Apanho a segunda onda.


A ideia da terceira vaga, de utilizar a “feminilidade” para manipular os homens, parece-se demasiado com a serpente que seduz as vítimas masculinas. Sou mulher branca, ocidental, vivo numa sociedade capitalista, etc., e, naturalmente, incorporo as características desses sistemas. Calço saltos altos por causa disso. Sinto-me mais sexy de saltos altos porque vivo aqui, porque incorporei a ideia híper-sexualizada-masculino-hegemónica do que é ser sexy. Se vivesse numa tribo, pintava o corpo de amarelo. Se o faço, inconscientemente, para manipular os homens, não sei. Acho que é mais um jogo de sedução que incorpora as características da dominação do que algo premeditado. Não sei, não sei.

Mas se fosse para escolher entre a ideia de auto-empoderamento da Beatrix, a apologia da mulher autónoma e forte que assume que não precisa de um homem para nada, ainda que não negue, e tenha prazer em, claro, relacionar-se com ele, e a imagem da Fabienne, sensível, com ar frágil, mas que não precisa de impor-se para fazer o que lhe apetece, fá-lo à revelia da vontade do homem, ignorando-o, eu escolheria a Beatrix.

Outra coisa do mesmo género.


"Pero que lo terminam vendendo solo esteriotipos."

We try to make sense of it.


“Phenomena – It’s all around us.

Phenomena – It’s everywhere.”

Uma coisa deste género.


“Mas tais papéis de género são, segundo Butler, determinados pela sociedade. Desde o momento em que o médico declara “é uma menina”, é esperado que ajamos em conformidade com os nossos géneros.”

Isto só serve para compor a geração futura?

Se, como afirma Schopenhauer, o amor é uma invenção bizarra que tem por objectivo sentimentalizar o instinto sexual, a que se deve a imensidão do desgosto amoroso?

A lógica política.

Se a lógica do mercado se funda na suposta racionalidade do ser humano, então, podemos afirmar que o amor é a sua transgressão máxima.

Talvez seja por isso que o capitalismo tenha reduzido o amor ao sexo e a igreja o tenha disciplinado com o casamento.

Não se consegue controlar apaixonados, bêbados e drogados.

Ninguém é tão irracional como quando ama.

A lógica do caos.


                            Banda sonora

Não há almoços grátis.

Lucrécio dizia que devemos entregar-nos às relações sexuais desenfreadas para evitarmos os perigos de uma paixão única. O problema é que ao fugir da dependência emocional, fica-se com uma dependência sexual incontrolável.

Agora Deus é a saúde ou Só dão às pernas.

Estou a adorar esta onda dos runnings e dos spinnings à noite. Eu sei que toda a gente precisa de um sentido de vida mas encontrá-lo a correr imenso e a vestir roupas néon nas horas livres é muito louco. E nem se fala quando vêm com as ideias higienistas e eugénicas: “Mas tu não fazes nada? Não te mexes?” ou “Eu sou superior a ti porque sou limpinho, magrinho e super dinâmico.” O problema é quando o dinamismo é só nas pernas.

“Desse isolamento doentio, do deserto desses anos de experimento, é ainda longo o caminho até a enorme e transbordante certeza e saúde, que não pode dispensar a própria doença como meio e anzol para o conhecimento, até a madura liberdade do espírito, que é também auto-domínio e disciplina do coração e permite o acesso a modos de pensar numerosos e contrários — até a amplidão e refinamento interior que vem da abundância […] até o excesso de forças plásticas, curativas, reconstrutoras e restauradoras, que é precisamente a marca da grande saúde.” Nietzsche, Humano Demasiado Humano, Prólogo/4.

Périplo.

    Filósofos e o amor, Aude Lancelin & Marie Lemonnier.

Glamour.

   Masculin Féminin, Godard.
     
                                              Banda sonora

Stranded.

 Malèna, Giuseppe Tornatore.

                                                                      Banda sonora

Caminhada.

Caminhada, Thoreau.

                                                                              

E lucevan le stelle.

    Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes.

                                                                    Banda sonora

Monster.

Filósofos e o amor, Aude Lancelin & Marie Lemonnier.

                                                                      Banda sonora

Take me.


                                                                     Banda sonora

Pulp Fiction, Tarantino.

                                                                       Banda sonora

Do corpo.


Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes.

Film.

Weekend, Godard.

                                                                     Banda sonora

The astral plane.

Filósofos e o amor, Aude Lancelin & Marie Lemonnier.

Sleeper, Woody Allen.



Filósofos e o amor, Aude Lancelin & Marie Lemonnier.

Ça va de soi.

Kill Bill, Tarantino.



                                                                   


                       Banda sonora

Se o remédio é abrandar, por que continuamos a correr?

Um espectro atravessa os novos tempos, o da exaustão. Vivemos a violência do excesso: de informações, estímulos e impulsos. Nunca paramos. Estamos sempre a produzir, a render, a comunicar. Corremos como gazelas mesmo sentados. E se em algum momento surgir um tempo vazio, corremos a ocupá-lo. A violência da sociedade actual já não é só disciplinar, também é neuronal.

Passamos de criar loucos e criminosos para conceber esgotados, frustrados e deprimidos. As doenças paradigmáticas da nossa época, como o transtorno por défice de atenção e hiperactividade, o transtorno de personalidade "borderline" ou o síndroma de "burnout" não têm origem num vírus, na alteridade. O inimigo fundiu-se em nós, está no próprio sistema. A doença nasce no corpo sobreaquecido, e alastra-se como metástases, minando silenciosamente as nossas almas. E a pergunta impõe-se. Se a exaustão nasce do excesso, e dá origem a uma autoagressão apática e progressiva, por que é que não diminuímos, retiramos, cessámos? Se o remédio é abrandar, porque continuamos a correr?

Primeiro, estamos sobreocupados porque há uma pressão constante para um maior rendimento. O objectivo da sociedade actual é claro: o ser humano é uma máquina que tem que maximizar a sua produção e funcionar sem falhas e interrupções. É por este motivo que há cada vez mais medicamentos para aumentar as capacidades físicas e intelectuais, que nos permitam continuar mesmo quando já ultrapassamos os nossos limites. Ou a razão do aumento do consumo de drogas para entretenimento. Esgotados, deixamos de ter a capacidade de nos divertir, enfraquecemos, separamo-nos.

Depois porque, na era moderna, sem crenças, sem convicções e isolados, sem nada que nos garanta duração ou estabilidade, precisamos a todo o custo encontrar um sentido de vida. A ocupação constante é uma tentativa de esquecimento da nossa finitude. Alienamo-nos voluntariamente para vestir esta vida nua. Mas vesti-la desta forma não só não nos tira o frio, como está a tornar-nos angustiados, frustrados, deprimidos.

O ser demasiado ocupado é um ser automatizado. A hiperactividade não é mais do que um sintoma de esgotamento nervoso que resulta numa hiperpassividade. Quando estamos exaustos, deixamos de conseguir resistir aos estímulos. Ficamos diminuídos das nossas capacidades. Não tomamos decisões livres. Fazemos tudo por impulso, não porque escolhemos fazer. A máquina não consegue deter-se. Ou, como diria Nietzsche, “tal como uma pedra, o homem activo rebola ao sabor da estupidez mecânica.” E o frenesim apenas acelera o que já existe. Não gera nada de novo. Só a contemplação do descanso permite o pensamento, a criação.

Talvez seja por isto que Pascal dizia que “toda a infelicidade dos homens vem de uma só coisa, que é não saberem ficar quietos dentro de um quarto” ou que o último filme de Godard termine com Roxy, um cão que passeia, brinca e dorme sestas no sofá, num Adeus à linguagem. O não-fazer, o descanso profundo, o tempo sem tempo, proporciona-nos uma serenidade especial. Descansados, rejuvenescemos, gostamos mais dos outros. As coisas começam a reluzir, a bruxulear. Neste mundo frenético, de uma imensa necessidade de paz, urge, pois, parar, interromper, descansar.

Roxy.

Adieu au langage, Godard.

"Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender ... 

O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... "

Alberto Caeiro,"O Guardador de Rebanhos - Poema II"

Adieu au langage, Godard.