Banalidade do mal.

À saída do documentário sobre a Hannah Arendt:

- Não sei como é que ela teve coragem de dizer que aqueles Nazis não eram monstros mentalmente doentes mas apenas burocratas vazios de pensamento que desejavam ascender profissionalmente. Eles sabiam que estavam a matar seres humanos em série!

- Não sei como é que tens coragem de andar com roupas e telemóveis feitos por crianças em condições desumanas só para exibicionismo social. Tu sabes que estás a escravizar seres humanos em série!

- E alguns alemães ainda podiam ter a desculpa de não poderem desertar, com medo da morte. A tua, qual é?

Trabalhadores modernos.

Estes trabalhadores modernos são muito estranhos. Têm raiva, como os antigos mas, em vez de se virarem contra aquilo e aqueles que os oprimem, atiram-se uns aos outros. Insultam-se, pregam-se rasteiras, mal tratam-se. Depois, vão aos médicos da cabeça queixarem-se da vida. Em vez de lhes darem porcarias químicas para os sedar, a prescrição devia ter uma lista de músicas. A primeira era esta.


Angelic Upstarts, Solidarity (Live, Yugoslavia)

Amizade.

Quando conheço uma pessoa, tiro-lhe logo o atrelado. Tiro-lhe o nome, as roupas de marca, o carro, a casa, os equipamentos electrónicos e o resto dos acessórios. Se sem isso a pessoa me interessar, ouço-a com atenção e respeito-a. Se não tiver mais do que isso, não lhe dou atenção nenhuma. Não é por mal. Apenas prefiro fazer amizade com pessoas do que com objectos.

Resposta pública a e-mail anónimo.

Caro leitor anónimo que me enviou uma mensagem electrónica a dizer que não deveria escrever o texto anterior porque me incluo no alvo,

Não me incluo mas, mesmo que me incluísse:

Primeiro, nunca disse que não era gananciosa. Tenho mais batons vermelhos do que preciso.

Segundo, pagaria os impostos ou venderia a casa para comprar um barco como os da Sea Shepherd. Adoro piratas.

Terceiro, prometo que não teria pobres de estimação. Gosto mais de rebeldes.

Atenciosamente,

Fabiana Lopes Coelho.

Sobre o esperneamento dos pungentes e exímios acumuladores de riqueza contra os impostos sobre as suas fortunas.

Caros colossais, pungentes e exímios acumuladores de riqueza,

Eu sei que vos custa aceitar mas, apesar das 10173 teorias sobre a multiplicação dos pães ou do capital:

OS RECURSOS NATURAIS SÃO LIMITADOS.

Mesmo que vocês inventem 7300 justificações para serem muito mais ricos do que os outros – ou porque são mais inteligentes, ou porque gerem melhor o dinheiro, ou porque têm melhores ideias de negócio, ou porque nasceram com tendência para ganhar dinheiro ou que foi uma bênção que obtiveram quando o papa veio a Fátima:

Se eu acumulo recursos, alguém deixa de os ter.

Só há uma terra.

A água pura está a acabar (e, ouvi dizer, a “purificada” com lixívia causa cancro).

Daqui a pouco não há ar puro para respirar (também já ouvi falar que a poluição é uma coisa complicada).

Logo, se eu exploro um recurso, alguém sofre as consequências dessa exploração.

Para produzir qualquer coisa, seja um bem físico ou intangível, é necessário, pelo menos, um recurso natural (uma máquina não é feita de ficção) ou um recurso humano (que também tem capacidades físicas e intelectuais limitadas).

E não me venham com as tretas da eficiência, que ela só significa sofisticação de estratégias para explorar mais os recursos humanos ou naturais, para obtenção de lucro, o que significa esgotar mais recursos, apesar de vocês acharem ou afirmarem que é multiplicação.

Por isso, assumam que são gananciosos. Que têm mais do que os outros porque querem ter mais do que os outros. E não inventem teorias sobre a luta contra a pobreza, porque a caridade é uma coisa nauseabunda, para disfarçar a acumulação da vossa riqueza.

Maus tempos, arte e ficção.

Dizem que a arte e a ficção são necessidades menores em tempos de dificuldade. Mas é quando a realidade se torna insuportável que mais precisamos delas. Não é alheamento do mundo, é construção de um novo. Ao contrário do entretenimento, que é alienação, entorpecimento do pensamento, a arte é florescimento. Enquanto é criada e contemplada, não só liberta a vida da prisão, como revela novas imagens, novas formas de fazer e pensar. Não é irresponsabilidade. É alimentação de espaços de resistência.

Agora, nem eu vendo nem tu compras maçãs a um preço justo.

Houve um tempo em que as maçãs nasciam das árvores sem intervenção humana. Os ciclos naturais das águas, das terras, dos ventos e do sol reuniam tudo o que era preciso para que as maçãs brotassem saudáveis. Depois, começou-se a cultivar macieiras. O agricultor tirava sementes de uma maçã e punha-as na terra. Para continuar a ter cada vez mais maçãs, começou a tratar as árvores. Primeiro, podava-as e fazia outras coisas que as ajudavam a crescer. Mas, como esse procedimento não garantia que ele tivesse todas as maçãs que queria, começou a comprar uns produtos feitos em laboratório, que se põem nas macieiras para as maçãs crescerem muito rápido. Também experimentou uns pós para matar ervas e os bichos que costumavam comer algumas maçãs. Mas o agricultor queria ainda mais maçãs, maiores e mais baratas, por isso, em vez de usar as sementes da macieira, passou a comprá-las a empresas que as fabricam em laboratórios, que são modificadas geneticamente para crescerem rapidamente, sem a natureza a atrapalhar. São todas iguais e grandes. Há quem diga que essas coisas e sementes que põem na terra e nas macieiras contaminam o ambiente, provocam cancro e outras doenças muito complicadas, mas não é por isso que estou a contar esta história.

Nesse tempo, antes dos pós e das sementes criadas em laboratório, apanhava as maçãs das árvores, ou comprava-as ao agricultor, e comia-as. Ou não pagava nada por elas, eram uma espécie de oferta da natureza, ou pagava, vamos apenas exemplificar, três cêntimos por cada maçã, ao agricultor. Ele argumentava que eu lhe deveria pagar porque tinha tido o trabalho de as cultivar, proteger e apanhar. Primeiro, não concordei. Afinal, eu tinha-as de graça, podia apanhá-las, e ele agora dizia que as árvores eram dele. Mas depois entramos em consenso. Ele apanhava-me as maçãs e eu pescava, ainda que sempre me tenha recusado a domesticar os peixes, como ele fez com as macieiras. “Se não tens maçãs para colher, podes sempre colher laranjas ou pêras e, em cada época, vendes o que a natureza te oferece sem esforço. Não percebo porque queres vender só maçãs.” Começou-me a falar de um tal efeito de escala, mas ignorei-o. Era um bocado ganancioso, por isso devia ter qualquer coisa a ver com isso. Eu sempre preferi dormir a sesta a dominar o mundo, por isso, especializei-me nela e na arte de pescar no mar.

Um dia, cheguei a casa do agricultor, chamei por ele, e não obtive reposta. À porta, tinha uma folha A4, com uma morada, que dizia: “Para comprar as minhas maçãs, dirija-se ao meu distribuidor”. Que chatice, agora tinha que andar não sei quantos quilómetros para comprar as maçãs. Tanto as sardinhas como as maçãs iam ficar uma porcaria com o calor. Mas como só havia aquelas macieiras na terra (o agricultor apropriou-se de todas), lá tive que ir ao distribuidor. Finalmente, chego ao destino e, para meu espanto, vejo milhares de maçãs de todas as cores e feitios, cartazes gigantes e uns anúncios a piscar cores ácidas que diziam que aquelas maçãs eram as melhores do mundo. Tudo aquilo para vender umas maçãs? Quando tive de pagar sete cêntimos por cada maçã, percebi. Três cêntimos eram para o agricultor e quatro cêntimos para construir o parque de diversões das maçãs.

Mas nisso enganei-me. Quando encontrei o agricultor, uma vez, na praia, disse-me que agora só ganha um cêntimo por cada maçã, e que se não vendesse àquele preço, o distribuidor não lhas comprava. “Porque não voltas a vendê-las tu?”, perguntei-lhe. “Sabes, agora ninguém compra maçãs ao agricultor. É sempre ao distribuidor. Ele faz muita publicidade e convence as pessoas que as maçãs que ele vende são as melhores e as mais baratas. Não teria clientes. Ao menos, assim, garanto algum. E, sabes, tenho de as deixar lá e só recebo o dinheiro quando forem vendidas, o que significa que ele recebe o dinheiro das maçãs primeiro do que eu, e aplica-o no banco até mas pagar. Além de ganhar dinheiro com a venda das minhas maçãs, também ganha juros do meu dinheiro. E diz que aquilo tudo é para pagar o trabalho de as pôr nas prateleiras e de as promover. Que tristeza. Agora, nem eu posso vender nem tu podes comprar maçãs a um preço justo”. “É verdade”, respondi. “Queres que te ensine a pescar?”

Humanismo.

Sempre que há uma catástrofe humana, as redes sociais impregnam-se de frases muito belas. No outro dia, apareceu-me uma, no perfil falso criado para não perder a oportunidade de ler estas coisas, que me afectou profundamente: "Vejo humanos mas não vejo humanidade”. E lembrei-me logo do meu professor do secundário que uma vez me disse que devia ser “mais humana”, em resposta a uma observação minha que dizia que “não andava aqui para libertar a humanidade da opressão. Quanto muito, aliviava a dor de cabeça do meu colega de carteira porque tinha trazido um ben-u-ron.”

“Agora, aliviar todas as dores de cabeça deste mundo?”. “Mesmo que quisesse”, disse-lhe, “que não é claramente o caso, não ia conseguir, porque o que cria dores de cabeça a uns, não cria a outros. E eliminar uma causa de dor de cabeça de uns, ia dar muitas dores de cabeça a outros. Por isso, em vez de ter a pretensão de saber e querer eliminar as dores de cabeça de toda a “humanidade”, resolvo as minhas e as do colega do lado. Pode ser que outros, ao verem como resolvi a minha, resolvam também a deles, se quiserem. Valha-me obrigá-los a resolver aquilo que eu acho que são as dores de cabeça deles! Inclusivamente, professor, sei de muita gente que precisa da dor de cabeça. Li, anteontem, que há muitos escritores que não conseguem escrever sem ela. Nos dias sem dor de cabeça, vão para a praia e põem-se a namorar. Além disso, nos dias seguintes à inactividade intelectual, ficam com uma grande dor de cabeça provocada pela frustração de não avançarem no trabalho.

E quem é que define o que é ser “mais humana”? É o professor? E se eu achar que sou mais humana por não querer que todos os “humanos” sigam a minha ideia de “humanidade”?

Já o estou a ver num alto palanque a recitar o novo “código da humanidade” e a selecionar quem fica de fora das determinações específicas.“Este não é humano, este é quase humano, este é meio humano.”

Se calhar é por isso que agora vendem tantos comprimidos para as dores de cabeça. Ou porque nunca somos suficientemente humanos ou porque, digo eu, cansamo-nos de ser demasiado humanos”.

Belos tempos.

Tudo o que eu não fui, tu serás assim.

Entristece-me ver crianças exemplares. Têm as melhores notas, tocam piano, lêem antes do tempo e “já sabem falar de política e ciência”. O adestramento começa cada vez mais cedo. Os pais, sedentos de prestígio social, fabricam bonecos à imagem dos seus arrependimentos. Os filhos têm que ser os mais inteligentes, famosos ou bonitos, porque era o que eles queriam ser mas não conseguiram. As crianças, usadas como propriedade e subserviência garantidas, não só lhes dão a sensação de eternidade, como lhes satisfazem as necessidades de amor, ego e violência. Preciso de atenção? O filho dá. Preciso de prestígio? O filho dá. Preciso de exercer autoridade em alguém? Mando no meu filho. E a esta degradação intelectual, roubo da espontaneidade, e da vontade própria, chamam educação. Seja por coacção, seja por manipulação, os adultos procuram que os filhos sejam extensões obedientes e melhoradas de si próprios. Só não sei se eles se apercebem que, assim, não só criam seres frustrados e deprimidos, como estão a reiniciar o ciclo de violência social do qual foram vítimas toda a vida.

A liberdade deles.

Tenho uns amigos do governo que falam muito em liberdade política. Quando me vêm com essa conversa, pergunto-lhes: Liberdade de quem? Para fazer o quê? E chego sempre à mesma conclusão. A liberdade deles decidirem a que leis devo sujeitar-me. É que, quanto mais exercem a liberdade deles, menos vejo a minha. No Estado "livre", onde somos obrigados a fazer milhares de coisas, podemos optar entre as alternativas que o poder nos dá, que são nenhumas.

Zettabytes.

The Modern Lovers, Modern World.

So share the modern world with me
'Cause I'm in love with the U.S.A. now
I'm in love with the modern world now

A maior das amizades.

Sampé
Como não passamos todos, nós os vivos, de mortos que ainda não entraram em funções, todas essas delicadezas, todos esses cumprimentos no vestíbulo a que chamamos deferência, gratidão, dedicação e a que misturamos tantas mentiras, são estéreis e cansativas. Além disso, — desde as primeiras relações de simpatia, de admiração, de reconhecimento, as primeiras palavras que escrevemos, tecem à nossa volta os primeiros fios de uma teia de hábitos, de uma verdadeira maneira de ser, da qual já não conseguimos desembaraçar-nos nas amizades seguintes; sem contar que durante esse tempo as palavras excessivas que pronunciámos ficam como letras de câmbio que temos que pagar, ou que pagaremos mais caro ainda toda a nossa vida com os remorsos de as termos deixado protestar.

Na leitura, a amizade é subitamente reduzida à sua primeira pureza. Com os livros, não há amabilidade. Estes amigos, se passarmos o serão com eles, é porque realmente temos vontade disso. A eles, pelo menos, muitas vezes só os deixamos a contragosto. E quando os deixamos, não temos nenhum desse pensamentos que estragam a amizade: — Que terão eles pensado de nós? — Não tivemos falta de tacto? — Teremos agradado? — nem o medo de sermos esquecidos por um deles. Todas estas agitações da amizade expiram no limiar dessa amizade pura e calma que é a leitura. Também não há deferência; só rimos com o que diz Molière na exacta medida em que lhe achamos graça; quando ele nos aborrece, não temos medo de mostrar um ar aborrecido, e quando estamos decididamente fartos de estar com ele, pomo-lo no seu lugar tão bruscamente como se ele não tivesse nem génio nem celebridade. A atmosfera desta pura amizade é o silêncio, mais do que a palavra. Porque nós falamos para os outros, mas calamo-nos para connosco mesmos.

Proust, in O prazer da leitura, prefácio escrito para a tradução de “Sésamo e Lírios” de John Ruskin.

Escudos humanos.

Olha que ideia fantabulástica tiveram agora: avaliar o desempenho dos trabalhadores no fim de cada telefonema (telecomunicações), visita (supermercados), prestação de serviços públicos (Centro de Emprego) ou privados (Uber). Dizem para escolhermos as opções entre zero e três, em que zero é nada satisfeito e três muito satisfeito, por exemplo. No meio há-de estar o mais ou menos satisfeito. Ou pedem-nos para seleccionarmos umas caras de uns bonecos, smiles, nas máquinas de pagamento, após a prestação do serviço. Se tivermos gostado do atendimento, seleccionamos as caras sorridentes. Se quisermos demonstrar a nossa insatisfação, clicamos nas caras muito tristes.

Isto é muito engraçado e até andam para aí umas pessoas muito contentes e a sentirem-se muito poderosas ou por poderem sancionar outras - Vê-lá-se-te-portas-bem-ou-dou-te-má-avaliação-e-levas-tau-tau-do-chefe – ou por impedirem os trabalhadores de boicotarem este sistema – Olha-que-eu-sou-muito-esperto-e-já-vi-que-andas-a-clicar-nos-bonecos-super-sorridentes-quando-as-pessoas-se-esquecem-de-te-avaliar. São todos muito espertos. Só ainda não perceberam qual é o objectivo desta geringonça.

Sempre que clicamos no boneco triste ou no boneco sorridente, estamos a avaliar o trabalhador e não a empresa. Assim, culpa-se o trabalhador pelo mau serviço e não a empresa que lhes paga mal, que tem más condições de trabalho, de venda, maus produtos, estruturas deficientes. As decisões são tomadas pelas chefias mas a avaliação e as sanções dirigem-se sempre ao trabalhador. Para além de pô-los a competir entre si, em benefício do empregador. Imagine-se que a empresa decide aumentar os preços. Como não é possível avaliar a empresa, apenas o trabalhador, quem acham que vai levar com o cartão vermelho?

E quando forem vocês? Vão fazer sorrisinhos de plástico, mesmo quando queriam arder com tudo, incluindo chefes e clientes, porque têm que pagar as contas, não é? E que tal deixarem de ser palermas e permitirem que os trabalhadores tenham só bonecos sorridentes, para, desta forma, impedirem os chefes de os culparem das decisões que só estes tomam?

Ou isso ou ponham-se a vigiar e a penalizar uns aos outros, enquanto nos usam como escudos humanos.

Tive algumas dificuldades, mas graças a Deus tudo acabou bem.*

É uma força interior que me aproxima destas causas. O que me move é o sofrimento de pessoas que estão a escassos quilómetros de nós, diz a Inês Patrocínio*. Fiquei emocionada e com algumas dúvidas.

O que quer ela dizer com “escassos quilómetros”?

Há pobres em Portugal?

Não é glamoroso tirar fotos a "ajudar" os pobres portugueses?

O que é que a Inês Patrocínio foi realmente fazer a África?

Quem foi o africano que ficou melhor depois da visita da Inês Patrocínio?

Quantos rebuçados deu a Inês Patrocínio às crianças africanas?

Será que já passou pela cabeça da Inês Patrocínio que os que os ocidentais fazem em África ou é colonização ou é turismo de pobreza?

Saberá, a Inês Patrocínio, o significado da palavra paternalismo?

Para que é que se tira uma fotografia destas?


Talvez a Barbie Savior saiba.


A pequena biografia no perfil já conta metade da história apenas com palavras-chave: "Jesus. Aventura. Um amor. Bebés. Beleza. Não qualificada. Convocada. Vinte anos de idade. Não é sobre mim... mas até é". Neste perfil de Instagram, vemos uma Barbie em África a fazer "selfies" entre ruínas, a aprender a dançar "como os nativos", a mostrar a sua nova tatuagem, feita uma semana após aterrar: o contorno do continente é acompanhado pelas palavras "Te Amo", que "significam 'amor' em africano". Criada por duas jovens de 20 anos, a conta Barbie Savior parodia, com muito humor, todos aqueles que decidem viajar para um país em desenvolvimento como voluntário, mas que, em vez de ajudar, tornam toda a experiência num acontecimento sobre si próprios. No fim de contas, satiriza o "white savior complex", termo que descreve os ocidentais brancos que se precipitam para países mais pobres para "salvar" pessoas, mas, muitas vezes, é apenas um exercício de auto-congratulação com um certo resquício de colonialismo à mistura. In P3

Classes.

O Enredo Conjugal, Jeffrey Eugenides.

Biografia.

Ontem, passei a noite a ler os diários do Kafka. Queixa-se da necessidade de manter o trabalho no escritório para “ganhar o pão” e da falta de tempo para escrever. Vive em exaustão por manter uma vida dupla, a de agente na companhia de seguros e a de escritor. Pergunta-se constantemente pelas vantagens e desvantagens do celibato e do casamento e de que forma isso influenciaria a sua escrita. Há quem diga, pelas suas cartas, que era torturado pelo desejo sexual. Fala do pai, da relação sinuosa que tinha com ele, e das censuras que lhe fazia por não “se preocupar com a fábrica” da família. Sonha com o momento em que se livraria do escritório e poderia finalmente dedicar-se a escrever. “Não consigo prever uma mudança mais grandiosa do que esta, já de si tão terrivelmente improvável.” Deita-se cedo para escrever de manhã e vai já exausto para o trabalho. Nos dias em que não escreve, sente que o trabalho corre melhor, mas nada daquilo lhe faz sentido. Não lhe doía o corpo mas a alma, digo eu. Tem momentos em que pensa : “não teria a capacidade de aproveitar todo o tempo para a literatura”, para logo afirmar: “todos os dias deveria ser-me apontada ao menos uma linha, como se aponta os telescópios aos cometas”. A mim, também. Ou uma linha por semana, um livro de oito em oito anos, como o Cossery, que conseguiu livrar-se de “tudo isso que desgraçadamente dá felicidade aos imbecis”, e viver, “sempre feliz”, com quase nada.

1911.

Kafka, in Diários.

Only anarchists are pretty.

“I arrived last night at the University of Arizona for my event with Edward Snowden and Noam Chomsky. Chomsky arrived shortly after I did and, after I greeted him, the following dialogue ensued:

Chomsky: You know, there’s this interesting essay by Albert Camus, written during his first visit to the United States, in which he described his surprise at what he regarded as the poor clothing taste of Americans, particularly men’s choices of ties.

Me (slightly confused): Are you sharing that anecdote because you dislike my tie?

Chomsky: Yes."

Quando o capitalismo "flirta" com o fascismo.*

Continuo a rir-me muito com o facto da Catarina Portas, de cognome "a empreendedora das andorinhas de louça e cabazes de 100€ com uma garrafa de vinho do Porto corrente, dois sabonetes e uma lata de atum”, proprietária das lojas com o conceito mais neo-fascista que conheço - vender produtos "artesanais" portugueses (a maioria é industrial mas com design retro, pelo que de artesanais devem ser, talvez, as embalagens), em formato “gourmet”, e a preços exorbitantes (que não são para pagar a mão-de-obra que os produz mas a ela e aos proprietários das grandes marcas que os fabricam), numa espécie de disneylândia saudosista do Portugal antigo - veio para uma revista cor-de-rosa dizer que, em certo sentido, é um “bocadinho” anarquista. “Estes produtos são nossos. Estes produtos somos nós.”, diz o manifesto da loja da senhora. Alguém que lhe explique que ninguém pertence ao "nós" dela, a não ser duas ou três marcas de loiça, lápis de grafite e de sabonetes cheios de perfume industrial que a Oprah adora oferecer no Natal. Tudo impossível de ser comprado por um português de ordenado médio. Mas com muito estilo, tã?

*

Na fábrica de comida.

Não havia alternativa. Para sobreviver, teria que trabalhar nos tempos livres que lhe restavam. Todos os dias, apenas parava para comer e dormir, o que não conseguia fazer pela falta de sentido de vida. A ela, nem emprego lhe davam. Diziam que eram trabalhos muito exigentes para mulheres.

No dia seguinte, vi isto afixado:

Aviso todas as pessoas para se retirarem da fábrica até às 9h55, hora exacta em que será bombardeada. O objectivo é alertar para a submissão do amor ao capitalismo, pelo que apenas pretendemos explodir com as instalações. O anarquista continuará no anonimato. Apenas se sabe que este é um acto feminista.

Sobreviveram todos. Agora, já não é a fábrica que faz a comida. Somos nós que plantamos, transformamos, cozinhamos e comemos. Todos têm tempo e conseguem dormir. E, diz-se por aí, o nosso ex-chefe, que estava impotente, faz amor muitas vezes.