de metro e autocarro para ir para o trabalho) estão cada vez mais caros; pões os portuenses a comer fora do Porto, porque não têm dinheiro para almoçar em restaurantes turísticos; pões os portuenses a tomar café em casa, porque não podem pagar cafés do Starbucks e dos cafés gourmet todos os dias; e depois dizes que estás a fazer isso para o bem deles. Deve ser é para o bem de meia dúzia de empresários, que realmente são portuenses. Só que não é para OS portuenses. E não me venham com o argumento que essas novas empresas trazem emprego, o que é verdade mas esconde um facto importante: os mesmos trabalhadores que estão empregados nessas casas, cafés, comércio e restaurantes turísticos, estariam a trabalhar em casas, cafés, comércio e restaurantes para pessoas que vivem cá. E isto não é uma questão de nacionalismo ou regionalismo. É a recusa da lógica economicista de selecção de pessoas, camuflada de lógica benfeitora. Os portuenses têm direito a viver na cidade deles, sem serem empurrados para as periferias porque não dão a ganhar tanto dinheiro como os turistas, que ganham mais nas terras deles, vai-se lá saber porquê. Se calhar tem alguma coisa a ver com isto.

Ideias: quem dá menos?

Queria muito participar neste concurso. 2.000€ davam-me jeito para pintar a casa e comprar umas botas novas. Para saber o que é uma dissertação de mestrado “assente num tema de inovação e do empreendedorismo”, fui ao dicionário.

Inovação: Introduzir novidades em. Renovar; inventar; criar.

Empreendedorismo: Atitude de quem, por iniciativa própria, realiza acções ou idealiza novos métodos com o objectivo de desenvolver e dinamizar serviços, produtos ou quaisquer actividades de organização e administração.

“O conteúdo, a forma e o método das dissertações são alguns dos requisitos, a par da originalidade da investigação, a aplicabilidade dos resultados e o potencial de difusão dos resultados a nível nacional e internacional.”

Mas, afinal, é para escrever sobre o quê? Este pessoal quer que eu lhe venda a minha tese mas não faz a mínima ideia do que quer comprar. O título devia ser “Mandem-me as vossas teses que eu pago aquela que tiver a ideia que me vai dar mais dinheiro a ganhar” ou, em linguagem pós-moderno-empreendedora “Façam um forcing para terem ideias que acrescem valor”, ao meu bolso. “As contas são fáceis. Se concorrerem 100 cromos, gasto 2.000€ em 100 ideias, que é o mesmo que dizer 20€ por cada ideia. A isto é que se chama alavancagem! Estes gajos estão tão mal de dinheiro que me oferecem as teses com uma probabilidade mínima de ganharem 2.000€, um estagiozeco de 6 a 9 meses e uma “presença” num evento. Ahahah.”

Sobre os despedimentos dos jornalistas do Sol e do I.

Anda para aí muita gente a dizer que os jornais Sol e I vão despedir uma catrefada de jornalistas porque as pessoas não compram jornais, porque as pessoas não pagam pelas notícias digitais, porque as pessoas se demitiram da sua função democrática, porque as pessoas não querem saber das coisas importantes e porque o que vende é futebol e fado. Mas a questão não é as pessoas não pagarem, mas porque razão não estão dispostas a fazê-lo. O problema é que as notícias que os jornais de hoje produzem não interessam a ninguém. Se os directores dos jornais obrigam os jornalistas a escrever sobre o que faz 1% da população, constituído pelos políticos e pelas pessoas que têm poder financeiro ou outro, como é que esperam que os restantes 99% comprem estas notícias que não lhes dizem nada? Se eu acho que os políticos não resolvem os meus problemas, por que haverei de ler notícias sobre o que eles andam a fazer? Por que é que os jornais portugueses não falam sobre a vida das pessoas? E não são as notícias dos lifestyles, os acidentes de carro, e as comidas gourmet, que, como se compreende, ainda vendem. É que as pessoas continuam a vestir-se, a terem que transportar-se e a comer. Mas a cultura que estes jornais falam é a “grande cultura”, a política é “a grande política”, as empresas são “as grandes empresas”. Se é para essa gente que falam, esperem que seja essa gente a comprar-vos os jornais, e não a restante população que nunca aparece em lado nenhum e cujos verdadeiros problemas são silenciados. O que é realmente preocupante é que estes jornalistas ficaram desempregados porque esta gente, que escolhe sobre o que eles podem falar, e que destaques podem dar, não sabe o que anda a fazer. Façam jornais locais, jornais temáticos, jornais de especialidade, o que vocês quiserem. Falem para e sobre as pessoas que querem que vos compre os jornais. Tudo, menos isto, que, como se tem verificado, não está a correr lá muito bem.

Mosquitos em Roma.

Elas ainda gastam mais do dobro do tempo em tarefas domésticas do que eles, diz o Público de hoje. "Desigualdade de género? Ó Fabiana, só vês mosquitos em Roma, andas um bocado tapada com isso, vês tudo com o filtro da opressão." Vejo, vejo.


Para isto, há apenas uma resposta, desobedecer. 


Quem tiver tempo, ainda pode ver um videozinho e ouvir uma musiquinha.

Atentados em Paris.

É o que dá ficar-se cego pelo poder e pelas ideias. Matam-se uns aos outros. O ocidente (aka E.U.A e companhia) tenta colonizar o médio oriente. O oriente colonizado, que também costuma matar os próprios cidadãos, entra em guerra de guerrilha com o ocidente. Deviam ter visto a vossa terra ser bombardeada do nada, a vossa mãe, os vossos filhos e os vossos amigos a morrer na guerra para "levar a democracia ao médio oriente", a ver se não vos punham na cabeça que a solução era explodir com tudo. Ontem, foram 200. Anteontem, foram milhares. Todos inocentes, nas mãos de meia dúzia. Esses, que continuam a acumular riqueza com estas guerras, é que nunca explodem.

Nem saúde, nem tempo, nem dinheiro.

"Obesidade, depressão, consumo de medicamentos e doenças crónicas como a hipertensão, as dores lombares ou as alergias. As mulheres portuguesas estão 'à frente' em quase todos os indicadores de problemas de saúde."

As mulheres portuguesas estão mais doentes do que os homens porque fazem trabalho que não é delas. Ir ao supermercado, cozinhar, lavar, passar, limpar, roupa, chão e casas de banho. A dobrar, do marido, e a triplicar ou quadruplicar, dos filhos. Mais o emprego. Esgotadas, deprimidas, ansiosas por causa da exaustão, tomam comprimidos para aguentar aquilo que nunca deveriam sujeitar-se a fazer. Isso sem contar com o facto de terem que estar bonitas e com muita vontade de fazer sexo.

Depois, não me venham atirar areia para os olhos e dizer que o machismo não existe em Portugal, que vejo tudo com o filtro da opressão, e blá blá blá. Ide comprar e fazer a vossa comida e lavar a vossa roupa.

Como cumprir ordens III.

No outro dia, estacionei o carro num parque de estacionamento de uma escola, ao lado do trabalho. Tinha sempre mais de metade dos lugares vazios, pelo que tomei a liberdade de deduzir que um lugar ocupado não faria qualquer diferença. Quando já pensava que finalmente tinha encontrado um lugar de estacionamento nesta cidade, eis que surge o porteiro da escola.

- Ó menina, este parque é reservado aos docentes da escola.

-Compreendo. Mas venho aqui todos os dias e tem sempre mais de metade dos lugares desocupados. Como não há lugares lá fora, e aqui há muitos vazios, pensei que não haveria problema de estacionar.

- Mas há. Não pode estacionar aqui.

- Porquê?

- Porque são ordens que tenho.

- De quem?

- Já lhe disse. São ordens.

- O senhor é o responsável pela gestão do parque de estacionamento?

- Não. Mas não pode estacionar aí.

-Mandaram-lhe dizer-me para tirar o carro?

-Não. Eu é que a vi a estacionar e sei que não pode estacionar.

-Mas que diferença lhe faz que estacione aqui?

-Já lhe disse que são ordens.

- Olhe, tem o parque de estacionamento vazio, ninguém o mandou vir obrigar-me a tirar o carro. O senhor tem necessidade de mandar em alguém, de sentir o poder, é isso?

-Já lhe disse que são ordens.

- Olhe, os nazis também mataram os judeus porque estavam a cumprir ordens.

-Está a chamar-me nazi?

- Não, não. Foi só uma analogia. Mas, digo-lhe, tem imenso jeito para PIDE.

PIDE humanitária ou Também é assim que se faz para o resto.

Sobre isto:


Controlar o que as pessoas dizem, independentemente do conteúdo, nunca ajudou à resolução de nenhum problema social. Silenciar é impossibilitar o confronto e é só nele, na antinomia, que se descobrem novas formas de pensar. Tu dizes o que pensas, eu argumento contra, criamos uma nova perspectiva, que incorpora as duas. O que este aplicativo faz é calar os racistas, sexistas, e outros istas, o que só fará com que eles criem formas mais sofisticadas e perigosas de exorcizar os seus preconceitos. Tapas a panela, a água ferve mais. Além do facto de isto ser uma desculpa para controlar o que todos dizem, e não apenas aquilo que é considerado, por alguns, como ofensivo. As elites financeiras terão aplicações para silenciar os que são contra elas, as elites religiosas terão aplicativos para silenciar os hereges, as elites estatais terão aplicativos para silenciar quem diz mal do governo, e por aí fora. O problema é que o cidadão comum, que, por acaso, constitui a maioria da população, é o único que não tem possibilidade de criar aplicações que silenciem as empresas, o governo, a igreja e quaisquer outras instituições que pretendam decidir sobre o que têm a dizer.

Aqui, só morre à fome quem não tem comida.

Acabei de ler isto ao meu colega de trabalho, que me respondeu, no seu habitual sorriso humorístico: “Depois, diz que queres ter amigos”. Mas aqui vai na mesma. Daqui a meia dúzia de anos, sou eu que estou debaixo da terra e, se não tiver dito o que penso, não terei servido para nada.

Quantos de nós estaríamos dispostos a morrer por uma causa?, pergunta a Patrícia Fonseca. Eu é que não, repondo. Se o senhor se quer suicidar, é lá com ele. Mas isso não servirá para causa nenhuma, como todos sabemos. Vão andar aí no Facebook a partilhar coisas muito apaixonadas durante dois dias e, depois, nunca mais ninguém se lembra dele.

Isto faz-me lembrar uma passagem d´A violência e o escárnio, do Cossery.

“-Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal. O resto não tem importância.

(…)

-A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.

-Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?

-A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.”

Façamos a apologia da desobediência sem sacrifício. Os espaços insubmissos devem ser alegres, de escárnio e dos prazeres da vida. A mudança do sistema nunca será feita por quem retira vantagens dele, mas resistindo e ajudando à criação dos sítios alternativos onde queremos estar. Viver num mundo à parte não é autismo, é viver mais num mundo criado por nós, e menos no criado por eles. Alimentemos os nossos espaços e os discursos que rejeitam a violência do consenso do discurso dominante. Discursos esses que não precisam, nem devem, ser tristes. Parodiar, rir, descredibilizar, também é desobedecer.

Eu sei que o senhor tem todo o direito de morrer pela causa que quiser. Por mim, estava a escrever e a tocar músicas de intervenção, dentro ou fora da prisão, que inspirassem umas cabeças redondas. É que andar com o mundo às costas é um desperdício de energia que não tem qualquer efeito prático, a não ser dores na coluna.

Viciados em evidências.

O trânsito está parado na A1 e tenho uma fila gigantesca à minha frente. A rádio não pára de falar das novas descobertas científicas. É o café que agora faz bem e depois já faz mal, é dormir que hoje é bom para a saúde mas a descoberta de ontem disse que não, é a cerveja que diminui a probabilidade das mulheres virem a ter acidentes cardiovasculares cerebrais, mas aos homens não faz diferença. Há descobertas científicas para o menino e para a menina, para todos gostos e feitios. Provar que os homens brancos europeus fazem palavras cruzadas mais rapidamente do que as mulheres africanas é uma evidência que se pode provar cientificamente. O problema é que isso é o mesmo que provar que há fome em África. O mais perigoso desta suposta legitimação científica de tudo e mais alguma coisa é confundir mais do que permitir a compreensão, o que é muito útil para se vender produtos e aplicar-se medidas políticas duvidosas. Por isso é que as estatísticas, as evidências, os dados, por si, sem pensamento, sem teoria, sem narrativa, não só não servem para nada como podem ser altamente perniciosos. Duvide-se de tudo. Mesmo que a dúvida não possa ser comprovada cientificamente.

Sobre o declínio do jornalismo político.

A cobertura política tem sido criticada por reforçar aquilo que tem sido conhecido como “a espiral do cinismo”: pelo seu estilo de jornalismo negativo e pela sua abordagem cínica, os jornalistas têm sido acusados de fazerem decrescer os níveis de confiança no governo, da mesma forma que aumentam o cinismo político dos leitores e espectadores. Estes críticos afirmam que os jornalistas espalham uma visão cínica da política e que a sua relação com os políticos é caracterizada pela desconfiança e pelo hiper-adversalismo.
Habitualmente, o primeiro passo para estudar a interacção entre os jornalistas e os políticos é analisar as relações entrelaçadas entre os média e a política. Mas talvez seja mais interessante começarmos a dar ênfase a factores que não seguem a tradição política ou a abordagem económicas. Vários estudos encontraram grandes diferenças entre os jornalistas do norte e do sul da Europa, por exemplo. Os do sul são habitualmente mais cínicos do que os jornalistas do norte. Outros apontam a pressão política como um dos principais factores para o aumento do cinismo no jornalismo político, o que parece fazer mais sentido. Assim, o jornalista estará desacreditado da política na razão directa da pressão que os políticos exercem sobre o seu trabalho. Para além disso, será interessante pensarmos nas potenciais consequências negativas da profissionalização da sua relação com os jornalistas políticos, como com os spin doctors, por exemplo, e nas disparidades culturais e demográficas, que podem influenciar a forma como os jornalistas desempenham as suas funções. Por outro lado, podemos ainda pensar no declínio do consumo de notícias deste foro como produto de uma descrença no sistema democrático. Não será o declínio do jornalismo político um sintoma do falhanço da democracia na supressão das necessidades básicas dos cidadãos? Se eu acho que os políticos não resolvem os meus problemas, por que haverei de ler notícias sobre o que eles andam a fazer? 
Urge, pois, compreender o jornalismo político de uma perspectiva holística, cujos comportamentos brotam de um cruzamento de factores que não se restringem apenas às esferas políticas e mediáticas, que é o mesmo que dizer que devemos desconfiar dos que acusam os jornalistas de serem a razão do aumento do cinismo no exercício da sua profissão, e da consequente demissão democrática dos cidadãos. Para compreender o declínio do jornalismo político, talvez seja mais interessante estudar a forma como as populações vivem, e a estrutura da participação política delas, do que andar a apanhar o mexilhão.

Comida pós-moderna III.


“O mais importante para a saúde de uma pessoa não é necessariamente se ela consome ou não os nutrientes bons ou maus, nem as calorias que consome. Mais do que qualquer outra coisa, o que dita uma dieta saudável é o facto de aquilo que se come ter sido cozinhado em casa e não numa empresa. As empresas cozinham de uma forma muito diferente das pessoas. Usam vastas quantidades de sal, gordura e açúcar, muito mais do que nós usaríamos alguma vez em casa. E a razão pela qual elas o fazem reside no facto destes ingredientes serem incrivelmente atractivos e baratos e, quando colocados numa batata, por exemplo, ou em bolos, e várias outras formas de junk food, são incrivelmente viciantes.”

Comida pós-moderna II.

Comida pós-moderna.

Comer comida é um dos maiores desafios dos seres humanos do século XXI. Os peixes comem plantas, ovos de peixes, peixes mais pequenos, pequenos crustáceos e restos de alimentos que encontram na água. Os répteis alimentam-se de flores, ovos, algas e outros animais. Os mamíferos selvagens comem ervas, vegetais, cereais, frutos e sementes. Nós precisamos de tirar um mestrado em ciências da nutrição para sabermos o que comer.

Todos os dias, chegam milhares de novos produtos aos supermercados que se esforçam por convencer-nos que são comida, quando realmente são um amontoado de ingredientes altamente processados que a nossa bisavó não faria a mínima ideia do que se trataria. Sulfato de amoníaco e glutamato monossódico são coisas que se comem? Parece que sim. Toda a gente já os trouxe do supermercado, no pão embalado, nos iogurtes gregos ou nas bolachas para bebés. São aditivos químicos usados para intensificar o sabor dos alimentos, conservá-los e dar-lhes cor e aromas apelativos, ou seja, todas as características que um alimento fresco e não tratado tem, naturalmente.

Outra característica fora do padrão clássico alimentar é a obsessão pelas propriedades dos alimentos que supostamente vão-resolver-todos-os-problemas-da-sua-vida. São os fitoesteróis do creme vegetal que vão acabar com o seu colesterol, é a vitamina B6 dos mini-iogurtes que vão protegê-lo contra todas as gripes e constipações e os sumos recheados de antioxidantes que vão mantê-lo jovem para sempre.

Então, aqui vai a pergunta que se torna praticamente inevitável diante das longas prateleiras dos supermercados apinhadas de alimentos processados: Porquê?

Bem, vender legumes frescos que apodrecem numa semana, arroz que ganha bicho e pão tosco que ganha bolor rende muito menos dinheiro. Já pensou como é um quilo de batatas pré-fritas congeladas é mais barato do que um vulgar quilo de batatas que nem descascadas estão?

É claro que os alimentos altamente processados, cheios de aditivos químicos e desprovidos da maior parte dos seus nutrientes naturais, têm uma data de validade radicalmente mais longa do que os alimentos frescos. Processo e embalo hoje, vendo durante um ano.

O problema é que os alimentos processados aumentam a probabilidade de virmos a sofrer de diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e cancro, coisa que o material promocional destes alimentos nunca refere, tal como as relações públicas da indústria da saúde não falam dos estudos que afirmam que a maior parte destas doenças pode ser revertida através da alimentação. Saber que para ser saudável basta comer vegetais frescos, alimentos inteiros e ler os ingredientes das embalagens para evitar aqueles que não conseguimos imaginar no seu estado natural, não é nada fascinante. Nem vende medicamentos.

 Para todos os efeitos, toda a gente sabe o que deve comer. No entanto, na alimentação pós-moderna, a confusão paira e, para tornar a nossa vida muito mais fácil e deslumbrante, temos os especialistas em nutrição que descobrem coisas sensacionais e explicam o que devemos comer. Temos a indústria alimentar que refaz e publicita os seus produtos de acordo com as novas descobertas. E a comunicação social que tem sempre grandes novidades sobre nutrição e saúde para escrever. Todos ganham, menos quem tem de comer.

O empreendedor e a personalidade autoritária.

Nada de novo nesta notícia de ontem. 25 portugueses mais ricos reúnem 8,5% da riqueza nacional. Os três mais ricos são Américo Amorim, Alexandre Soares dos Santos e Belmiro de Azevedo Isto faz-me lembrar um texto que escrevi sobre uma entrevista que ASS deu ao Público.


Nela, Alexandre Soares dos Santos tende a idealizar o sistema alemão. “Dou valor à união nacional — “Temos que recuperar a Alemanha. Em Portugal, [apesar das] grandes dificuldades, não conseguimos fazer um governo de união nacional em que sindicatos, empresários, partidos políticos tenham um programa em que valha a pena pensar: “Vamos fazer isto.”, em detrimento do sistema português, que, segundo ele, não está suficientemente unido para “aumentar a produção”. A mensagem subliminar que Soares dos Santos passa é que, independentemente das dificuldades que os cidadãos e cidadãs portuguesas sofram, o importante é o aumento da produção, deixando por explicar para que efectivamente serve o resultado dessa produção. A “união nacional” “entre partidos, pessoas com ideologias ou credos diferentes”, servirá essa ideia abstracta de “bem comum”, que será mais um silenciamento das minorias desfavorecidas, em favor de uma abstracção que, no limite, poderia afirmar algo como “temos que passar fome para alcançarmos o bem comum”.

“Temos de fazer um esforço de aumentar a produção. Que precisamos de investimento, todos sabemos. Mas onde é que está o dinheiro? Quem é que nos empresta? Ninguém. Estourámo-lo.” Nesta frase Soares dos Santos responsabiliza um conjunto não identificável de pessoas irresponsáveis, que gastaram mais do que deviam. Mas, tal como podemos verificar no estudo de Adorno sobre “A personalidade autoritária”, o objecto de representações preconceituosas (que, neste caso, são os gastadores e as pessoas que não produzem) pode ser qualquer um, já que ele cumpre uma função psicológica na economia psíquica do sujeito preconceituoso, pelo que as particularidades do grupo alvo de preconceito são menos importantes do que as do sujeito preconceituoso.

Tal como os pastores evangélicos alvo de estudo pela escola de Frankfurt, Soares dos Santos utiliza as mesmas técnicas da psicologia que incluíam, em primeiro lugar, representar o líder como um pequeno grande homem. Apesar de pertencer a uma família que “vivia bem”, cujo pai “vivia muito bem” e o “avô tinha dinheiro”, tendo estudado num colégio, tido como colega de carteira Francisco Sá Carneiro, que simboliza o acesso privilegiado a uma rede de contactos de elite, e aprendido inglês e alemão no estrangeiro, Alexandre expõe visceralmente as dificuldades que passou “Vim a Portugal casar-me, dois dias depois parti. A minha mulher saiu de uma moradia para um quarto. Eu pagava para tomar banho todos os dias. (…) Vivia num quarto de uma casa de uma senhora. Nunca tive uma conversa com ela. Era bom dia, boa tarde, acabou.”, demonstrando que, apesar de ser um pequeno homem igual a tantos outros portugueses, é um grande homem porque conseguiu ultrapassar todas essas dificuldades e tornar-se no mais rico de Portugal. Ou, como afirma nesta entrevista, sobre a sua ambição: “Eu não quero ser mais um. Eu quero ser um.” Em segundo lugar, tal como no discurso autoritário dos fascismos, vem a representação dos alvos das suas enunciações como inimigos ocultados e protegidos pela democracia. Neste caso, o alvo são as pessoas que não prosseguem o interesse capitalista de “aumento de produção”. Esse é o grande objectivo e todos aqueles que não o seguem são alvos a abater, especialmente porque são protegidos pelas instituições democráticas. Em terceiro lugar, a lógica de perseguição das pessoas que beneficiam de apoios sociais, as associações que reivindicam os direitos, os indisciplinados , entre outros. Por último, nomear os inimigos: a política e os sindicatos: “defendo que o empresário não tem de se meter em política. (…) não gosto de sindicatos. (…) que antes deveriam ser “comissões de trabalhadores”, que colaborassem com o sistema idealizado por Alexandre.

Um dos maiores perigos do discurso do empreendedorismo é a afirmação que todos e todas são iguais perante a lei e que, por isso, todos e todas têm a oportunidade de “vencer na vida”, nas palavras de Alexandre Soares dos Santos, se formos esforçados e disciplinados. A ideia de que qualquer pessoa, independentemente da sua classe social, género, etnia ou outros constrangimentos, pode tornar-se no “homem mais rico de Portugal” é injusta e extremamente perniciosa. Essa “igualdade” de condições não é mais do que uma falácia por parte de quem deseja perpetuar os seus privilégios, ignorando a existência de desigualdades sociais.

Uma coisa parece evidente: as tendências anti-democráticas e fascizantes estão presentes no discurso capitalista. As falsas justificações racionais para atitudes e discursos irracionais, a idealização do líder, o pequeno grande homem e a identificação dos inimigos do povo, são elementos psicológicos comuns ao costume fascista. Mas não só. Tal como na acção política de ontem, as grandes corporações económicas e os seus donos influenciam, directamente, a vida dos cidadãos, e exercem uma constante pressão para dominar ou fazer desaparecer algumas das mais importantes estruturas que os protegem.