The Meteors - Fuck Like A Beast
Agora, nem eu vendo nem tu compras maçãs a um preço justo.
Houve um tempo em que as maçãs nasciam das árvores sem intervenção humana. Os ciclos naturais das águas, das terras, dos ventos e do sol reuniam tudo o que era preciso para que as maçãs brotassem saudáveis. Depois, começou-se a cultivar macieiras. O agricultor tirava sementes de uma maçã e punha-as na terra. Para continuar a ter cada vez mais maçãs, começou a tratar as árvores. Primeiro, podava-as e fazia outras coisas que as ajudavam a crescer. Mas, como esse procedimento não garantia que ele tivesse todas as maçãs que queria, começou a comprar uns produtos feitos em laboratório, que se põem nas macieiras para as maçãs crescerem muito rápido. Também experimentou uns pós para matar ervas e os bichos que costumavam comer algumas maçãs. Mas o agricultor queria ainda mais maçãs, maiores e mais baratas, por isso, em vez de usar as sementes da macieira, passou a comprá-las a empresas que as fabricam em laboratórios, que são modificadas geneticamente para crescerem rapidamente, sem a natureza a atrapalhar. São todas iguais e grandes. Há quem diga que essas coisas e sementes que põem na terra e nas macieiras contaminam o ambiente, provocam cancro e outras doenças muito complicadas, mas não é por isso que estou a contar esta história.
Nesse tempo, antes dos pós e das sementes criadas em laboratório, apanhava as maçãs das árvores, ou comprava-as ao agricultor, e comia-as. Ou não pagava nada por elas, eram uma espécie de oferta da natureza, ou pagava, vamos apenas exemplificar, três cêntimos por cada maçã, ao agricultor. Ele argumentava que eu lhe deveria pagar porque tinha tido o trabalho de as cultivar, proteger e apanhar. Primeiro, não concordei. Afinal, eu tinha-as de graça, podia apanhá-las, e ele agora dizia que as árvores eram dele. Mas depois entramos em consenso. Ele apanhava-me as maçãs e eu pescava, ainda que sempre me tenha recusado a domesticar os peixes, como ele fez com as macieiras. “Se não tens maçãs para colher, podes sempre colher laranjas ou pêras e, em cada época, vendes o que a natureza te oferece sem esforço. Não percebo porque queres vender só maçãs.” Começou-me a falar de um tal efeito de escala, mas ignorei-o. Era um bocado ganancioso, por isso devia ter qualquer coisa a ver com isso. Eu sempre preferi dormir a sesta a dominar o mundo, por isso, especializei-me nela e na arte de pescar no mar.
Um dia, cheguei a casa do agricultor, chamei por ele, e não obtive reposta. À porta, tinha uma folha A4, com uma morada, que dizia: “Para comprar as minhas maçãs, dirija-se ao meu distribuidor”. Que chatice, agora tinha que andar não sei quantos quilómetros para comprar as maçãs. Tanto as sardinhas como as maçãs iam ficar uma porcaria com o calor. Mas como só havia aquelas macieiras na terra (o agricultor apropriou-se de todas), lá tive que ir ao distribuidor. Finalmente, chego ao destino e, para meu espanto, vejo milhares de maçãs de todas as cores e feitios, cartazes gigantes e uns anúncios a piscar cores ácidas que diziam que aquelas maçãs eram as melhores do mundo. Tudo aquilo para vender umas maçãs? Quando tive de pagar sete cêntimos por cada maçã, percebi. Três cêntimos eram para o agricultor e quatro cêntimos para construir o parque de diversões das maçãs.
Mas nisso enganei-me. Quando encontrei o agricultor, uma vez, na praia, disse-me que agora só ganha um cêntimo por cada maçã, e que se não vendesse àquele preço, o distribuidor não lhas comprava. “Porque não voltas a vendê-las tu?”, perguntei-lhe. “Sabes, agora ninguém compra maçãs ao agricultor. É sempre ao distribuidor. Ele faz muita publicidade e convence as pessoas que as maçãs que ele vende são as melhores e as mais baratas. Não teria clientes. Ao menos, assim, garanto algum. E, sabes, tenho de as deixar lá e só recebo o dinheiro quando forem vendidas, o que significa que ele recebe o dinheiro das maçãs primeiro do que eu, e aplica-o no banco até mas pagar. Além de ganhar dinheiro com a venda das minhas maçãs, também ganha juros do meu dinheiro. E diz que aquilo tudo é para pagar o trabalho de as pôr nas prateleiras e de as promover. Que tristeza. Agora, nem eu posso vender nem tu podes comprar maçãs a um preço justo”. “É verdade”, respondi. “Queres que te ensine a pescar?”
Nesse tempo, antes dos pós e das sementes criadas em laboratório, apanhava as maçãs das árvores, ou comprava-as ao agricultor, e comia-as. Ou não pagava nada por elas, eram uma espécie de oferta da natureza, ou pagava, vamos apenas exemplificar, três cêntimos por cada maçã, ao agricultor. Ele argumentava que eu lhe deveria pagar porque tinha tido o trabalho de as cultivar, proteger e apanhar. Primeiro, não concordei. Afinal, eu tinha-as de graça, podia apanhá-las, e ele agora dizia que as árvores eram dele. Mas depois entramos em consenso. Ele apanhava-me as maçãs e eu pescava, ainda que sempre me tenha recusado a domesticar os peixes, como ele fez com as macieiras. “Se não tens maçãs para colher, podes sempre colher laranjas ou pêras e, em cada época, vendes o que a natureza te oferece sem esforço. Não percebo porque queres vender só maçãs.” Começou-me a falar de um tal efeito de escala, mas ignorei-o. Era um bocado ganancioso, por isso devia ter qualquer coisa a ver com isso. Eu sempre preferi dormir a sesta a dominar o mundo, por isso, especializei-me nela e na arte de pescar no mar.
Um dia, cheguei a casa do agricultor, chamei por ele, e não obtive reposta. À porta, tinha uma folha A4, com uma morada, que dizia: “Para comprar as minhas maçãs, dirija-se ao meu distribuidor”. Que chatice, agora tinha que andar não sei quantos quilómetros para comprar as maçãs. Tanto as sardinhas como as maçãs iam ficar uma porcaria com o calor. Mas como só havia aquelas macieiras na terra (o agricultor apropriou-se de todas), lá tive que ir ao distribuidor. Finalmente, chego ao destino e, para meu espanto, vejo milhares de maçãs de todas as cores e feitios, cartazes gigantes e uns anúncios a piscar cores ácidas que diziam que aquelas maçãs eram as melhores do mundo. Tudo aquilo para vender umas maçãs? Quando tive de pagar sete cêntimos por cada maçã, percebi. Três cêntimos eram para o agricultor e quatro cêntimos para construir o parque de diversões das maçãs.
Mas nisso enganei-me. Quando encontrei o agricultor, uma vez, na praia, disse-me que agora só ganha um cêntimo por cada maçã, e que se não vendesse àquele preço, o distribuidor não lhas comprava. “Porque não voltas a vendê-las tu?”, perguntei-lhe. “Sabes, agora ninguém compra maçãs ao agricultor. É sempre ao distribuidor. Ele faz muita publicidade e convence as pessoas que as maçãs que ele vende são as melhores e as mais baratas. Não teria clientes. Ao menos, assim, garanto algum. E, sabes, tenho de as deixar lá e só recebo o dinheiro quando forem vendidas, o que significa que ele recebe o dinheiro das maçãs primeiro do que eu, e aplica-o no banco até mas pagar. Além de ganhar dinheiro com a venda das minhas maçãs, também ganha juros do meu dinheiro. E diz que aquilo tudo é para pagar o trabalho de as pôr nas prateleiras e de as promover. Que tristeza. Agora, nem eu posso vender nem tu podes comprar maçãs a um preço justo”. “É verdade”, respondi. “Queres que te ensine a pescar?”
Humanismo.
Sempre que há uma catástrofe humana, as redes sociais impregnam-se de frases muito belas. No outro dia, apareceu-me uma, no perfil falso criado para não perder a oportunidade de ler estas coisas, que me afectou profundamente: "Vejo humanos mas não vejo humanidade”. E lembrei-me logo do meu professor do secundário que uma vez me disse que devia ser “mais humana”, em resposta a uma observação minha que dizia que “não andava aqui para libertar a humanidade da opressão. Quanto muito, aliviava a dor de cabeça do meu colega de carteira porque tinha trazido um ben-u-ron.”
“Agora, aliviar todas as dores de cabeça deste mundo?”. “Mesmo que quisesse”, disse-lhe, “que não é claramente o caso, não ia conseguir, porque o que cria dores de cabeça a uns, não cria a outros. E eliminar uma causa de dor de cabeça de uns, ia dar muitas dores de cabeça a outros. Por isso, em vez de ter a pretensão de saber e querer eliminar as dores de cabeça de toda a “humanidade”, resolvo as minhas e as do colega do lado. Pode ser que outros, ao verem como resolvi a minha, resolvam também a deles, se quiserem. Valha-me obrigá-los a resolver aquilo que eu acho que são as dores de cabeça deles! Inclusivamente, professor, sei de muita gente que precisa da dor de cabeça. Li, anteontem, que há muitos escritores que não conseguem escrever sem ela. Nos dias sem dor de cabeça, vão para a praia e põem-se a namorar. Além disso, nos dias seguintes à inactividade intelectual, ficam com uma grande dor de cabeça provocada pela frustração de não avançarem no trabalho.
E quem é que define o que é ser “mais humana”? É o professor? E se eu achar que sou mais humana por não querer que todos os “humanos” sigam a minha ideia de “humanidade”?
Já o estou a ver num alto palanque a recitar o novo “código da humanidade” e a selecionar quem fica de fora das determinações específicas.“Este não é humano, este é quase humano, este é meio humano.”
Se calhar é por isso que agora vendem tantos comprimidos para as dores de cabeça. Ou porque nunca somos suficientemente humanos ou porque, digo eu, cansamo-nos de ser demasiado humanos”.
Belos tempos.
“Agora, aliviar todas as dores de cabeça deste mundo?”. “Mesmo que quisesse”, disse-lhe, “que não é claramente o caso, não ia conseguir, porque o que cria dores de cabeça a uns, não cria a outros. E eliminar uma causa de dor de cabeça de uns, ia dar muitas dores de cabeça a outros. Por isso, em vez de ter a pretensão de saber e querer eliminar as dores de cabeça de toda a “humanidade”, resolvo as minhas e as do colega do lado. Pode ser que outros, ao verem como resolvi a minha, resolvam também a deles, se quiserem. Valha-me obrigá-los a resolver aquilo que eu acho que são as dores de cabeça deles! Inclusivamente, professor, sei de muita gente que precisa da dor de cabeça. Li, anteontem, que há muitos escritores que não conseguem escrever sem ela. Nos dias sem dor de cabeça, vão para a praia e põem-se a namorar. Além disso, nos dias seguintes à inactividade intelectual, ficam com uma grande dor de cabeça provocada pela frustração de não avançarem no trabalho.
E quem é que define o que é ser “mais humana”? É o professor? E se eu achar que sou mais humana por não querer que todos os “humanos” sigam a minha ideia de “humanidade”?
Já o estou a ver num alto palanque a recitar o novo “código da humanidade” e a selecionar quem fica de fora das determinações específicas.“Este não é humano, este é quase humano, este é meio humano.”
Se calhar é por isso que agora vendem tantos comprimidos para as dores de cabeça. Ou porque nunca somos suficientemente humanos ou porque, digo eu, cansamo-nos de ser demasiado humanos”.
Belos tempos.
Tudo o que eu não fui, tu serás assim.
Entristece-me ver crianças exemplares. Têm as melhores notas, tocam piano, lêem antes do tempo e “já sabem falar de política e ciência”. O adestramento começa cada vez mais cedo. Os pais, sedentos de prestígio social, fabricam bonecos à imagem dos seus arrependimentos. Os filhos têm que ser os mais inteligentes, famosos ou bonitos, porque era o que eles queriam ser mas não conseguiram. As crianças, usadas como propriedade e subserviência garantidas, não só lhes dão a sensação de eternidade, como lhes satisfazem as necessidades de amor, ego e violência. Preciso de atenção? O filho dá. Preciso de prestígio? O filho dá. Preciso de exercer autoridade em alguém? Mando no meu filho. E a esta degradação intelectual, roubo da espontaneidade, e da vontade própria, chamam educação. Seja por coacção, seja por manipulação, os adultos procuram que os filhos sejam extensões obedientes e melhoradas de si próprios. Só não sei se eles se apercebem que, assim, não só criam seres frustrados e deprimidos, como estão a reiniciar o ciclo de violência social do qual foram vítimas toda a vida.
A liberdade deles.
Tenho uns amigos do governo que falam muito em liberdade política. Quando me vêm com essa conversa, pergunto-lhes: Liberdade de quem? Para fazer o quê? E chego sempre à mesma conclusão. A liberdade deles decidirem a que leis devo sujeitar-me. É que, quanto mais exercem a liberdade deles, menos vejo a minha. No Estado "livre", onde somos obrigados a fazer milhares de coisas, podemos optar entre as alternativas que o poder nos dá, que são nenhumas.
Zettabytes.
The Modern Lovers, Modern World.
So share the modern world with me
'Cause I'm in love with the U.S.A. now
I'm in love with the modern world now
A maior das amizades.
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| Sampé |
Na leitura, a amizade é subitamente reduzida à sua primeira pureza. Com os livros, não há amabilidade. Estes amigos, se passarmos o serão com eles, é porque realmente temos vontade disso. A eles, pelo menos, muitas vezes só os deixamos a contragosto. E quando os deixamos, não temos nenhum desse pensamentos que estragam a amizade: — Que terão eles pensado de nós? — Não tivemos falta de tacto? — Teremos agradado? — nem o medo de sermos esquecidos por um deles. Todas estas agitações da amizade expiram no limiar dessa amizade pura e calma que é a leitura. Também não há deferência; só rimos com o que diz Molière na exacta medida em que lhe achamos graça; quando ele nos aborrece, não temos medo de mostrar um ar aborrecido, e quando estamos decididamente fartos de estar com ele, pomo-lo no seu lugar tão bruscamente como se ele não tivesse nem génio nem celebridade. A atmosfera desta pura amizade é o silêncio, mais do que a palavra. Porque nós falamos para os outros, mas calamo-nos para connosco mesmos.
Proust, in O prazer da leitura, prefácio escrito para a tradução de “Sésamo e Lírios” de John Ruskin.
Escudos humanos.
Olha que ideia fantabulástica tiveram agora: avaliar o desempenho dos trabalhadores no fim de cada telefonema (telecomunicações), visita (supermercados), prestação de serviços públicos (Centro de Emprego) ou privados (Uber). Dizem para escolhermos as opções entre zero e três, em que zero é nada satisfeito e três muito satisfeito, por exemplo. No meio há-de estar o mais ou menos satisfeito. Ou pedem-nos para seleccionarmos umas caras de uns bonecos, smiles, nas máquinas de pagamento, após a prestação do serviço. Se tivermos gostado do atendimento, seleccionamos as caras sorridentes. Se quisermos demonstrar a nossa insatisfação, clicamos nas caras muito tristes.
Isto é muito engraçado e até andam para aí umas pessoas muito contentes e a sentirem-se muito poderosas ou por poderem sancionar outras - Vê-lá-se-te-portas-bem-ou-dou-te-má-avaliação-e-levas-tau-tau-do-chefe – ou por impedirem os trabalhadores de boicotarem este sistema – Olha-que-eu-sou-muito-esperto-e-já-vi-que-andas-a-clicar-nos-bonecos-super-sorridentes-quando-as-pessoas-se-esquecem-de-te-avaliar. São todos muito espertos. Só ainda não perceberam qual é o objectivo desta geringonça.
Sempre que clicamos no boneco triste ou no boneco sorridente, estamos a avaliar o trabalhador e não a empresa. Assim, culpa-se o trabalhador pelo mau serviço e não a empresa que lhes paga mal, que tem más condições de trabalho, de venda, maus produtos, estruturas deficientes. As decisões são tomadas pelas chefias mas a avaliação e as sanções dirigem-se sempre ao trabalhador. Para além de pô-los a competir entre si, em benefício do empregador. Imagine-se que a empresa decide aumentar os preços. Como não é possível avaliar a empresa, apenas o trabalhador, quem acham que vai levar com o cartão vermelho?
E quando forem vocês? Vão fazer sorrisinhos de plástico, mesmo quando queriam arder com tudo, incluindo chefes e clientes, porque têm que pagar as contas, não é? E que tal deixarem de ser palermas e permitirem que os trabalhadores tenham só bonecos sorridentes, para, desta forma, impedirem os chefes de os culparem das decisões que só estes tomam?
Ou isso ou ponham-se a vigiar e a penalizar uns aos outros, enquanto nos usam como escudos humanos.
Isto é muito engraçado e até andam para aí umas pessoas muito contentes e a sentirem-se muito poderosas ou por poderem sancionar outras - Vê-lá-se-te-portas-bem-ou-dou-te-má-avaliação-e-levas-tau-tau-do-chefe – ou por impedirem os trabalhadores de boicotarem este sistema – Olha-que-eu-sou-muito-esperto-e-já-vi-que-andas-a-clicar-nos-bonecos-super-sorridentes-quando-as-pessoas-se-esquecem-de-te-avaliar. São todos muito espertos. Só ainda não perceberam qual é o objectivo desta geringonça.
Sempre que clicamos no boneco triste ou no boneco sorridente, estamos a avaliar o trabalhador e não a empresa. Assim, culpa-se o trabalhador pelo mau serviço e não a empresa que lhes paga mal, que tem más condições de trabalho, de venda, maus produtos, estruturas deficientes. As decisões são tomadas pelas chefias mas a avaliação e as sanções dirigem-se sempre ao trabalhador. Para além de pô-los a competir entre si, em benefício do empregador. Imagine-se que a empresa decide aumentar os preços. Como não é possível avaliar a empresa, apenas o trabalhador, quem acham que vai levar com o cartão vermelho?
E quando forem vocês? Vão fazer sorrisinhos de plástico, mesmo quando queriam arder com tudo, incluindo chefes e clientes, porque têm que pagar as contas, não é? E que tal deixarem de ser palermas e permitirem que os trabalhadores tenham só bonecos sorridentes, para, desta forma, impedirem os chefes de os culparem das decisões que só estes tomam?
Ou isso ou ponham-se a vigiar e a penalizar uns aos outros, enquanto nos usam como escudos humanos.
Tive algumas dificuldades, mas graças a Deus tudo acabou bem.*
É uma força interior que me aproxima destas causas. O que me move é o sofrimento de pessoas que estão a escassos quilómetros de nós, diz a Inês Patrocínio*. Fiquei emocionada e com algumas dúvidas.
O que quer ela dizer com “escassos quilómetros”?
O que quer ela dizer com “escassos quilómetros”?
Há pobres em Portugal?
Não é glamoroso tirar fotos a "ajudar" os pobres portugueses?
O que é que a Inês Patrocínio foi realmente fazer a África?
Quem foi o africano que ficou melhor depois da visita da Inês Patrocínio?
Quantos rebuçados deu a Inês Patrocínio às crianças africanas?
Será que já passou pela cabeça da Inês Patrocínio que os que os ocidentais fazem em África ou é colonização ou é turismo de pobreza?
Saberá, a Inês Patrocínio, o significado da palavra paternalismo?
Para que é que se tira uma fotografia destas?
Talvez a Barbie Savior saiba.
A pequena biografia no perfil já conta metade da história apenas com palavras-chave: "Jesus. Aventura. Um amor. Bebés. Beleza. Não qualificada. Convocada. Vinte anos de idade. Não é sobre mim... mas até é". Neste perfil de Instagram, vemos uma Barbie em África a fazer "selfies" entre ruínas, a aprender a dançar "como os nativos", a mostrar a sua nova tatuagem, feita uma semana após aterrar: o contorno do continente é acompanhado pelas palavras "Te Amo", que "significam 'amor' em africano". Criada por duas jovens de 20 anos, a conta Barbie Savior parodia, com muito humor, todos aqueles que decidem viajar para um país em desenvolvimento como voluntário, mas que, em vez de ajudar, tornam toda a experiência num acontecimento sobre si próprios. No fim de contas, satiriza o "white savior complex", termo que descreve os ocidentais brancos que se precipitam para países mais pobres para "salvar" pessoas, mas, muitas vezes, é apenas um exercício de auto-congratulação com um certo resquício de colonialismo à mistura. In P3
O que é que a Inês Patrocínio foi realmente fazer a África?
Quem foi o africano que ficou melhor depois da visita da Inês Patrocínio?
Quantos rebuçados deu a Inês Patrocínio às crianças africanas?
Será que já passou pela cabeça da Inês Patrocínio que os que os ocidentais fazem em África ou é colonização ou é turismo de pobreza?
Saberá, a Inês Patrocínio, o significado da palavra paternalismo?
Para que é que se tira uma fotografia destas?
Talvez a Barbie Savior saiba.

Biografia.
Ontem, passei a noite a ler os diários do Kafka. Queixa-se da necessidade de manter o trabalho no escritório para “ganhar o pão” e da falta de tempo para escrever. Vive em exaustão por manter uma vida dupla, a de agente na companhia de seguros e a de escritor. Pergunta-se constantemente pelas vantagens e desvantagens do celibato e do casamento e de que forma isso influenciaria a sua escrita. Há quem diga, pelas suas cartas, que era torturado pelo desejo sexual. Fala do pai, da relação sinuosa que tinha com ele, e das censuras que lhe fazia por não “se preocupar com a fábrica” da família. Sonha com o momento em que se livraria do escritório e poderia finalmente dedicar-se a escrever. “Não consigo prever uma mudança mais grandiosa do que esta, já de si tão terrivelmente improvável.” Deita-se cedo para escrever de manhã e vai já exausto para o trabalho. Nos dias em que não escreve, sente que o trabalho corre melhor, mas nada daquilo lhe faz sentido. Não lhe doía o corpo mas a alma, digo eu. Tem momentos em que pensa : “não teria a capacidade de aproveitar todo o tempo para a literatura”, para logo afirmar: “todos os dias deveria ser-me apontada ao menos uma linha, como se aponta os telescópios aos cometas”. A mim, também. Ou uma linha por semana, um livro de oito em oito anos, como o Cossery, que conseguiu livrar-se de “tudo isso que desgraçadamente dá felicidade aos imbecis”, e viver, “sempre feliz”, com quase nada.
Only anarchists are pretty.
“I arrived last night at the University of Arizona for my event with Edward Snowden and Noam Chomsky. Chomsky arrived shortly after I did and, after I greeted him, the following dialogue ensued:
Chomsky: You know, there’s this interesting essay by Albert Camus, written during his first visit to the United States, in which he described his surprise at what he regarded as the poor clothing taste of Americans, particularly men’s choices of ties.
Me (slightly confused): Are you sharing that anecdote because you dislike my tie?
Chomsky: Yes."
Chomsky: You know, there’s this interesting essay by Albert Camus, written during his first visit to the United States, in which he described his surprise at what he regarded as the poor clothing taste of Americans, particularly men’s choices of ties.
Me (slightly confused): Are you sharing that anecdote because you dislike my tie?
Chomsky: Yes."
Quando o capitalismo "flirta" com o fascismo.*
Continuo a rir-me muito com o facto da Catarina Portas, de cognome "a empreendedora das andorinhas de louça e cabazes de 100€ com uma garrafa de vinho do Porto corrente, dois sabonetes e uma lata de atum”, proprietária das lojas com o conceito mais neo-fascista que conheço - vender produtos "artesanais" portugueses (a maioria é industrial mas com design retro, pelo que de artesanais devem ser, talvez, as embalagens), em formato “gourmet”, e a preços exorbitantes (que não são para pagar a mão-de-obra que os produz mas a ela e aos proprietários das grandes marcas que os fabricam), numa espécie de disneylândia saudosista do Portugal antigo - veio para uma revista cor-de-rosa dizer que, em certo sentido, é um “bocadinho” anarquista. “Estes produtos são nossos. Estes produtos somos nós.”, diz o manifesto da loja da senhora. Alguém que lhe explique que ninguém pertence ao "nós" dela, a não ser duas ou três marcas de loiça, lápis de grafite e de sabonetes cheios de perfume industrial que a Oprah adora oferecer no Natal. Tudo impossível de ser comprado por um português de ordenado médio. Mas com muito estilo, tã?
*
*
Na fábrica de comida.
Não havia alternativa. Para sobreviver, teria que trabalhar nos tempos livres que lhe restavam. Todos os dias, apenas parava para comer e dormir, o que não conseguia fazer pela falta de sentido de vida. A ela, nem emprego lhe davam. Diziam que eram trabalhos muito exigentes para mulheres.
No dia seguinte, vi isto afixado:
Aviso todas as pessoas para se retirarem da fábrica até às 9h55, hora exacta em que será bombardeada. O objectivo é alertar para a submissão do amor ao capitalismo, pelo que apenas pretendemos explodir com as instalações. O anarquista continuará no anonimato. Apenas se sabe que este é um acto feminista.
Sobreviveram todos. Agora, já não é a fábrica que faz a comida. Somos nós que plantamos, transformamos, cozinhamos e comemos. Todos têm tempo e conseguem dormir. E, diz-se por aí, o nosso ex-chefe, que estava impotente, faz amor muitas vezes.
No dia seguinte, vi isto afixado:
Aviso todas as pessoas para se retirarem da fábrica até às 9h55, hora exacta em que será bombardeada. O objectivo é alertar para a submissão do amor ao capitalismo, pelo que apenas pretendemos explodir com as instalações. O anarquista continuará no anonimato. Apenas se sabe que este é um acto feminista.
Sobreviveram todos. Agora, já não é a fábrica que faz a comida. Somos nós que plantamos, transformamos, cozinhamos e comemos. Todos têm tempo e conseguem dormir. E, diz-se por aí, o nosso ex-chefe, que estava impotente, faz amor muitas vezes.
Do método.
Eles ficam irritados com o que eu escrevo. Ficam mais irritados com os meus textos do que com qualquer outra coisa, e creio que é por causa da maneira como eu escrevo - não o conteúdo, ou a tese. Dizem que eu não obedeço às regras habituais da retórica, de gramática, de demonstração, e de argumentação; mas, é claro, se eles simplesmente não estivessem interessados, não se irritariam.
Derrida, in Gramatologia.
Demasiado humanos.
Aquilo que é feito por amor está sempre para além do bem e do mal.
Nietzsche, em Para além do Bem e do Mal.
Real pleasure.
Porque os grandes actos da vida, querida, como deves saber, nunca devem ter público.
Vergílio Ferreira, in Em Nome da Terra.
Vergílio Ferreira, in Em Nome da Terra.
Da imponência.
Não te julgues superior ou inferior, julga-te só quem és se souberes. Porque o inferior ou superior não são teus mas dos outros, ou seja, da tua humilhação perante eles.
Vergílio Ferreira, em Pensar.
Vergílio Ferreira, em Pensar.
Oito motivos para entrar na estalagem dos Oito Odiados.
Tarde livre. A chover. Entrei na sala de cinema a pensar que ia matar três horas com mais um filme do Tarantino. Apesar dos últimos não me terem cativado, é sempre uma escolha segura. Pelo menos, não ia ver xaropadas de amores estereotipo-românticos ou cenários de videojogos. Mas não. O que aconteceu foi que viajei numa montanha, durante uma tempestade de neve, e entrei numa estalagem americana que me abrigou. Sentei-me à lareira, peguei numa caneca de café, e conheci oito pessoas surpreendentes.
Isto costuma acontecer-me na literatura: fascinar-me com as personagens e levá-las comigo para a vida, como se de amigos se tratassem. Sempre que tenho um dilema moral, penso no Rodion, do "Crime e Castigo"; quando tinha colegas de turma que decoravam tudo e não percebiam nada, lembrava-me do Euzebiozinho, d´"Os Maias"; quando um amigo fica muito invejoso e tenta de todas as formas ser importante, sorrio a pensar no Ulrich, d´"O Homem Sem Qualidades"; ou, quando conheço alguém neurótico que tenta agradar toda a gente, lembro-me logo do rapaz da bandoleira cor de laranja, do "Rei Pálido".
Mas foi a primeira vez que me aconteceu no cinema. Vim embora com o Major Marquis Warren, um negro nada típico, muito pouco coitadinho (no filme, obriga um branco a fazer-lhe sexo oral — a cena mais violenta da história — quais jorramentos de sangue qual quê), que sofre a discriminação de uma forma tão imponente, que ridiculariza quem o discrimina; com John Ruth, o homem que enforca pessoas mas é sensível (dá boleia a dois desconhecidos, ganha afecto por Daisy, a condenada, e evita a morte de um odiado); com Daisy Domergue, a assassina assustadora que adora o irmão, e por isso destrói a ideia binária de mulher-boazinha ou mulher-serpente.
Aliás, não há qualquer carga erótica na personagem, o que demonstra bem a inteligência de Tarantino ao delinear mulheres a sério e não bonecas de plástico cinematográficas, como é habitual no cinema, especialmente no americano; com Chris Mannix, o imbecil aparvalhado que de burro não tem nada; com Bob, o mexicano (para além das dicotomias norte-sul, negro-branco, homem-mulher, a questão rácica mexicana também é abordada), que me pôs a rir às gargalhadas com a cena da entrada na estalagem, directo ao cobertor e à lareira, por causa do frio; com Oswaldo Mobray, o homem que tem muitas peneiras mas escrúpulos nenhuns; com Joe Gage, o discreto que faz as maiores atrocidades, sempre com um ar muito inocente; e com o general Sanford Smithers, o velho racista reaccionário que matou meio batalhão de negros na guerra civil mas que é muito sensível e inofensivo quando fala do filho.
Os "Oito Odiados" dão para rir, dão para pensar no estado dos E.U.A., no estado da política e da sociedade em geral, dissertar acerca do que é a justiça e a injustiça, apreciar a complexidade das pessoas, nas suas várias camadas, e entrar num mundo onde não há apenas bons ou maus, bonitos ou feios, pobres ou ricos. Não há nada disso no filme do Tarantino. Apenas personagens densas, boa música e uma belíssima fotografia. Apenas inteligência.
Mas foi a primeira vez que me aconteceu no cinema. Vim embora com o Major Marquis Warren, um negro nada típico, muito pouco coitadinho (no filme, obriga um branco a fazer-lhe sexo oral — a cena mais violenta da história — quais jorramentos de sangue qual quê), que sofre a discriminação de uma forma tão imponente, que ridiculariza quem o discrimina; com John Ruth, o homem que enforca pessoas mas é sensível (dá boleia a dois desconhecidos, ganha afecto por Daisy, a condenada, e evita a morte de um odiado); com Daisy Domergue, a assassina assustadora que adora o irmão, e por isso destrói a ideia binária de mulher-boazinha ou mulher-serpente.
Aliás, não há qualquer carga erótica na personagem, o que demonstra bem a inteligência de Tarantino ao delinear mulheres a sério e não bonecas de plástico cinematográficas, como é habitual no cinema, especialmente no americano; com Chris Mannix, o imbecil aparvalhado que de burro não tem nada; com Bob, o mexicano (para além das dicotomias norte-sul, negro-branco, homem-mulher, a questão rácica mexicana também é abordada), que me pôs a rir às gargalhadas com a cena da entrada na estalagem, directo ao cobertor e à lareira, por causa do frio; com Oswaldo Mobray, o homem que tem muitas peneiras mas escrúpulos nenhuns; com Joe Gage, o discreto que faz as maiores atrocidades, sempre com um ar muito inocente; e com o general Sanford Smithers, o velho racista reaccionário que matou meio batalhão de negros na guerra civil mas que é muito sensível e inofensivo quando fala do filho.
Os "Oito Odiados" dão para rir, dão para pensar no estado dos E.U.A., no estado da política e da sociedade em geral, dissertar acerca do que é a justiça e a injustiça, apreciar a complexidade das pessoas, nas suas várias camadas, e entrar num mundo onde não há apenas bons ou maus, bonitos ou feios, pobres ou ricos. Não há nada disso no filme do Tarantino. Apenas personagens densas, boa música e uma belíssima fotografia. Apenas inteligência.
15 anos de música que faz tremer.
Portugal é um país exótico no panorama musical ocidental. Em Inglaterra, nos E.U.A, em França ou na Alemanha há blues, há rock n´roll, punk, pós-punk, industrial, dance rock ou garage; em Portugal há fado, pimba e a música do não aquece nem arrefece.
Como os Parkinsons são daquelas bandas que aquecem muito, em 2000 foram para Inglaterra acelerar os ingleses, que lhes deram aquilo que Portugal não dá aos grandes músicos desobedientes: um grupo de fãs fiel e grandes destaques na comunicação social.
Como o bom aluno que não percebe nada da matéria, mas que copia tudo, a imprensa portuguesa imitou os destaques da imprensa internacional e pôs os Parkinsons em relevo nas páginas dos jornais. Depois, como os hábitos são muito difíceis de mudar, voltaram a encher os artigos com a música do assim-assim, que vende bilhetes para festivais de música de gente muito bem comportada, que só come o que as grandes empresas lhes põem na mesa. É o mundo do continua assim, a comprar-me tudo, que eu ainda tenho muitas roupas, "gadgets", e outras coisas muito "trendy" para te vender, e essa gente do rock porco, sujo e mau, que só gosta da música pela música, não me compra nada e só destabiliza. Enquanto isso, a banda de Victor Torpedo, um dos mais brilhantes músicos portugueses, Afonso Pinto, Pedro Chau e de nove bateristas diferentes (agora, Paula Nozzari), tocavam em grandes festivais europeus e enchiam salas no Japão.
O punk e os Parkinsons são daquelas raridades em Portugal em que as pessoas se reúnem à volta da música porque adoram música e não para serem ricos ou famosos. Claro que se pudessem viver da música, seria perfeito. Pagariam as contas a fazer o que mais amam. Mas não é por isso que fazem música, porque se fosse, não o fariam, já que, na maioria das vezes, perdem mais dinheiro do que aquele que ganham. Em Portugal, só quem está associado a grandes empresas pode ganhar dinheiro com a sua arte e ser dignificado pela comunicação social. E isto tem consequências muito profundas na cultura de um país. Uma cultura que não é livre é uma cultura que mutila o desenvolvimento humano e impede a sua emancipação. Como músico em Portugal, não posso criar o que quero, dizer aquilo que penso das grandes corporações, nem de tudo o que está à sua volta, porque são elas que me editam os meus discos, escrevem sobre os meus concertos, expõem os meus quadros ou publicam os meus livros.
Neste mundo pronto-a-usar, o punk é uma lufada de ar fresco, uma inocência desobediente perdida, onde os amigos pegam em instrumentos, puxam uns acordes e fazem qualquer coisa de novo. O punk diverte, o punk faz abanar as ancas, o punk emancipa. E é isso que os Parkinsons sempre fizerem com o seu público. No sábado passado, em Coimbra, num Salão Brazil a abarrotar de gente, completamente esgotado, mostraram aquilo que são, uma grande banda que incendeia o público e põe toda a gente a vibrar. Cantaram os clássicos, como a "Bad Girl", a "Angel in The Dark" e a "Primitive", cuja letra deu origem ao documentário "A Long Way to Nowhere", sobre a sua história, a ser exibido agora em Portugal; e as mais recentes, dos álbuns da Garagem , uma editora a não perder de vista. Há 15 anos a tocar música que faz tremer. É disto que Portugal precisa.
Como o bom aluno que não percebe nada da matéria, mas que copia tudo, a imprensa portuguesa imitou os destaques da imprensa internacional e pôs os Parkinsons em relevo nas páginas dos jornais. Depois, como os hábitos são muito difíceis de mudar, voltaram a encher os artigos com a música do assim-assim, que vende bilhetes para festivais de música de gente muito bem comportada, que só come o que as grandes empresas lhes põem na mesa. É o mundo do continua assim, a comprar-me tudo, que eu ainda tenho muitas roupas, "gadgets", e outras coisas muito "trendy" para te vender, e essa gente do rock porco, sujo e mau, que só gosta da música pela música, não me compra nada e só destabiliza. Enquanto isso, a banda de Victor Torpedo, um dos mais brilhantes músicos portugueses, Afonso Pinto, Pedro Chau e de nove bateristas diferentes (agora, Paula Nozzari), tocavam em grandes festivais europeus e enchiam salas no Japão.
O punk e os Parkinsons são daquelas raridades em Portugal em que as pessoas se reúnem à volta da música porque adoram música e não para serem ricos ou famosos. Claro que se pudessem viver da música, seria perfeito. Pagariam as contas a fazer o que mais amam. Mas não é por isso que fazem música, porque se fosse, não o fariam, já que, na maioria das vezes, perdem mais dinheiro do que aquele que ganham. Em Portugal, só quem está associado a grandes empresas pode ganhar dinheiro com a sua arte e ser dignificado pela comunicação social. E isto tem consequências muito profundas na cultura de um país. Uma cultura que não é livre é uma cultura que mutila o desenvolvimento humano e impede a sua emancipação. Como músico em Portugal, não posso criar o que quero, dizer aquilo que penso das grandes corporações, nem de tudo o que está à sua volta, porque são elas que me editam os meus discos, escrevem sobre os meus concertos, expõem os meus quadros ou publicam os meus livros.
Neste mundo pronto-a-usar, o punk é uma lufada de ar fresco, uma inocência desobediente perdida, onde os amigos pegam em instrumentos, puxam uns acordes e fazem qualquer coisa de novo. O punk diverte, o punk faz abanar as ancas, o punk emancipa. E é isso que os Parkinsons sempre fizerem com o seu público. No sábado passado, em Coimbra, num Salão Brazil a abarrotar de gente, completamente esgotado, mostraram aquilo que são, uma grande banda que incendeia o público e põe toda a gente a vibrar. Cantaram os clássicos, como a "Bad Girl", a "Angel in The Dark" e a "Primitive", cuja letra deu origem ao documentário "A Long Way to Nowhere", sobre a sua história, a ser exibido agora em Portugal; e as mais recentes, dos álbuns da Garagem , uma editora a não perder de vista. Há 15 anos a tocar música que faz tremer. É disto que Portugal precisa.
Secretárias.
A educação é um feito admirável, mas de vez em quando convém não esquecer que não se ensina nada que valha a pena saber.
Oscar Wilde, em O Crítico como Artista.
Oscar Wilde, em O Crítico como Artista.
Arder com as serpentinas.
Por volta de 1900, a ala radical da esquerda adoptou o cinismo senhorial da direita. A competição entre a consciência cínico-defensiva dos antigos detentores do poder e o cinismo utópico-defensivo dos novos gerou o drama político-moral do século XX. Na corrida à consciência mais dura dos factos duros, o Diabo e Belzebu acusavam-se mutuamente. Da concorrência das consciências nasceu o lusco-fusco característico dos tempos presentes - o mútuo espiar-se das ideologias, a assimilação dos contrários, a modernização da impostura -, em resumo, aquela situação que lançava a filosofia no vazio em que o mentiroso chama mentiroso ao mentiroso.
(...)
Depois da década da reconstrução e das décadas das utopias e das "alternativas", tudo se passa como se um elã ingénuo tivesse subitamente desaparecido. Temem-se catástrofes e novos valores têm grande procura, como os analgésicos. No entanto, a época é cínica e sabe que o é: os novos valores têm pernas curtas.
(...)
Uma cultura neopagã que não acredita na vida para além da morte, procura antes desta.
(...)
A velha social-democracia anunciara o slogan "saber é poder" como uma judiciosa receita prática. Pretendia-se afirmar que uma pessoa devia aprender qualquer coisa como deve ser, para mais tarde, vir a melhorar a sua situação. O dito era ditado por uma fé pequeno-burguesa na escola. Essa fé está hoje em decomposição. Só entre os nossos jovens médicos cínicos há uma linha clara que liga o curso ao nível de vida. Quase todos os outros vivem com o risco de aprender em vão.
(...)
Uma pessoa tem de começar por ter um vida melhor para depois poder vir a aprender qualquer coisa razoável. A socialização pela escolarização tal como se desenvolve no nosso país é o embrutecimento a priori.
(...)
No fundo, já ninguém acredita que a aprendizagem de hoje resolve os "problemas" de amanhã; é quase certo, pelo contrário, que os desencadeia.
(...)
Um sem-fim de serpentinas retóricas
(...)
Ser "racional" é inserir-se numa relação particular, raramente feliz, com o sensível. "Sê racional" significa praticamente isto: não te fies nos teus impulsos, não escutes o teu corpo, aprende a controlar-te - e começa por controlar a tua própria sensibilidade. No entanto, intelecto e sensibilidade são inseparáveis.
(...)
A neurose europeia encara a felicidade como objectivo e o esforço da razão como o caminho que a ela leva. Há que romper a sua coacção. (...) o objectivo é o deixar-andar mais ingénuo.
(...) chegar ao que interessa. É pelo exame dessa motivação que quero continuar. Uma mistura de cinismo, de sexismo, de "objectividade" e de psicologismo constitui o estado de alma da superstrutura do Ocidente.
(...)
Prometo não prometer nada, sobretudo novos valores.
Peter Sloterdijk, em Crítica da Razão Cínica.
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Depois da década da reconstrução e das décadas das utopias e das "alternativas", tudo se passa como se um elã ingénuo tivesse subitamente desaparecido. Temem-se catástrofes e novos valores têm grande procura, como os analgésicos. No entanto, a época é cínica e sabe que o é: os novos valores têm pernas curtas.
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Uma cultura neopagã que não acredita na vida para além da morte, procura antes desta.
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A velha social-democracia anunciara o slogan "saber é poder" como uma judiciosa receita prática. Pretendia-se afirmar que uma pessoa devia aprender qualquer coisa como deve ser, para mais tarde, vir a melhorar a sua situação. O dito era ditado por uma fé pequeno-burguesa na escola. Essa fé está hoje em decomposição. Só entre os nossos jovens médicos cínicos há uma linha clara que liga o curso ao nível de vida. Quase todos os outros vivem com o risco de aprender em vão.
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Uma pessoa tem de começar por ter um vida melhor para depois poder vir a aprender qualquer coisa razoável. A socialização pela escolarização tal como se desenvolve no nosso país é o embrutecimento a priori.
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No fundo, já ninguém acredita que a aprendizagem de hoje resolve os "problemas" de amanhã; é quase certo, pelo contrário, que os desencadeia.
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Um sem-fim de serpentinas retóricas
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Ser "racional" é inserir-se numa relação particular, raramente feliz, com o sensível. "Sê racional" significa praticamente isto: não te fies nos teus impulsos, não escutes o teu corpo, aprende a controlar-te - e começa por controlar a tua própria sensibilidade. No entanto, intelecto e sensibilidade são inseparáveis.
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A neurose europeia encara a felicidade como objectivo e o esforço da razão como o caminho que a ela leva. Há que romper a sua coacção. (...) o objectivo é o deixar-andar mais ingénuo.
(...) chegar ao que interessa. É pelo exame dessa motivação que quero continuar. Uma mistura de cinismo, de sexismo, de "objectividade" e de psicologismo constitui o estado de alma da superstrutura do Ocidente.
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Prometo não prometer nada, sobretudo novos valores.
Peter Sloterdijk, em Crítica da Razão Cínica.
Levar na cabeça.
“-Gosto muito de bater na cabeça das pessoas com uma certa força.
-Gosta?
-Sim, agrada-me. Dá-me prazer. Uma pessoa vai a passar e eu chamo-a: ó, desculpe, Vossa Excelência?!
(…)
-Ela aproxima-se e pergunta-me: o que pretende? E eu, com toda a educação e não querendo esconder nada, digo: gostava de bater com certa força na cabeça de Vossa Excelência. É isso que eu digo, apenas. Nem mais uma palavra.
(…)
-E o que acontece?
(…)
-O que acontece é isto (…) eles, sem excepção, passado esse momento de silêncio, respondem: ok.
(…)
-Sim, é surpreendente, no mínimo.
-E o que acontece depois? Sempre lhes bate com força na cabeça?
-Sim, bato.
-E eles?
-Ficam quietos até eu parar de lhes bater com força na cabeça.
-E depois?
-Depois vão-se embora.
-Vão-se embora?
-Sim, continuam o seu percurso.
(…)
-Sim. Uma vez tentei fazer isso no campo. (…).
-Começo a esfregar as mãos e a pensar: aí vem alguém a quem vou poder bater com uma certa força na cabeça (…).
- (…) E o camponês fica em silêncio durante alguns segundos, exactamente como os da cidade, e depois desse silêncio de reflexão responde (veja bem!): NÃO.
-Não?
-Exacto. NÃO. Não quer que eu lhe bata com certa força na cabeça.
-Isso é incrível.
-É. Por isso é que eu gosto mais de viver na cidade.
-Os camponeses são mais fechados, não é?
-Sim, muito mais."
O atraso do campo, Gonçalo M. Tavares, em O Torcicologologista, Excelência.
-Gosta?
-Sim, agrada-me. Dá-me prazer. Uma pessoa vai a passar e eu chamo-a: ó, desculpe, Vossa Excelência?!
(…)
-Ela aproxima-se e pergunta-me: o que pretende? E eu, com toda a educação e não querendo esconder nada, digo: gostava de bater com certa força na cabeça de Vossa Excelência. É isso que eu digo, apenas. Nem mais uma palavra.
(…)
-E o que acontece?
(…)
-O que acontece é isto (…) eles, sem excepção, passado esse momento de silêncio, respondem: ok.
(…)
-Sim, é surpreendente, no mínimo.
-E o que acontece depois? Sempre lhes bate com força na cabeça?
-Sim, bato.
-E eles?
-Ficam quietos até eu parar de lhes bater com força na cabeça.
-E depois?
-Depois vão-se embora.
-Vão-se embora?
-Sim, continuam o seu percurso.
(…)
-Sim. Uma vez tentei fazer isso no campo. (…).
-Começo a esfregar as mãos e a pensar: aí vem alguém a quem vou poder bater com uma certa força na cabeça (…).
- (…) E o camponês fica em silêncio durante alguns segundos, exactamente como os da cidade, e depois desse silêncio de reflexão responde (veja bem!): NÃO.
-Não?
-Exacto. NÃO. Não quer que eu lhe bata com certa força na cabeça.
-Isso é incrível.
-É. Por isso é que eu gosto mais de viver na cidade.
-Os camponeses são mais fechados, não é?
-Sim, muito mais."
O atraso do campo, Gonçalo M. Tavares, em O Torcicologologista, Excelência.
Vagabundos.
“Todos os que parecem suspeitos, hostis e perigosos para a boa burguesia”, disse Stirner, “podem ser reunidos sob o nome de “vagabundos”; todas as formas de vida vagabundas desagradam a burguesia. E também há vagabundos intelectuais, para quem a morada hereditária dos seus pais parece demasiado apertada e opressiva para que eles se possam contentar com o seu espaço restrito e, assim, procuram mais espaço e luz noutro sítio. Em vez de permanecerem enrolados na caverna da família, mexendo as cinzas da opinião moderada, em vez de aceitarem o que tem dado conforto e alívio para milhares de gerações como verdade irrefutável, ultrapassam todos os limites da tradição e correm selvagens com a sua crítica imprudente e com a sua indomável mania da dúvida. Esses vagabundos extravagantes formam a classe do instável, do inquieto, do volátil; e quando saem para dar voz à suas naturezas incertas, são chamados de indisciplinados, impetuosos, fanáticos..."
Renzo Novatore, parafraseando poeticamente Stirner.
Renzo Novatore, parafraseando poeticamente Stirner.
Imagens no subsolo.
-Ontem, sonhei com ele. Tinha ar de quem ia para um concerto de rock e olhou para mim como se eu fosse uma aparição. Disse-me que gostava de música, praia e sítios sem ostentação. Perguntei-lhe o que fazia para ganhar a vida. Respondeu que era responsável mas não fazia disso profissão. Fazia o que fosse preciso. Tinha dinheiro para não depender de ninguém. Não lia muito, porque isso dava-lhe cabo da cabeça, mas gostava muito das histórias contadas, dos filmes e dos serões. Falava enquanto organizava umas coisas lá em casa e ia mexendo o corpo, à medida que mudava os discos na aparelhagem de som. Estava moreno. Era verão.
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